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Jovem morto pela PM tinha deixado a Fundação Casa havia um mês

Sempre cercado pelo crime, suspeito de assassinar policial foi morto durante uma operação em Ribeirão Preto

| Jornal A Cidade

Weber San - 03.mai.2015 / A Cidade
Patrick durante entrevista para o A Cidade em 2015 (Foto: Weber San - 03.mai.2015 / A Cidade)

Patrick Cardoso dos Santos, 20 anos, dizia estar com o futuro encaminhado: queria ser pastor e se formar em Administração.

Suspeito pela morte de um policial militar, foi morto pela PM na madrugada desta quarta-feira (20), menos de um mês após deixar a Fundação Casa, onde cumpriu dois anos e sete meses de internação por latrocínio (roubo seguido de morte).

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O caminho de violência começou a ser traçado aos 10 anos, quando pegou a arma do pai – que estava preso – para praticar um roubo, terminou com a mesma brutalidade.

Patrick é suspeito de matar o policial Edson Luiz Marques no domingo e o Ministério Público vai apurar se houve retaliação da PM.

“Só encontrei coisa ruim no crime. Meu sonho começa agora”, em entrevista ao A Cidade em junho do ano passado, ainda como interno da Fundação, o jovem fez planos.

A reportagem traçou o perfil de adolescentes infratores e a história de Patrick foi contada – sob o nome fictício de Paulo.

Aos 9 anos, ele e o irmão foram morar com o pai, que usava drogas. “Minha mãe casou com um cara”, explicou na entrevista. Em poucos meses, o pai foi preso por roubo e os filhos ficaram sozinhos. “Meu tio ajudava, mas a gente ficou sozinho na vida, dona. Eu era um menino segurando uma arma”, Patrick contou.

Até a última apreensão, em 2013, pela morte do pastor Newton Cesar Reyde, ele teve, pelo menos, oito passagens pela Fundação por roubo e tráfico. Em uma delas, informou em relatório que “estava tranquilo pois era a sexta vez que passava por lá”.

Era apontado como um menino comunicativo, calmo, respeitoso e com liderança positiva por psicólogos e assistentes sociais que o avaliaram desde sua primeira passagem, em 2008, aos 13 anos.

Em junho do ano passado, a avaliação da Fundação sobre o jovem ainda era positiva. O juiz Paulo Gentile, da Infância e Juventude, acabara de barrar a saída de Patrick da internação, para contragosto do então diretor da unidade. “Ele é ótimo. Para mim, o Patrick já está pronto para retornar à sociedade”, defendeu Reinaldo Almazan.

Patrick não conseguia contar quantas vezes havia deixado e voltado para a escola. Dizia que não usava drogas. Com o dinheiro dos roubos, comprava para revender e se manter.
Reclamou que, em todas as vezes que deixou a Fundação, o fez sem apoio algum para recomeçar.

Reprodução
Patrick cumpriu dois anos e sete meses de internação por latrocínio (Foto: Reprodução)

“Um garoto foi morto. Um policial é morto. Na sociedade, as respostas são superviolentas. Terminar com a violência cíclica exige quebrar esse muro que acaba fechando pessoas como Patrick nesse cenário”, defende Rodrigo Pereira, do Instituto Sou da Paz.

Nas poucas semanas fora da Fundação, Patrick passou dois dias na casa de uma tia. “Ele disse que queria mudar de vida, arrumar um emprego”, contou uma sobrinha. Não deu tempo. A violência foi mais rápida.

Análise>>>Ninguém respeita as leis

“Apesar de nossas leis serem avançadas, está acontecendo no Brasil, nos últimos três anos, uma reação conservadora de duas vertentes. A primeira é que a instituição, que deveria fazer cumprir as leis, é a primeira a transgredi-las, dando à sociedade o exemplo de que, se a polícia faz justiça com as próprias mãos, isso é normal e todos também podem fazer. A segunda é a criminalização seletiva: pobres, negros, pessoas com baixa escolaridade são vitimizados, elimindos. Junto a tudo isso, falta investimento em políticas públicas. Tentamos solucionar um problema quilométrico com investimentos milimétricos.

Julio Jacobo Waiselfiz, criador do Mapa da Violência

É preciso investir em políticas públicas

Na entrevista de junho passado, Patrick justificou sua vida de crime pela necessidade. “Eu precisava comer e, sozinho, não tinha como conseguir dinheiro se não fosse no crime.”

Na reportagem de junho, A Cidade mostrou, por números, o perfil do jovem infrator: jovens em situação de vulnerabilidade social, que deixaram a escola, moram na periferia, são negros ou pardos, têm16 anos ou mais.

“Enquanto não houver a presença do Estado, oferecendo educação, saúde, políticas públicas, estaremos falando de um problema sem saída. Esses jovens vivem um processo de marginalização”, diz o sociólogo Maximiliano Martin Vicente, professor da Unesp.

É consenso entre Maximiliano, Rodrigo Pereira, que é coordenador da área de prevenção a violência do Instituto Sou da Paz, e Julio Jacobo Waiselfiz, pesquisador responsável pelo Mapa da Violência: é preciso priorizar e investir em políticas públicas.

Pastor

O pastor Newton Cesar Reyde foi morto por Patrick em março de 2013. A Cidade entrou em contato com a família de Newton nesta quarta, que não quis comentar a morte de Patrick. A Fundação Casa tentou um reencontro entre a mulher de Newton e Patrick, mas não foi possível. O jovem escreveu, então, uma carta à família, se desculpando.

Mastrangelo Reino / A Cidade
Cômodo onde Patrick foi abordado pela polícia (Foto: Mastrangelo Reino / A Cidade)

Operação na madrugada

Patrick Cardoso dos Santos foi morto a tiros por um PM na casa onde morava na Travessa Carvalho, durante a madrugada desta quarta, na Vila Albertina, zona Norte de Ribeirão Preto. Os tiros atingiram o tórax e o ombro do rapaz. No boletim de ocorrência, consta que o policial atirou “para preservar sua integridade física e de sua equipe”.

Esse é o sétimo homicídio registrado no ano e a terceira ocorrência em cinco dias envolvendo mortes após supostos confrontos entre moradores e policiais. Patrick era suspeito de ter matado, no último domingo (17), o policial militar Edson Luiz Marques, 44 anos, que fazia a segurança de uma padaria no Ipiranga.

Segundo o boletim de ocorrência, os policiais militares foram até a Travessa Carvalho na madrugada desta quarta para averiguar denúncia de armazenamento de droga e arma de fogo. Após entrarem na casa, após autorização de uma das moradoras, Patrick teria saído repentinamente do cômodo de outro imóvel aos fundos em direção aos policiais portando um revólver calibre 38. A ordem para abandonar a arma não teria sido respeitada. Um dos policiais efetuou os dois disparos.

O tenente Thiago Pedroso nega qualquer retaliação dos policiais em relação à morte do militar no último domingo. “Só fomos descobrir que o rapaz era o Patrick bem mais tarde. Nem sabíamos que ele estaria lá.”

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública afirma que “foi instaurado um inquérito policial militar pelo batalhão, ao mesmo tempo que a Corregedoria da Polícia Militar apura se houve alguma irregularidade na ação”. (Wesley Alcântara)

Investigação

O promotor Marcus Tulio Nicolino afirmou nesta quarta que acompanhará as investigações. Ele pedirá cópias dos boletins de ocorrência envolvendo os três casos de confronto entre supostos criminosos e os policiais civis e militares. “Vou averiguar se existe alguma relação ou não entre os casos. É preciso apurar se é alguma retaliação. Neste momento, não podemos afirmar nada”, deixou claro.

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