O efeito dominó da Operação Sevandija em Ribeirão Preto

Consequências foram tão fortes que abalaram a vida pessoal e política de todos os 31 investigados

    • ACidadeON/Ribeirao
    • Cristiano Pavini
Arte / A Cidade

 

Como um míssil, a Operação Sevandija, da Polícia Federal e do Ministério Público Estadual, devastou os poderes Executivo e Legislativo de Ribeirão Preto. Os efeitos explosivos da operação foram tão fortes que abalaram a vida pessoal e política de todos os 31 investigados.

Da prefeita Dárcy Vera, apontada como a líder do maior esquema de corrupção que a cidade já viu, ao presidente licenciado do Sindicato dos Servidores, Wagner Rodrigues, não há um suspeito sequer que escapou ileso ao rastilho das denúncias: alguns passaram dias na prisão, outros perderam prestígio, cargos, a eleição.

E, no mais trágico dos casos, o empresário Marcelo Plastino cometeu suicídio na noite de sexta (25). Leia a seguir o efeito dominó que a Sevandija provocou na vida dos investigados.

Devastada e à espera de uma tábua de salvação

Dárcy Vera deixa o Palácio Rio Branco devastada pelo maior esquema de corrupção já descoberto no município de Ribeirãso Preto e encurralada pela opinião pública – que, além das irregularidades, enxerga na prefeita uma péssima gestora, reprovada por 97% da população, de acordo com o Ibope. Mesmo se escapar de uma condenação criminal, Dárcy pode ficar inelegível por oito anos e, segundo aliados, já se agarra ao padrinho Gilberto Kassab (PSD) para se manter viva politicamente.

Nos primeiros dias da operação, a prefeita aparentava não ter noção da gravidade da Sevandija. Aos poucos, foi sentindo o golpe. Interlocutores dizem que o “fim do poço” foi atingido com as publicações, pela imprensa de que ela receberia propina do acordo dos honorários de Zuely.

Com seus dois braços-direito presos (o ex-secretário Layr Luchesi Júnior e Marco Antonio dos Santos, ex-superintendente do Daerp), recém-separada do marido e vendo parte de seus assessores se distanciarem, ela apresentou sinais definidos como de “forte abalo emocional” – que resultaram em internação hospitalar por distúrbio gastrointestinal.

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Aliados fiéis chegaram a temer deixá-la sozinha. “Ela estava com os celulares apreendidos pela Polícia Federal e dava um frio na espinha quando ligávamos na casa dela e ninguém atendia.”

Desde a Sevandija, Dárcy evita aparições públicas. Até sua conta no Facebook foi encerrada – a prefeita alega que foi indevidamente excluída em setembro, mas desde então não criou outra.

“Mas se engana quem acha que ela está acabada. Quer exemplo melhor do que o Collor, que foi cassado e voltou?”, diz um membro do alto escalão da prefeitura. “Ela tem futuro na política, mas fora de Ribeirão.”
Antes da Sevandija, Dárcy afirmava ter um acordo com o ministro Gilberto Kassab para assumir cargo público em São Paulo – onde a filha estuda jornalismo – ou Brasília.

O que era opção, agora, se tornou sua única alternativa. O ministro teria, inclusive, reforçado o convite neste mês. “Já está tudo certo para o próximo ano”, diz outro aliado.

Kassab foi questionado pelo A Cidade, mas a resposta veio pela assessoria de imprensa do PSD: “O partido defende que, como todos os brasileiros, a prefeita deve ter amplo direito à defesa, e aguardará a conclusão das apurações”.

Dárcy Vera
Desde que a Operação Sevandija foi deflagrada, Dárcy Vera evitar aparecer em eventos públicos (foto: Matheus Urenha / A Cidade)

 

Operação resgata desejo de cidadania

O promotor de Justiça Leonardo Romanelli, integrante do Gaeco, diz que um dos legados da Sevandija foi “reanimar o interesse da população em participar direta e ativamente da fiscalização e controle da Administração Municipal”.

Um dos pontos de partida da Sevandija foi justamente uma denúncia anônima envolvendo enriquecimento suspeito do dono  de uma empresa com contratos com a Coderp.

“Seguimos confiantes de que a população ordeira ribeirão-pretana continuará a trazer mais elementos e indicativos de ilícitos ocorridos na atual administração”, diz Romanelli. Ele espera, também, que a Operação tenha um “efeito pedagógico muito claro” sobre os próximos políticos: “um aviso de que a sociedade não tolera o desvio de seus tributos”.

O promotor ressalta como efeito concreto da operação a economia de R$ 5 milhões mensais em contratos fraudados, além do bloqueio de 20 imóveis, 60 veículos e R$ 15 milhões em contas bancárias, que poderão retornar aos cofres públicos da cidade.

O promotor diz que as investigações continuam. Já foram ajuizadas três denúncias até o momento e um quarto inquérito – relativo à compra de catracas para as escolas municipais – está em fase de vistoria, mas que já constataram que os equipamentos foram entregues “em número muito menor do que o estimado e contratado, não funcionavam e nem funcionam na forma em que foram contratados”.

Secretários trocam Palácio por Fórum

Acostumados a reuniões no Palácio Rio Branco para discutir os rumos da prefeitura e do PSD, os ex-secretários Ângelo Invernizzi (Educação), Layr Luchesi (Casa Civil e Esportes) e Marco Antonio dos Santos (Administração, Coderp e Daerp) agora têm outro compromisso quinzenal: ir ao Fórum para prestar contas de suas atividades. A medida foi exigência da Justiça para deixarem a prisão. Eles não podem conversar entre si.

Ângelo agora trabalha no administrativo de sua oficina de carros, fundada em 1999, e pretende atuar como auditor contábil.

Luchesi, segundo aliados, se diz injustiçado. Alega que a distribuição de cargos fazia parte de sua função como secretário – essa é, inclusive, sua tese de defesa na Justiça. Ele deve retornar às atividades de bancário.

Já Marco Antonio, considerado por alguns com mais poder do que a prefeita, adotou a reclusão. Pessoas próximas a ele não conseguem sequer contatá-lo. Uma delas foi até sua casa, mas o porteiro do condomínio disse apenas que Marco não estava.

Weber Sian / A Cidade
Ex-chefão do Daerp e da Coderp, Marco Antônio vive hoje recluso e foge dos amigos (foto: Weber Sian / A Cidade)

 

Marco naufraga e afunda o partido 

Antes “cidade-vitrine” do PSD, Ribeirão Preto se tornou um problema para o partido, que ficou em frangalhos na cidade após a Operação Sevandija.  

Marco Antonio dos Santos, presidente interino da legenda em Ribeirão desde outubro de 2011 – assim que o partido foi fundado nacionalmente – entregou em 14 de outubro sua carta de desfiliação. 

Considerado o “cabeça” dos três braços de corrupção revelados pela Sevandija, ele é acusado de 71 crimes. Acabou afastado da superintendência do Daerp e impedido de entrar em prédio público pela Justiça. 

Nos bastidores, responsáveis pela investigação consideram que pesam contra Marco o maior número de provas colhidas na operação e, dificilmente, ele escapará da condenação. Em nota, o diretório estadual do PSD afirmou que irá tratar da situação de Ribeirão na reunião da Executiva, marcada para dezembro. 

Uma das primeiras medidas será colher os cacos do naufrágio na disputa pelo Legislativo. Em 2012, o PSD lançou 20 candidatos a vereador, obteve 27.155 votos nominais e fez três cadeiras. Em 2016, a realidade foi outra: dez vereadores lançados, 7.732 votos recebidos e apenas um eleito (Waldyr Vilella).

A Sevandija e a baixa popularidade de Dárcy tiveram impacto direto no fracasso nas urnas. Nos bastidores, antes da operação, o partido esperava fazer cinco cadeiras. 

Três vereadores considerados puxadores de votos – Bebé, Genivaldo Gomes e Samuel Zanferdini – foram afastados do mandato pela Justiça e, envolvidos nos escândalos de corrupção, não conseguiram ficar sequer entre os 45 primeiros colocados.

A secretária de Assistência Social, Maria Sodré, braço-direito de Dárcy e aposta para manter seu “legado”, também fracassou nas urnas: ficou em 53º lugar.

A perda da máquina pública pode, ainda, implodir a lista de filiados: em novembro de 2016, a legenda tinha 1.790 militantes com o cadastro em dia junto ao Tribunal Superior Eleitoral.

 

 


1 Comentário(s)

Comentário

maria cristina vieira trevizani

Publicado:

A Polícia Federal devia investigar também os acordos que foram feitos dentro do SINDICATO referentes aos pagamentos dos 28% que foram negociados SOMENTE com a BV FINANCEIRA, que resolveu colocar os pensionistas e servidores no SPC E SERASA por conta de um maldito consignado que ficou a cargo do IPM pagar, mostra que pagou mas a desgraça dessa BV diz que não recebeu e pôs sem qualquer pudor o nome de alguns deles no SPC e SERASA. A BV recebeu? Quantos nomes estão com restrição? Entrei com um processo na Justiça por Danos morais faz um ano. Estamos aguardando a decisão da Juíza Flávia Zanferdinni.