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Dos livretos para a lousa: cordel como forma de educar alunos

Professor há 25 anos, Márcio utiliza cordéis para lecionar os alunos de diferentes séries do Ensino Fundamental na escola Dom Luiz do Amaral Mousinho

| ACidadeON/Ribeirao

Alunos do 9° ano do Ensino Fundamental da escola Dom Luiz do Amaral Mousinho seguram cartazes com cordéis autorais (Foto: Weber Sian/ ACidade ON)
Feitos em folhetos pequenos e distribuídos pendurados em cordas e barbantes, o cordel saiu da Europa e chegou ao Brasil pelos portugueses, que disseminaram a cultura da poesia popular com desenhos em xilogravuras. O cordel passou a ser uma das marcas culturais do Nordeste. Dos cantadores e trovadores do Sertão que relatavam histórias de Lampião e João Grilo, a literatura de cordel atravessou o tempo e foi parar nas salas de aula da Escola Municipal Dom Luiz do Amaral Mousinho para retratar temáticas atuais.  

A ideia do professor de história Márcio Fabiano Monteiro surgiu após seu contato, há três anos, com os cordéis. Encantado por fábulas, ele acreditava que elas não seriam o suficiente para atrair a atenção dos alunos do Ensino Fundamental. Nessa literatura, com ajuda de outros professores, ele conseguiu trabalhar fundamentos de poesia prática, rimas, ritmo, organização das estrofes e ilustração com temáticas voltadas aos adolescentes.  

"A gente pode pegar qualquer assunto e transformar em um cordel. Eu trabalho em duas linhas possíveis, uma é transversal. Trabalhar temas que são de interesse dos alunos e de interesse nosso, discussões de questões do dia a dia. E outra linha é quando eu trabalho intertextualidade, como por exemplo, as revoltas do período da primeira república, os processos da independência e da abolição. Assim como trabalho com a História, poderia ser Geografia ou qualquer outra disciplina", explica o professor.  

Com o auxílio da professora de arte Adriana Desidério, a criação dos cordéis foi colocada em cartazes com ilustrações também produzidas pelos próprios alunos. Posteriormente, uma exposição dos cartazes pela escola será realizada.  

"Já utilizei a proposta do cordel em outra rede de ensino na aula de arte fazendo a ilustração em xilogravura, feitas em bandejas de isopor. Qualquer tema ou assunto pode ser desenvolvido em Arte. Arte tem conteúdo é, por si só, é interdisciplinar. A interdisciplinaridade propõe uma educação mais integradora, articulada com enriquecimentos múltiplos, podendo ser individual ou coletiva. É uma aprendizagem ativa, num processo de descobertas dirigidas integrando teoria e prática", explica a professora.  

Segundo Márcio, um dos maiores benefícios em trabalhar com os alunos o cordel, está na possibilidade de estimular a criatividade e interromper o ciclo que acontece com o ensino tradicional.

"Quando você começa a exercer a criatividade, no começo você incomoda um pouco o aluno, ele se sente incomodado. Porque ele acredita que não tem capacidade pra isso por não ser um hábito, o que deveria ser. Mas depois que ele começa a se envolver e é meio que automático, porque as ideias começam a chegar e ele vai se empolgando. O que era um incômodo passa a ser um desafio e termina como um prazer porque tem o resultado do trabalho, que é algo que ele produziu e saiu da cabeça dele. Ele fez e não existe em lugar nenhum, não existe igual", conta.  

Os alunos encontram através do projeto proposto, a oportunidade de se expressar e transpor sentimentos no papel, dando as rimas o formato semelhante a sua voz e suas ideias.  

"Quando você trabalha um tema de ordem mais pessoal como, por exemplo, a intolerância, o cordel vai ficando com a cara do aluno. Vou te dar um exemplo: se o aluno é negro, o cordel de intolerância dele vai falar de racismo. Se o aluno é homossexual, o cordel que ele vai fazer acaba sendo sobre homofobia, se o aluno é gordo ele acaba fazendo sobre a obesidade. [...] Porque a arte funciona muito bem nesse sentido de levar a expressão que o ser humano sente e você vê muito isso", afirma Márcio.  
 

Valorização a Vida  

Em decorrência do Setembro Amarelo, a temática de valorização a vida foi trabalhada com alunos do nono ano da escola Dom Luiz Amaral Mousinho através da produção de uma estrofe trazendo a percepção dos alunos sobre o tema.  

Para desenvolver o trabalho, o professor apresentou o cordel com aspectos de mangá Flor Amarela, produzido pelo parceiro de produção e também professor Arnaldo Martinez, ilustrador e cordelista.  

A história do cordel acabou sendo incluída no programa da EJA Online e no material de formação dos professores da Secretaria Municipal de Educação.  

Tendo como temática a prevenção ao suicídio, os alunos trabalham em cima de temas contrários, que acreditam que mudam e reverte a situação como o amor, a amizade, esperança, perseverança, motivação, o perdão, a tolerância, caridade e empatia. Os estudantes escolhem o tópico que preferem desenvolver na temática e produzem uma estrofe de seis versos rimando o segundo, quarto e sexto.  

A princípio, segundo o professor, eles encontram dificuldades no período de produção, mas se motivam ao observarem os trabalhos e ideias dos colegas. Márcio ainda garante que o cordel pode ser produzido com qualquer série de ensino, desde que tenha a escolha de temas e de produção adaptadas a cada fase.  

"O que muda é a adequação da proposta com a faixa etária. O modo de fazer a atividade, o nível de desafio da produção artística e a temática adequada. O aluno de todas as idades está apto a trabalhar com o cordel dentro de suas limitações e dos conhecimentos que ele tem naquele ano que ele se encontra. É legal porque a gente vai enxergando habilidades nos alunos que a gente não enxergava no dia a dia. Por isso, que é totalmente possível, viável e vantajoso para a escola", afirma.  

Confira vídeo de alguns alunos declamando seus cordéis com a temática:   

 

Sobre o Setembro Amarelo   

A cor amarela foi escolhida para representar a prevenção ao suicídio após, em 1994, nos Estados Unidos, o adolescente de 17 anos Mike Emme cometer suicídio. Conhecido por sua personalidade caridosa e sua habilidade mecânica, Mike restaurou um Mustang 68 e o pintou de amarelo. O automóvel era a grande paixão do jovem e com isso seus pais, Dale Emme e Darlene Emme, distribuíram 500 cartões com fitas amarelas. Os amigos de Mike produziram o cartão com o intuito conscientizar as pessoas a pedirem ajuda quando precisassem.  

Os cartões e as fitas amarela se espalharam pelo país. Em 2003, a OMS (Organização Mundial da Saúde) instituiu o 10 de setembro como o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, e o amarelo permaneceu a cor escolhida para representar a causa.  

No Brasil, foi criado em 2015 pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio Setembro Amarelo, onde durante todo o mês são reforçadas campanhas em favor da vida. Mais informações sobre o movimento e canais de ajuda pelo site.  
 

Mais sobre o cordel  

Há um ano, os professores Márcio e Arnaldo trabalham o cordel pela página no Facebook chamada Versos em Brasa, onde ambos escrevem cordéis ilustrados por Arnaldo e divulgam trabalhos de diferentes temáticas. Versos em Brasa também é uma espécie de sociedade onde os professores procuram disseminar parte da arte e cultura Nordestina através de oficinas de cordéis em escolas públicas e privadas e participações no Grupo da União dos Escritores Independentes e da Casa do Poeta Escritor de Ribeirão Preto. 
(Bruna Zanatto, sob supervisão de Marcelo Fontes)



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