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Há 18 anos, Luci Pereira é voluntária no Theatro Pedro II

Aos 61 anos, ela une uma porção de amores: ajuda a preservar o patrimônio, está sempre em contato com a cultura e transforma seu lugar preferido em lar

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Luci dedicou boa parte da vida ao Theatro Pedro II (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Há 18 anos, Luci tem compromisso marcado aos sábados. Dependendo da semana, estende a agenda para outros dias também. Shows, peças de teatro, orquestra, ópera: a programação é sempre diversa. Ela guarda os panfletos dos espetáculos que assistiu em uma caixa. "Tem muita coisa! É tanto tempo!", adverte. 

Como monitora voluntária do Theatro Pedro II por todo esse tempo, Luci Pereira, 61 anos, une uma porção de amores: ajuda a preservar o patrimônio histórico da cidade, está sempre em contato com a cultura e transforma seu lugar preferido de Ribeirão Preto em lar.  

"O Theatro é meu coração. Eu ando pelos corredores, passo pela sala do espelho, pelas galerias. Venho para zelar por ele. Aqui, me sinto em casa." 

Foi amor à primeira visita. Ela conta que quando se mudou de São João da Boa Vista para Ribeirão Preto, em 1983, aos 25 anos, o Theatro estava fechado, destruído pelo incêndio que marcou sua história em 15 de julho de 1980. "Eu passava em frente e via aqueles tapumes... Ficava horrorizada: como um lugar tão lindo podia estar daquele jeito?"  

Em 1991, o restauro começou. E a ansiedade teve tempo de crescer. Só em 1996 é que Luci pôde, finalmente, conhecer o interior do espaço, com a reinauguração do Theatro. "Meu coração até dispara quando eu falo. Conheci tudo e me encantei!"  

Passou a frequentar o espaço como visitante e o amor só crescia.  

Tanto que, quando soube que a instituição estava buscando voluntários, em 2001, não pensou meia vez antes de se inscrever: "Eu fiquei pensando: será que vou ser aceita? Será que vai ser muito rigoroso o processo?".
 
Comemorou a aprovação com euforia. E é assim ainda hoje. "Eu venho porque gosto, sabe? Faço com prazer!". As funções de monitora vão de recepcionar a plateia a cuidar do espaço. Deve checar se as cortinas estão fechadas, se não há comidas e bebidas sendo consumidas por ali, se cada pessoa está na poltrona correta. 

"Se o público já é assíduo, é mais tranquilo. Quando é um público que não conhece o Theatro, minha função é mostrar. E eu gosto muito. Gosto de apresentar as pessoas para o espaço, mostrar os arabescos, o teto. Elas ficam deslumbradas", compartilha o encantamento que mora no coração.
 
Primeira ópera marcou a história
 
Em 18 anos de voluntariado, as histórias não cabem em um só livro. Quando as câmeras ainda eram analógicas, revelava as fotos com os artistas que passavam pelo palco do Pedro II e guardava em um álbum. Hoje, no celular, tem uma pasta com centenas de registros digitais.
 
Caetano Veloso, Ivan Lins, Guilherme Arantes, Djavan, Simone: a lista é extensa. Ballets do mundo todo, orquestras, músicos, ópera.  

Na ópera, há uma pausa. A primeira que assistiu, ela diz, determinou a noite mais marcante em todo esse tempo. "Eu fiquei estarrecida! Chorei... foi muito emocionante".
 
A pianista que tocou as canções de Chiquinha Gonzaga também está nessa extensa lista de momentos. Luci tem formação em piano clássico. Voltou para casa com vontade de tocar as músicas da compositora brasileira. Buscou as partituras, deixou o encantamento do espetáculo reverberar pelo dia a dia.
 
Como em tudo na vida, há também os momentos não tão bons. Ela já foi alvo de muita falta de educação por parte de quem não respeita o patrimônio. É gente pulando a mureta para chegar ao camarote fechado, consumindo bebidas e comidas no Theatro, reservando uma fileira inteira de poltronas, quando não é permitido. "Mas as coisas positivas são maiores. Ali, tudo vale a pena. Faço com amor. E o diferencial é estar ali por gostar."
 
Conhece cada pedacinho do Theatro que é um pouco seu. Reproduz a história sobre a placa que sobreviveu ao incêndio e preservou, na parede onde estava pendurada, os arabescos que serviram de modelo para a reconstrução de tudo. "Imagine?!", ainda se encanta.
 
É, de fato, uma entusiasta da preservação. Criou um grupo no Facebook, "Lembranças ribeirãopretanas!", que hoje tem mais de 10 mil membros, com o objetivo de resgatar memórias da cidade. "Se a gente não guardar as memórias, no futuro não teremos história para contar", explica os motivos.
 
Só falta quando o trabalho exige. Após 30 anos trabalhando em banco, se aposentou, mas não conseguiu ficar parada. Atua, então, como cerimonialista de festas. Algumas, caem aos sábados. Mas ela dá um jeito de repor o dia ao longo da semana. "Eu não fico sem ir. Tem semanas que, além do sábado, vou em outros dias, quando o Theatro precisa". 

Está convencida de que é a principal beneficiada em ser voluntária de um lugar que é parte de Ribeirão. "O Theatro me traz tudo que eu gosto. Quantas amizades eu fiz! Somo hoje uma família. Quantas trocas! Eu estaria perdendo tudo isso!". Segue seu trabalho, sem nenhuma intenção de fechar essas cortinas. Segue o espetáculo!
 
Theatro Pedro II chama a atenção pela imponência da construção (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
Theatro de histórias  

As obras de construção do Theatro Pedro II tiveram início em 1927, 92 anos atrás, por iniciativa de João Meira Junior. Com capacidade para 1.588 pessoas, o espaço é considerado o terceiro maior teatro de ópera do país em capacidade de público.  

Em 1980, um incêndio destruiu o teatro, que passou por um longo e complexo processo de reconstrução, com uma equipe de aproximadamente dez especialistas da região de Ouro Preto e Belo Horizonte (MG), que recorreram a plantas do projeto original, fotos de época, documentos textuais e até entrevistas com antigos moradores da cidade para conseguir resgatar as imagens originais do espaço.  

Em junho de 2017, a cidade recebeu a doação oficial do prédio do Theatro Pedro II, pelo Governo do Estado de São Paulo. Confira mais informações no site.

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