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O clitóris vai pro saco de novo!

Quando a menina pergunta por que os meninos têm pipi e elas não, o que sempre se disse? Veja a coluna de Luiz Puntel

| ACidadeON/Ribeirao

Luiz Puntel é escritor, formado em letras e colunista do portal ACidade ON (Mastrangelo Reino / Arquivo A Cidade)
Anteontem, comemorou-se o Dia Internacional das Mulheres. Por isso, cabe aqui uma pergunta que nunca se faz em data alguma: secularmente, quais nomes de mulheres anatomistas vêm à nossa mente?  

Evitem perder tempo. Respondo por vocês: nenhuma mulher! Secularmente, todos os estudos anatômicos sobre o corpo humano foram feitos por homens. Inclusive, lógico, os da anatomia feminina.  

A palavra "lógico" foi escolhida de propósito. Sim, porque não é nada "lógico" que até mesmo a genitália feminina (sem trocadilhos, por favor!) tenha sido penetrada por dedos masculinos, tentando explicar o até então inexplicável, ou seja, o prazer feminino.  

Vamos à História! Pelos séculos afora, o clitóris apareceu e desapareceu dos livros de anatomia, ao sabor do moralismo e do puritanismo religioso. Até Freud deu suas dedadas. Admitia a importância do orgasmo feminino, mas afirmava que o orgasmo clitoriano era infantil, e a mulher tinha que amadurecer o orgasmo vaginal. Não é de Freud também o argumento de que a mulher tem inveja do homem porque não tem pênis?  

Por falar nisso, nas famílias, quando a menina pergunta por que os meninos têm pipi e elas não, o que sempre se disse? Que elas têm pipi pra dentro, mas nunca se falou do clitóris, este "desprezado" primo pobre do pênis.  

Foi preciso que uma mulher, a doutora Helen O´Connell, apontasse os equívocos seculares feitos pelos homens. E isso se deu, leitoras pasmem! há menos de 20 anos!
Intrigada com o "desprezo" a que o clitóris foi relegado, a doutora australiana calçou as luvas e começou suas pesquisas. De saída, é preciso rever a palavra "clitóris", que em grego quer dizer "pequeno monte". O clitóris, explica a doutora, não é um "pequeno monte" coisa nenhuma! Ele é um vulcão em erupção, isso sim!  

Em suas pesquisas, ela constatou que o clitóris é muito maior do que se pensava até então. Mede cerca de 8 centímetros, já que ele se ramifica em prolongamentos que envolvem dois bulbos de tecido erétil situados em ambos os lados da cavidade vaginal.  

Isso, sem falar nas terminações nervosas, que somam cerca de 8 mil, em um espaço bem mais compacto que o do pênis, o primo mais estudado, que só chega a umas 5 mil terminações nervosas. Que pobreza!  

Por isso, uma vez estimulado, o clitóris permanece mais tempo em função, o que propicia os chamados "orgasmos múltiplos".  

Isso autoriza a ensaísta Natalie Angier, autora de "Woman: An Intimate Geography", vencedora do prêmio Pulitzer, comparar o clitóris a uma metralhadora giratória. Já o pênis... Bem, é mais comportadinho, mais próximo de um tirim de espingarda mesmo!  

Uma análise detalhada de todos os equívocos dos anatomistas e a recente descoberta da doutora O´Connell está no excelente "CLITÓRIS, O PRAZER PROIBIDO". O documentário da premiada diretora francesa Michèle Dominici está disponível no Youtube.  

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Observação: Esta crônica foi publicada ano passado, neste mesmo dia Internacional das Mulheres. E republico porque o clitóris vai desaparecer novamente. Sem partidarismos, sem mimimis, vamos ao fato concreto. Quinta-feira passada, em pronunciamento televisivo, entre várias decisões presidenciais, o presidente Bolsonaro acatou a denúncia de uma mãe a respeito da Caderneta de Saúde da Adolescente, onde há ilustrações que, segundo o presidente, são "figuras que não caem bem, com toda certeza, para meninos e meninas". Inclusive, o presidente sugere que mães podem arrancar as páginas citadas, se entenderem que suas filhas não estão preparadas para verem as ilustrações. 

A Caderneta, no entanto, é clara. NO texto, dirigido às adolescentes, afirma: "Para o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, adolescente é a pessoa que tem entre 12 e 18 anos de idade. Porém, os serviços de saúde consideram a adolescência a fase entre 10 e 19 anos, pois, a partir dos 10 anos, iniciam-se várias transformações no seu corpo, no seu crescimento, na sua vida emocional, social e nas suas relações afetivas."
 

As ilustrações são das "várias transformações no seu corpo": pelos pubianos, mamas, informações sobre sexualidade, gestação, possível gravidez, camisinhas, entre outras questões atinentes ao nascer da puberdade. E tem ilustração detalhando a vulva e suas partes. Entre elas, ele, o clitóris!
 

A mensagem presidencial é clara: serão recolhidas essas cadernetas, feitas outras, sem as tais ilustrações. Pronto! Sem trocadilhos, de novo, por favor! Mas, mais uma vez o clitóris vai pro saco!


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Puntel, lendo relatório da UNICEF: o Brasil supera a média de países da América do Sul no índice "grávidas adolescentes". Causa? Falta de informação sexual.

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