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Caro Menescal

As suas criações, e as de seus amigos do banquinho e do violão embalaram nossos sonhos; Confira a crônica do médico José Ernesto

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José Ernesto é médico Nutrólogo e professor sênior da FMRP-USP (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Está cada vez mais difícil comprar um CD com música! Estranho a frase parece sem nexo, mas o mercado nacional (e mundial) tem nos imposto peças que, pela definição acadêmica, podemos até chamar de música, mas os meus ouvidos deixam dúvida. São cantores de um único sucesso. Seus nomes são adjetivos até há pouco tempo eram ofensivos. As "composições" são gritos, sem nenhuma poesia ou encanto, com o objetivo de levar o ouvinte ao vicio de repeti-los.  

Recentemente tentava encontrar, em uma loja de CDs da cidade, algo novo. Sei que essa atividade, comprar CD, está fora de moda uma vez que os mais modernos "baixam" as músicas em seus i-alguma coisa. Mas eu ainda os compro! Encontrei num cantinho um, intitulado "The Classics". Pareceu-me ter música! Entre elas, "Love letters", "Manhatan", "Smile", "Moon River". Todas em que, com meu escasso conhecimento musical, identifico harmonia, inspiração e conteúdo. Minha satisfação foi maior quando li, na contracapa do CD que a gravação era de um conjunto (outro nome antigo, hoje se usa banda), composto por Juarez Araújo, Luizinho Avelar, Pascoal Meirelles, Raimundo Bitencourt e, ....Roberto Menescal!! Não tive dúvida é bom, e não me enganei. Excelente. Música para tocar quando chegar ao céu. Se lá chegar.  

Caro Menescal acompanho as sua produção musical e os seus arranjos desde os anos 60 e soube que você iniciou seus estudos de violão com um dos componentes do saudoso Trio Irakitan e depois fez estudos de harmonia com os maestros Guerra Peixe (1914-1993) e Moacir Santos (1926-2006). O maestro Moacir Santos é aquele que Vinicius reverencia em seu "Samba da benção": "A bênção, maestro Moacir Santos/Não és um só, és tantos como/O meu Brasil de todos os santos/Inclusive meu São Sebastião". Ou seja, você estudou com a nata musical, da qual também faziam parte entre outros, Radamés Gnatalli (1906-1988), Francisco Mignone (1987-1986), Camargo Guarnieri (1907-1993). Suas musicas, "O barquinho", "Amanhecendo", "Ah se eu pudesse", "Vagamente", "Nós e o mar", embalaram minha geração, "adolescida" no enredo melodramático de tangos e boleros. Fez suas músicas quando nosso País se modernizava com JK, Brasília e a industrialização. As letra de boleros e tangos não enquadravam mais em nosso enredo. As suas criações, e as de seus amigos "do banquinho e do violão" embalaram nossos sonhos.  

Mas, caro Menescal, você se lembra de que naquele tempo, o locutor de rádio quando anunciava uma música dizia: E agora vamos ouvir "O barquinho", de Menescal e Bôscoli, na voz de Silvia Telles. Meu amigo Fernando Nobre, então locutor e programador da Rádio Renascença, anunciava: Acabamos de ouvir "Da cor do pecado", música de Bororo (Alberto de Castro Simões da Silva- 1896-1986) com Pery Ribeiro (1937-2012). O autor da letra e da música eram anunciados e reverenciados.  

Mas para que falei tudo isso? Leio na contracapa de seu CD que a faixa 1 tem gravado: "Love letters" de Edward Heyman e Victor Hugo! Opa! Que susto! Victor Hugo? Não, esse foi o francês que escreveu entre outras obras primas, "O corcunda de Notre Dame" e "Os miseráveis". O compositor de "Love letters" é Victor Young (1900-1956), grande maestro, compositor arranjador e violinista americano que compôs joias como, "Stella by Starlight", When I fall in love", " Around the world", (Oscar em 1956) e outras tantas.
Mas pensando bem, caro Menescal, como ninguém mais se preocupa em saber quem é o compositor de uma musica, o engano talvez passe despercebido. Mas, voltando ao seu CD, é maravilhoso!

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