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Realidade líquida e bruta

Ignoramos divisões e barreiras e ocupamos espaços diluindo certezas, derrubando crenças e questionando práticas; Confira a coluna do jornalista Gustavo Junqueira

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Gustavo Junqueira é jornalista e articulista do portal ACidade ON (Foto: Weber Sian / ACidade ON)


Vivemos atualmente num mundo líquido, como bem analisou Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês morto em 2017. Ignoramos divisões e barreiras e ocupamos espaços diluindo certezas, derrubando crenças e questionando práticas. Recebemos informação sem parar, não somos capazes de absorvê-las e nem sabemos o que fazer com elas.  

Como diria o entomologista americano e biólogo Edward Wilson, conhecido por seu trabalho com ecologia, evolução e sociobiologia, "estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria". 

Eu diria mais: estamos vivendo num mundo líquido e bruto, que nos oprime com sua violência e nos deixa mal-humorados e inquietos, perturbando nosso sono, com uma avalanche de notícias e narrativas toscas, que hoje ganham seus 5 minutos de fama e amanhã já estarão praticamente esquecidas, sendo substituídas por uma nova enxurrada de conteúdos anacrônicos e questionáveis, bombardeados via mídias sociais, imprensa e outros meios.  

Acompanhe comigo: 300 pessoas são enterradas pela lama em Brumadinho após um estouro de barragem da Vale, repetindo uma tragédia recente. Enquanto isso, nosso presidente que se recupera de uma facada tem um de seus filhos envolvido até o pescoço com um Queiroz laranja. Bebiano alguém lembra dele? - foi exonerado por suspeitas de administrar um laranjal e brigar com o filho do papai Bolsonaro, que não consegue se comportar com seu Twitter e Facebook atropelando a liturgia do cargo. No Carnaval, em clima de folia, espalhou video pornográfico e se mostrou curioso com práticas pouco republicanas. Golden Shower?  

Também atacou as lombadas eletrônicas e a imprensa independente, atribuindo conteúdo de fake news a uma jornalista do Estadão. Da Virginia, nos Estados Unidos, um bruxo obscuro, culto e grosseiro, paladino da luta mundial contra o comunismo, manda e desmanda através de suas mídias sociais no Ministério da Educação do Brasil, humilhando o ministro, degolando desafetos e protegendo seus "alunos" e fiéis seguidores.  

Aqui do lado, a Venezuela derrete fruto de um engodo chamado bolivarianismo. O patético Maduro, já podre, resiste de forma tênue usando a força militar e o poder da corrupção que ainda lhe resta. Um país sem futuro e sem energia, mas que ainda inspira um ator fanfarrão e ideologicamente analfabeto, o Zé do Breu, a se autoproclamar presidente do Brasil. E Donald Trump e o ditador coreano brincaram de paz, mas ficaram de mal, assim como India e Paquistão na Caxemira, e Reino Unido e Europa que não se acertam no Brexit.  

O Carnaval foi apenas um suave break, mas importantíssimo para descobrirmos se Neymar e Anitta ficaram, ou se foi um "ménage à trois" com Gabriel Medina sob o olhar atento de Bruna Marquezine. E agora ficamos sabendo que existe um grupo coreano, k-pop, chamado BTS, que consegue levar milhares de adolescentes e famílias a aguardarem, por dias, um ingresso para um show numa fila em São Paulo. E o pior: os cambistas entraram em ação, houve tumulto, reclamação e polícia ... tudo pelo fanatismo ao ... BTS.  

Entre um tweet presidencial e outro, a polícia carioca finalmente prendeu, após quase um ano da execução do crime, os suspeitos de terem matado a vereadora e ativista Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes. Mas qual não foi a surpresa ao descobrirmos que o assassino é vizinho de condomínio do presidente Bolsonaro, e que o motorista do carro também é Queiroz, não o laranja, mas sim um ex-PM expulso da corporação.  

Para completar o cardápio da semana, mais um desastre aéreo, com 157 mortos na Etiópia. Ninguém sabe porque o 737 mais moderno e computadorizado da Boeing simplesmente cai sem que os pilotos consigam fazer alguma coisa. No mundo inteiro, inclusive no Brasil, os voos com essa aeronave estão sendo suspensos. O medo vem do ar, da lama, das armas e dos tweets ...  

Ainda tentando entender todos esses fatos, inclusive a informação divulgada pelo próprio Bolsonaro de que dorme com uma arma de fogo em seu criado mudo, somos surpreendidos por dois desequilibrados que entraram numa escola em Suzano (SP) para aniquilar estudantes, professores e funcionários, com armas de fogo, arco e flecha e machado. Enquanto isso, a Reforma da Previdência patina sem patrono e as expectativas de melhoria econômica do mercado começam a desidratar o futuro do Brasil.  

Viu só? Em poucos parágrafos, inundei a cabeça do leitor com uma pequena parte das informações que povoaram as mídias sociais e a imprensa nas últimas semanas. Para que servem ou serviram? Tudo muito líquido e bruto, e alguns dos fatos já mesmo esquecidos pela maioria. Afinal, o que importa atualmente para se viver? As milhões de informações que circularam ontem já se tornaram velhas e inúteis hoje. O que vem pela frente?  

O pensador Bauman arriscou uma resposta: "Como o grande filósofo Ludwig Wittgenstein disse, compreender é saber como seguir adiante. E é isso que estamos perdendo. Não sabemos como prosseguir".

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