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Poucos curtiram o enterro

É assim que a comunidade do Instagram está se sentindo desde quando leram um comunicado explicando que o sistema testará a não publicação de curtidas

| ACidadeON/Ribeirao

Luiz Puntel é escritor (Mastrangelo Reino / Arquivo A Cidade)
Leitores, vocês já tiveram a sensação de "perder o chão"? Tudo ia tão bem, mas, de repente, plofiti, foi como se o mundo caísse? Aliás, Maysa, famosa cantora dos anos 60, já teve uma música com este nome: "Meu mundo caiu". 

É assim que a comunidade do Instagram está se sentindo desde quarta-feira, quando leram um comunicado da rede social, explicando que o sistema testará a não publicação de curtidas e visualizações dos usuários. A experiência, segundo os especialistas, evita que os "instagrautas" fiquem mais preocupados em focar na performance do que nas publicações que fazem.  

O comunicado é claro: "Queremos que seus seguidores se concentrem no que você compartilha, não em quantas curtidas suas publicações recebem. Durante esse teste, somente você poderá ver o número total de curtidas nas suas publicações."  

É um teste e não afetará todos os usuários de uma "clicada" só. O comunicado dá a impressão de que a medida afetará apenas parte da galera dos "instagrautas". Já fizeram isso no Canadá e a receptividade foi positiva. Precisam testar se no Brasil se dará o mesmo. Isso porque muitos influenciadores digitais podem entrar em desespero pela ausência da mensuração que garante contratos, seguidores, negócios a serem fechados, egos inflados, etc. 

Agora, filosofemos! Essa questão de ser visto, reconhecido, lembrado, é tão antiga quanto a Humanidade. Mas, não precisamos ir ao tempo de Adão e Eva para provarmos. Basta irmos ao velho e bom Machado de Assis para comprovar esse argumento. No "Memórias Póstumas de Brás Cubas", há uma passagem que trata justamente disso, de "curtidas" e "visualizações", se bem que funéreas e não digitais.  

Vamos ao fato! A jovem Eulália, 19 anos, apelidada de Nhã-loló, a quem a irmã de Brás Cubas torcia para que o irmão se casasse com ela, morre de febre amarela. Morta a jovem, era preciso enterrá-la Damasceno, seu pai, ex-futuro sogro de Brás, arrasado com a morte da filha, mais arrasado ficaria com o descaso dos convidados ao enterro da jovem. Expedira oitenta convites, mas apenas dezenas de pessoas disseram sim ao seu sofrimento. 

Que dezenas, que nada! Compareceram apenas e tão-somente uma dúzia de amigos. Amigos? Nove deles eram amigos do Cotrim, o cunhado de Damasceno. Apenas três - isso mesmo, leitores! apenas três gatos pingados eram de fato amigos do pai da falecida.   

Fosse hoje, leitores, diríamos que Damasceno teria tido apenas três míseras "curtidas", três míseras "visualizações" no enterro da filha. É ou não é motivo para se ficar arrasado?  

Brás consola o ex-futuro sogro, refere-se à peste, que ceifara milhares de vidas, dizendo que "as perdas eram tão gerais que bem se podia desculpar essa desatenção aparente." Mas, Damasceno, arrasado, balançava a cabeça de um modo incrédulo e triste, e desabafa: "Desampararam-me!"  

Imaginemos, agora, Damasceno olhando para o seu Instagram, vendo apenas três míseras "curtidas", nenhum comentário, nem a mais mínima condolência tipo "meus sentimentos". Aliás, já notaram como nessas horas não temos nada a dizer e dizemos o fatídico "meus sentimentos?"  

Cotrim, o cunhado, ainda quis consertar, mas não teve jeito: " - Vieram os que deveras se interessam por você e por nós. Os oitenta viriam por formalidade, falariam da inércia do governo, das panaceias dos boticários, do preço das casas, ou uns dos outros..." 

Damasceno, ainda segundo o relato de Brás, "ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou: " - Mas viessem!"  

"Mas viessem", leitores! Damasceno, mesmo sabendo que viriam por mera formalidade, ainda assim estaria confortado pelas "curtidas" e "visualizações" dos que viessem. Brás ironiza, então, aplaudindo esta "rígida e meiga companheira do homem social", a Formalidade. Aliás, gasta um suculento capítulo, o 127, para exaltá-la, e que indico de graça a quem "curtiu" esta crônica.  

Viram por que é importante se acabar com essa neura de numeralogia de quem se importa com a gente? Com o fim dos números, é o fim da angústia de se saber seguido ou seguidor, caça ou caçador, influenciado ou influenciador. 

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Puntel, arrasado, entreolhando se alguém "curtiu" esta crônica.

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