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O poder autoritário detesta quem pensa

Uma feira literária convidou Miriam Leitão e Sérgio Abranches; Desconvidou-os depois de uma campanha de seguidores de Bolsonaro, contrários ao viés ideológico de esquerda

| ACidadeON/Ribeirao

O jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
Exclusões

A Câmara votará amanhã o projeto que autoriza a terceirização dos funcionários das creches. A pergunta é (ou deveria ser): como se chega a esse ponto, com centenas de crianças sem atendimento e suas mães impossibilitadas de trabalhar? 

Resposta simples: é resultado da péssima administração anterior agravada pela incompetência da atual para solucionar problemas que conturbam o convívio social. Explicação mais verdadeira: quem precisa de creches são pobres e trabalhadores, geralmente da periferia urbana e social, portanto...  

Mas se o fato causa incômodo político, transfere-se a responsabilidade. É crônico: "eles" não desconhecem as necessidades da população. Conhecem de sobra não apenas o imprescindível socialmente como o que deveria ser feito. Todos sabem que as mães precisam das creches dotadas de pessoal especializado para atender a infância.  

Na prática, porém, desdenham-se as carências e o direito do povo humilde e despreza-se o que os especialistas ensinam. Quando a coisa começa a prejudicar a imagem do mandão da hora, bola pra frente. O que significa contratar empresas (mesmo que disfarçadas de "organizações sociais") e desconsiderar conceitos que condenam as gambiarras da exceção.  

Por isso o prefeito não ouviu o Conselho Municipal de Educação, que reprova parcerias mal pensadas e, ele, o prefeito, justifica o irracional com o argumento da urgência.  

Se os vereadores aprovarem o projeto, festa no arraial. Se não, a "culpa" pelas creches fechadas será atribuída a eles. Para as mães que esperam por uma vaga, o que interessa se é legal ou não ou se as creches funcionarão precariamente?  

Ribeirão Preto é cada vez mais excludente: no plano "material", ao não abrir escolas e no "educacional", pondo as creches a funcionar precariamente.
 

Só o começo


O poder autoritário detesta quem pensa. Pela força inverte o conceito de democracia: o vencedor julga-se ungido e diz que os perdedores devem se curvar à "maioria".  

O exemplo mais recente é de Jaraguá do Sul (SC). Uma feira literária convidou Miriam Leitão e Sérgio Abranches para o evento. Desconvidou-os depois de uma campanha de seguidores de Bolsonaro, contrários ao "viés ideológico de esquerda". E como são a maioria acham que exerceram um dever ou direito democrático.  

É o fascismo caboclo que, sem tradição, começa por incentivar o costume. É assim que se inventam as tradições: primeiro a prática tosca, depois a imposição de hábitos como se fossem a vontade popular.  

Na Itália e na Alemanha, nos anos 1920/1930, os fascistas invadiram galerias e bibliotecas, arrebentando obras de arte "degenerada" e livros "imorais". Esse comportamento de vândalos tornou-se um costume que forjou a predominância tradicional intolerante e racista naqueles países.  

A comparação não é excessiva. Na Europa os fascistas que perseguiam intelectuais e queimavam livros mal sabiam quem ou o que estavam atacando. Aqui, os que afrontaram Miriam Leitão e Sérgio Abranches mal têm noção de quem eles são.  

É assim que começa. Vários jornalistas já foram despedidos pela pressão das hordas bolsonaristas e do próprio presidente. É só o começo. Melhor jair se acostumando (já que poucos reagem).
 

Polissemia

Estou atacado pelo Caolho. Caso é que Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha, não tem no ar nem no vento asas, com que se sustenha. 

Digo-vos: isso foi na ditadura. Os militares se constrangiam da boçalidade que representavam. Vejam a foto de Dilma Rousseff depondo à Justiça Militar. Ela está, adolescentemente jovem, de cara limpa, enfrentando a câmera. Os juízes escondem o rosto, envergonhados do papel que faziam.  

Hoje, a história é outra. Não há constrangimento em assumir a bruteza na arena política. A direita esbraveja e ameaça, com a convicção messiânica de que está no caminho certo.
Essa gente que espuma intolerância talvez (sejamos otimistas), aprenda que Perdigão perde a pena.
 

Pagodão

Cesse tudo quanto a antiga musa canta, que outro valor mais alto se alevanta. Minha musa cede espaço para Tião Carreiro e Pardinho cantarem o pagode:

"Onde é que nós estamos, oh! meu Deus tem dó da gente,
mundo velho já deu flor, carunchou toda a semente,
virou um rolo de cobra, serpente engole serpente,
quem vive lesando a pátria dando pulo de contente:
o pobre trabalhador... é o escravo na corrente."
 

Intolerância

A opinião que domina é sempre intolerante, ainda quando se recomenda por muito liberal. (Marquês de Maricá, 1773-1848) 
 

*a opinião do colunista nem sempre reflete o posicionamento do portal ACidade ON

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