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Os homens são de Marte. O que será que tem lá?

Tenho dois irmãos mais velhos. Já nasci num ambiente dominado pelos meninos. Sempre fui grudada no meu pai, que era muito ligado ao futebol. Passei a infância frequentando jogos

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Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental (Foto: Divulgação)

Ao pensarmos no assunto "masculinidade" começam a vir à cabeça trechos de conversas com amigos e pacientes, vivências, enredos e cenas. Talvez seja um pouco atrevido falar de algo que não me pertence e, um tanto quanto arriscado, ser considerada traidora. Mas, audaciosa que sou, vou adiante na minha expedição ao universo masculino.

Tenho dois irmãos mais velhos. Já nasci, portanto, num ambiente dominado pelos meninos. Sempre fui grudada no meu pai, que era muito ligado ao futebol. Passei a infância frequentando jogos, clubes e convivendo com jogadores em casa, no campo, nas peladas e nos vestiários. Sabe aquele típico futebol de quarta-feira? Eu ia junto. Sabe a final do campeonato de várzea? Eu estava lá. Sabe o torneio da série C? Meus irmãos participavam e era o nosso programa de final de semana. Teria, então, já na largada, algumas condições de entender esses seres. Mas, espere ai! Esses seres? Esse universo? Há realmente uma separação a ser feita? Homens são de Marte e mulheres são de Vênus? E os discursos de igualdade, "empoderamento" feminino, ideologia de gênero? Homem não presta? É tudo farinha do mesmo saco? Homem não chora?

Geralmente, idolatramos os irmãos mais velhos e, como os meus são homens, a admiração se estendeu ao gênero. "Papo de homem" me interessa! Sou cervejeira e estou sempre infiltrada nas rodas de conversas masculinas, mesmo sentindo que nem sempre sou bem-vinda. Em reuniões, em que existe aquela separação básica de "mulheres de um lado e homens do outro", quando vejo, lá estou eu novamente. Como menina e caçulinha não me era dado passe livre para entrar no "clube do Bolinha". Quando pequena tentava me intrometer, até porque não me sentia diferente deles. Por ser moleca, fazia tudo o que eles faziam, mas, aos poucos, fui aprendendo que existiam, sim, diferenças, e como o discurso de igualdade não era tão comum na década de 70 fui incentivada a me diferenciar e a me comportar como "uma garota": meninos podem tirar a camisa, meninas devem sentar-se de pernas fechadas. Assim, numa sociedade machista e patriarcal, sentia na pele que os homens eram privilegiados: tarefas da casa, por exemplo, não eram responsabilidade do meu pai nem dos meus irmãos. 

Mas a conversa de hoje não se refere à luta das mulheres por igualdade. Embora essa questão seja de extrema importância, falarei aqui do outro lado da história: de alguns sofrimentos masculinos comuns e das dificuldades existentes e, pouco evidentes, do esquadrão do cromossomo XY.

Há muito tempo atrás, no final da década de 80, num programa de humor com Pedro Cardoso e Luiz Fernando Guimarães, dois casais estavam no cinema assistindo a um dramalhão. As mulheres choravam convulsivamente, enquanto os homens falavam que aquilo era uma bobagem, mantendo a postura de machão. Fim da exibição, todos vão ao banheiro e os homens, aproveitando o fato de estarem sozinhos, desabam a chorar e, de maneira surpreendente, encontram vários outros homens fazendo o mesmo.

Comédia à parte, essa simples cena reflete exatamente uma séria realidade: ainda é muito difícil para grande parte dos homens expressarem honestamente seus sentimentos e demonstrarem sensibilidade. Os homens são realmente oprimidos nesse ponto, vejo isso diariamente em meu consultório.

Muitos me pedem desculpas quando choram, parece que estão fazendo algo errado. No entanto, essa realidade vem mudando. Atualmente, quase 50% da minha clientela é composta por homens, Adoro atendê-los! Valorizo o ato, porque sei que muitas vezes é difícil investir na terapia. Por incrível que pareça, alguns ainda mantém o processo em segredo, às vezes até, da própria família. Gosto, também, porque, se chegaram até mim, são sempre muito empenhados em discutirem seus dilemas com profundidade. É libertador ter com quem falar sobre assuntos como suportar a dor do fim de um relacionamento, a contragosto; recuperar a confiança depois de revelados seus casos extraconjugais; lidar com o conflito entre ter um casamento estável e desejar outras mulheres ou até mesmo estar apaixonado por outra pessoa; assumir que não sente mais nada pela esposa sem conseguir se separar porque tem dificuldade em abrir mão da convivência diária com os filhos; encarar disfunções sexuais; assumir a compulsão por sexo e pornografia, aceitar que faz uso abusivo de álcool e drogas; lidar com sintomas de ansiedade, depressão e esgotamento por excesso de trabalho, sobrecarga por assumirem 100% das responsabilidades financeiras da família, decadência econômica, o peso da paternidade, a hegemonia da mãe no direcionamento das condutas parentais, preocupações com filhos que saíram de casa e do controle; angústias ligadas a escolhas profissionais frustradas; divergências entre suas parceiras e a família de origem, além de outras inquietações comuns a todos nós, como inabilidades na resolução de problemas e dificuldades de relacionamento. Esses, são só alguns exemplos reais de problemas que escuto diariamente.

Contudo, a prova de que a transformação já está ocorrendo, são alguns movimentos criados pelos homens para compartilhar suas inquietações. A comunidade "Papo de homem", por exemplo, tem centenas de milhares de seguidores e reúne ações, artigos e vídeos nos quais são discutidas as especificidades de suas vidas. Outro exemplo, é Philip Roth, considerado um dos maiores escritores americanos de todos os tempos que recheia seus romances, entretendo-nos com diversos dilemas existenciais masculinos.

Se existe uma guerra dos sexos, a batalha atinge emocionalmente ambas as partes. Sofrimento não escolhe gênero. Se o machismo tem que ser combatido, e tem mesmo, não podemos cometer os mesmos erros de nos tornarmos preconceituosas às avessas com posturas que possam sugerir misandria ou androfobia.

Por questões biológicas, históricas, políticas e ideológicas o mundo é machista. É certo e notório que isso deu aos homens poder, mas machismo é emocionalmente tóxico, tanto para homens quanto para mulheres. O assunto é vasto e tende a ser conflituoso e polêmico. Ótimo papo para minha próxima invasão às rodas masculinas de conversa, pois há mais coisas entre Marte e Vênus do que sonha nossa vã filosofia.
 
*Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental do INBIO (Instituto de Neuropsicologia e Biofeedback) de Ribeirão Preto

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