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Abrindo a porta da Sessão de Terapia

Não tenho muita paciência para assistir a séries longas, mas viro maratonista quando aparece alguma que envolva relações interpessoais e tramas psicológicas

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Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental (Foto: Divulgação)
Esperei que chegasse o dia 30 de agosto de 2019 com bastante expectativa. E não, não estava por vir nenhum evento pessoal significativo, seria apenas a estreia da quarta temporada da série "Sessão de Terapia", dirigida e, desta vez, protagonizada por Selton Mello. Não tenho muita paciência para assistir a séries longas, mas viro "maratonista" quando aparece alguma com conteúdo que envolva relações interpessoais e tramas psicológicas. Estou degustando cada episódio calmamente, como aquele bom chocolate que você guarda no criado-mudo e come um pedacinho por dia, porque assim demora mais para acabar. Valeu a espera, a série está ótima: histórias intrigantes representadas por atores revelação super talentosos. 

O projeto original é israelense e foi replicado em vários países. No Brasil, foi lançada em 2012 e é um sucesso até hoje. Cada temporada tem aproximadamente 30 episódios que retratam o processo psicoterapêutico de 4 pacientes, um a cada dia da semana. O quinto dia é a vez da supervisão/terapia do analista, na qual são discutidos seus dilemas pessoais e como eles interferem em seu trabalho. 

O conteúdo é riquíssimo e, apesar das licenças poéticas, é bastante realista e fiel ao que acontece no cotidiano das psicoterapias. O sucesso talvez resulte do fato de agradar a três grupos distintos: psicoterapeutas, pacientes e interessados na temática. A nós, terapeutas, acolhe, pois passamos pelas mesmas dificuldades: o paciente resistente, o agressivo, o que cobra resultados e o que mexe conosco e não sabemos o motivo. 

A quem faz terapia é um exemplo de identificação, de pertencimento, pois é confortante encontrar outras pessoas que sofrem do mesmo jeito; ao público leigo, que nunca consultou um psicólogo, desperta a curiosidade, já que todo mundo tem vontade de espiar o que acontece numa sessão. Em razão do compromisso com o sigilo, os consultórios são blindados, tornando nosso  trabalho atraente, misterioso e, às vezes, temido. 

Falando nisso, aproveito para desmistificar e esclarecer algumas  diferenças entre psicoterapia, psicologia, psiquiatria, psicanálise, "psi isso, psi aquilo". Confuso mesmo! Mas vamos lá! Psicólogo não é psiquiatra e não receita medicamentos. Para ser psicólogo é preciso cursar a faculdade de Psicologia e o psiquiatra é um médico que fez residência em Psiquiatria. A Psicologia é a Ciência que se ocupa, entre outras coisas, em entender e desenvolver o que há de mais específico no comportamento humano: as emoções, os sentimentos e o sentido do discurso, do comportamento verbal.  

A confusão não termina aí. Existem diversas modalidades de psicoterapia que se distinguem de acordo com a maneira pela qual o terapeuta entende a determinação do comportamento. Psicanálise (baseada em Freud e seguidores), psicoterapia analítica (desenvolvida por Jung), terapia fenomenológico-existencial, psicodrama, terapia analítico-comportamental (que é a que eu faço) são algumas delas. 

Caio, o terapeuta da série, passa a maior parte das sessões fazendo perguntas estratégicas sobre os sentimentos e o cotidiano dos pacientes, além de estabelecer conexões entre determinados eventos, do presente e do passado. Sua analista faz o mesmo e com competência. É esse o principal recurso transformador de qualquer processo terapêutico. Isso demonstra a fidelidade da série ao método. 

Outro ponto alto é a exposição dos conflitos emocionais do terapeuta. Quanta sensibilidade! A vida emocional de Caio está um caos. Ele vive um drama pessoal seríssimo (é só o que posso dizer pra não dar "spoiler"). É um paciente dificílimo e, ao mesmo tempo, esforça-se brutalmente para deixar seus problemas do lado de fora de seu consultório. Enquanto está atendendo, dirige atentamente seu olhar e sua escuta ao que o paciente faz e diz. A realidade é exatamente assim. Durante 50 minutos, aproximadamente, ficamos com olhos
fixos e a mente empaticamente conectada ao paciente. Independentemente do que esteja ocorrendo em nossa vida pessoal e de nosso código de valores, permanecemos disponíveis e entregues àquele discurso. Isso exige muito treino, dedicação e estudo. É um exercício que não acaba nunca. 

Especialmente interessante é a forma como os episódios terminam. As sessões acontecem na própria casa do analista e, assim que os pacientes saem, o "setting" muda: sua mulher e filha entram na cena e o consultório vira sala de estar.  

Uma questão tratada explicitamente na série é referente ao valor das sessões. Fala-se em preço e formas de pagamento que são situações ligadas tanto à questão comercial quanto à relação terapêutica. Fazer terapia não é barato e o processo costuma ser demorado. O custo é financeiro e emocional. Os preços variam de acordo com o valor de mercado e nível de formação e experiência do profissional. Existe um preço-base, sugerido pelo Conselho Federal de Psicologia, mas cada terapeuta tem liberdade para cobrar o que acha justo, de acordo com sua reputação, suas despesas, investimento em formação, supervisão e sua própria terapia. Isso não quer dizer que só possa frequentar um consultório quem tenha boas condições financeiras. Atualmente, todos os planos de saúde oferecem atendimento psicológico e há várias clínicas-escola e institutos que disponibilizam o serviço. 

São inúmeros os motivos que fazem com que alguém se desequilibre emocionalmente. Eventos traumáticos, relações doentias, ausência de repertório para resolver problemas, interações desajustadas, alterações neuroquímicas e predisposição genética são alguns exemplos. Não faz muito tempo que ir ao psicólogo significava assinar atestado de loucura ou coisa de madame rica que não tinha com quem lamentar suas futilidades existenciais. Embora ainda haja quem pense assim, está cada vez mais evidente que a prática do psicólogo é tão importante e ampla que vai além dos consultórios. A profissão está na escola, no hospital, no mundo corporativo, no esporte, na política, na mídia e na arte. Quem tem autoconhecimento tem mais condições de prever e controlar o próprio comportamento e tende a melhorar sua convivência em todos os ambientes. 

Lançada praticamente no mesmo período da campanha "Setembro Amarelo" de prevenção ao suicídio, uma ação coletiva que mobiliza a todos e permite que muitas pessoas busquem ajuda, a série "Sessão de Terapia" endossa a ideia de que saúde mental é um assunto sério: estamos muito mais conscientes de que não se trata de "mimimi" nem "blábláblá". Apresentar o cuidado com o sofrimento emocional em uma produção artística de qualidade é um ato digno de nota. 
 
*Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental do INBIO (Instituto de Neuropsicologia e Biofeedback) de Ribeirão Preto 

 
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