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Esta cidade não terá conserto enquanto a política for o concerto tradicional

Esta semana em Ribeirão Preto um grupo de políticos manifestou-se contra a inoperância do prefeito. E daí?

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
O buraco é outro

Palpiteiros sobre urbanismo gostam de divagar sobre a "vocação" ou o "projeto" das cidades. Os mais espertos tentam parecer "científicos", apelando a temas e matérias que rendem bons empregos e poucos resultados. Também há gênios que projetam cidades perfeitas, como Niemeyer e Lúcio Costa, e nada dá certo. Por quê? 

Vejam Curitiba. Saiam daquele pedaço preferido por quem gaba soluções parciais e ignora o conjunto da obra: na periferia curitibana refugia-se a miséria brasileira, com os excluídos nos casebres, barracos e esgoto a céu aberto (visitem o Jardim Icaraí e a violenta região do "Uberaba baixo"). Mas nas redes sociais e nas badalações supérfluas é o paraíso. Claro, os burocratas preferem destacar e satisfazer as necessidades de uma classe média cúmplice e não incomodar a especulação imobiliária. 

Esta semana em Ribeirão Preto um grupo de políticos manifestou-se contra a inoperância do prefeito. E daí?  

Nada. Voltando ao primeiro parágrafo: Ribeirão Preto teve várias "vocações" (café, cerveja, cana) e vários "projetos" (agronegócio, turismo empresarial, capital da cultura), que a cantaram como uma das califórnias que se inventam no mundo das ilusões. Entre "projetos" e "vocações" sociais e econômicos, nada mudou o conjunto da obra. Até tem piorado: o que era ruim (Saúde, Educação, Segurança) ficou pior. 

Esta cidade não terá conserto enquanto a política for o concerto tradicional: não é trocadilho, é alusão ao "convênio" entre administração municipal e o sistema econômico-financeiro que se apropria da riqueza da comunidade.  

Resumindo: ao perdurar essa divisão de renda, fazendo aumentar a distância entre ricos e pobres e valendo-se da falta de solidariedade com a pobreza que sustenta a grande economia, nada mudará.
 

Velha tática

Economistas, políticos e a mídia "trabalharam" nessa semana a notícia de que o funcionalismo brasileiro ganha muito e produz pouco. Segundo eles, alguns com a indignação usual, se os funcionários fossem admitidos com salários menores e não tivessem estabilidade no emprego o Estado faria uma grande economia. Tudo bem, só que generalizam o que é pontual.   

Depois de cortar direitos trabalhistas, diminuir salários é o argumento de quem já não encontra bodes para tirar da sala.  

Ao reproduzir as queixas e acusações de economistas ligados ao governo e ao sistema financeiro, a mídia forja uma "opinião pública" e desvia a atenção dos problemas mais graves. É evidente que há disparidades e privilégios no serviço público; é claro que isso precisa mudar. 

Mas não há repulsa pela exploração da imensa maioria dos trabalhadores e os salvadores da pátria não se preocupam com a concentração de renda. Quem se aborrece ao saber que um por cento dos brasileiros ficam com 27,8% da renda nacional? Qual economista dos grandes jornais fica nervoso com estes dados da Oxfam: 5% dos bilionários brasileiros confiscam mais a renda nacional do que os donos do petróleo no Oriente Médio.  

E os 50 milhões de desempregados é apenas um dado estatístico para sustentar teses ainda mais concentradoras de renda, como as reformas administrativa, trabalhista e previdenciária sem nenhum correspondente que atenue os prejuízos causados aos os trabalhadores. 

A "indignação" é maliciosa. Para não encarar a injustiça social os demagogos pinçam descalabros grupais para penalizar a massa assalariada indefesa.
 

Bancos

Os bancos lucram cada vez mais. Entre julho de 2018 e junho de 2019 obtiveram o maior lucro dos últimos 25 anos: R$ 109 bilhões. Os banqueiros conseguiram um aumento de 18,4% no período. Só um exemplo de como a coisa funciona, além dos juros mais altos do planeta: um correntista descuidado, que não presta atenção nos lançamentos da sua conta, pode pagar cerca de R$ 60 mensais, R$ 600 por ano, só para ter direito a consultas pela internet. Se ele descobrir e reclamar os bancos "negociam" e até "perdoam" a taxa (pode haver melhor prova da sacanagem financeira?) 
 

Um jogo de futebol

Os aiatolás permitiram às mulheres assistirem a um jogo de futebol no Irã. 

Tudo começou com o petróleo. Em 1953 a CIA promoveu um golpe e derrubou o primeiro ministro Mohamed Mossadegh, que tentava nacionalizar o petróleo. O "xá da Pérsia" recebeu poder total, tutelado pelo Tio Sam. "Naturalmente", os poços petrolíferos ficaram com empresas dos Estados Unidos e da Inglaterra. O xá gastou os impostos aparelhando o exército com equipamento norte-americano. O povo, na pior. A oposição na cadeia, exilada ou morta.  

Contra a corrupção o sentimento religioso impulsionou a política e o aiatolá Khomeini depôs o xá e "sagrou-se" ditador, em 1979.  

O Irã tornou-se protagonista de várias guerras. A geopolítica complicou-se, a religião cindiu-se em fanatismos e houve a destruição do Iraque, "naturalmente" para conter o sanguinário Saddam Hussein, até chegarmos ao Estado Islâmico, antes passando por Bin Laden e sua Al-Qaeda. Todos os episódios começaram com conspirações da CIA e culminaram nas intervenções militares dos Estados Unidos, que agora traem os curdos, no litígio com a Turquia, o que pode provocar a volta do Estado Islâmico... (fomentar guerras e vender armas sempre foi um bom negócio).  

Como estão dizendo os analistas internacionais, "naturalmente" o governo do Irã, como o da Arábia Saudita, devem afrouxar as leis que restringem a liberdade das mulheres. "Naturalmente", ninguém se lembra de que tudo começou com um golpe para expropriar o petróleo.
 

Cabra sabido

Cabral era um cara esperto:
inventou-nos e foi embora
e nunca mais chegou perto
dessa terra do Caipora.
 

Espertalhões

O Brasil é uma nação de espertos, que, reunidos, formam uma multidão de idiotas. (Gilberto Dimenstein) 
 
 
*as opiniões do colunista nem sempre representam o posicionamento do ACidade ON

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