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É insuficiente denunciar a ponta do iceberg sem chegar à essência

Ele não foi punido por montar um esquema para nomear diretores de escola e favorecer funcionários afinados com seu grupo.

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Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
É só um cupim

A Sevandija acusa Léo Oliveira das mesmas infrações cometidas pelos vereadores afastados. Mas o crime maior deles é outro. Pior do que obter vantagens pessoais ilicitamente, eles corroem as bases democráticas nas ações "legais" cometidas no dia-a-dia Legislativo. As infrações denunciadas são comuns na política brasileira: meter a mão no dinheiro público atrai milhares de candidatos a cada eleição. 

Esse é o mal menor, que esconde a ação corrosiva nos alicerces da democracia, que debilita o Estado de Direito. Léo Oliveira não é ruim porque se beneficiou da Atmosphera: ele é pior por ser mais um dos que servem mecanicamente, até por inércia, ao esquema que sabota a democracia que lhes permitem "representar" o povo: mais que "meter a mão", deputados e vereadores normalizam condutas que minam a cidadania, mesmo quando agem "legalmente", ao seguir as leis que eles próprios criam.  

É insuficiente denunciar a ponta do iceberg sem chegar à essência da corrupção instalada no interior do sistema político e econômico. É evidente que infratores merecem repúdio. Mas ao se punir apenas o visível, sem atingir a essência do cupinzeiro, a rainha-mãe fará outro ninho e parirá novos cupins. Até a casa cair.
 

O mal que fica

Por exemplo, o ex-presidente da Câmara, Cícero Gomes. Ele não foi punido por montar um esquema para nomear diretores de escola e favorecer funcionários afinados com seu grupo. Nem por direcionar votações que favoreceram especuladores imobiliários. Perdeu o mandato pelas mesmas razões que se atribuem a Léo Oliveira, agravadas pelo "cafezinho", como seu colega Walter Gomes. 

Comparem o dano causado legalmente por Cícero à cidade, com as ações que a Sevandija demonstrou. O que mereceria mais atenção?  

Os instrumentos legais são impotentes para reverter o que os vereadores fizeram ao aprovar leis que lhes permitiram controlar a burocracia. É possível punir o acessório, mas não o essencial. É relativamente fácil enquadrar adeptos do "cafezinho". Desfazer suas artimanhas "legais" é mais complicado: a especulação imobiliária e as licitações dirigidas têm resultados irreversíveis. O desastre na Educação e na Saúde prevalecerá por longos anos.
 

Turismo chapa branca

The Intercept Brasil publicou no sábado, dia 12, que 58 oficiais do Exército brasileiro e suas esposas estão em Paris. Além de hotéis e passagens pagas pelo governo, eles recebem R$ 19 mil de "ajuda de custo", para os treze dias na capital francesa (R$ 1.461,15 por dia). Trata-se da "Viagem de Estudos Estratégicos ao Exterior", costumeira em cada fim de curso da ECEME (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), promovido pelo CPEAEx (Curso de Política Estratégica e Alta Administração do Exército). 

A viagem inclui visitas à Bélgica e à Alemanha, com passeios e "city tours" também pagos pelo Exército. Sobre a presença das esposas dos militares o Exército informou "que não se envolve em questões relacionadas aos acompanhantes".  

Entre passagens e ajuda de custo o Exército gastou R$ 1,585 mi, sem se computar o custo dos "city tours". A justificativa do Exército é promover "o assessoramento de alto nível aos altos escalões do Exército, do Ministério da Defesa e do Poder Executivo", já que a programação inclui visitas à OTAN e ao Ministério da Defesa, além de apresentações a embaixadores e militares franceses (seria interessante saber o que esses coronéis conversam com "embaixadores e militares franceses" sobre a Amazônia: a viagem foi programada em maio, bem antes das queimadas e da opinião de Bolsonaro sobre a esposa de Macron). 

A caravana patriótica embarcou no mesmo dia em que The Intercept deu a notícia: 12 deste mês. Nenhum órgão de imprensa noticiou. O embarque foi discreto, mas algumas esposas dos coronéis, assim que chegaram a Paris festejaram pelo whatzapp.
 

Até o papa

Nem o papa escapa. A onda de insultos a Francisco não parte apenas de inimigos religiosos. Os católicos também estão cindidos e nas redes sociais chamam o papa de comunista. Além de comunista, argentino...  

Por quê? Porque ele recebeu indígenas, confraternizou-se com eles e, ecumenicamente, respeitou suas crenças, defendeu a Amazônia e a diversidade étnica.  

A reação foi instantânea. Não só da "massa" alienada pelo ódio, mas, também, da alta hierarquia da Igreja. O cardeal alemão Walter Brandmuller excomungou o Sínodo para a Amazônia e denunciou Francisco por pretender "abolir o celibato e introduzir um sacerdócio feminino". Segundo o cardeal, isto é heresia logo, o papa é herege. 

Nos Estados Unidos o cardeal ultraconservador Raymond Burke propôs aos católicos um jejum de quarenta dias, contra as "heresias" do documento preparatório do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia. 

O documento "excomungado" começa afirmando que a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos estudará "novos caminhos de evangelização (que) devem ser elaborados para e com o povo de Deus que habita nessa região: habitantes de comunidades e zonas rurais, de cidades e grandes metrópoles, ribeirinhos, migrantes e deslocados e, especialmente, para e com os povos indígenas. Na floresta amazônica, que é de vital importância para o planeta Terra, desencadeou-se uma profunda crise, devido uma prolongada intervenção humana na qual predomina a cultura do descarte e a mentalidade extrativista. A Amazônia, uma região com rica biodiversidade, é multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, um espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja", ou seja, tudo o que a Igreja vem dizendo desde 1962.
O documento completo pode ser lido no site http://repam.org.br.
 

Leitura rápida

O que deveria ser manchete escondeu-se em páginas internas: a concentração de renda e o consequente aumento da desigualdade social voltaram a subir. A última pesquisa do IBGE mostra o rei nu, mas há quem elogie a roupa do mercado. 

Os 1% mais ricos estão 8,4% mais ricos. Os 5% mais pobres, que sobrevivem (!) com R$ 158,00 mensais em média, ficaram 3,2% mais pobres. Em outra comparação, os que têm rendimento médio de R$ 27.744,00 (5% da população) mensais recebem 33,8 vezes mais do que os assalariados cuja média é de R$ 820,00 (50% dos trabalhadores).  

Se é que precisa explicar: a "distribuição" da renda concentra a riqueza e aumenta a misé-ria social. Os masoquistas, ou os sádicos, podem visitar o site do IBGE para conhecerem em detalhes o tamanho do estrago.
 

Ai, Jesus!

se o papa é comunista
o que será de mim,
um falso beletrista
sem meio nem fim?
 

Pax vobiscum  

A justiça se defende com a razão, e não com as armas. Não se perde nada com a paz, e pode perder-se tudo com a guerra. (João XIII, 1881-1963) 
 
 
*A opinião do colunista nem sempre reflete o posicionamento do ACidade ON

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