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O que estará escrito na sua lápide?

Desde que o homem é homem ele se pergunta: de onde viemos, para onde vamos e o que estamos fazendo aqui?

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Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental (Foto: Divulgação)

Sempre fui de filosofar e vivo tentando entender qual é o "sentido da vida". Esse é um exercício comum e antigo, já que desde que o homem é homem ele se pergunta: de onde viemos, para onde vamos e o que estamos fazendo aqui? Já fiz várias vezes o exercício de pensar no que estaria escrito em minha lápide e presenciei várias pessoas fazendo o mesmo. E quais palavras ou frases resumiriam sua passagem aqui na Terra?

Quem busca terapia com o objetivo de ter autoconhecimento, também se depara, constantemente, com essas questões. Escuto, com muita frequência, meus pacientes dizendo que estão perdidos. Essa sensação angustiante é comumente ligada à falta de conhecimento sobre os propósitos da vida - sente-se assim quem não tem a mínima ideia do que veio fazer nesse mundo ou quem passou por um revés, uma mudança de rota, tendo perdido todos os seus referenciais.

Cabe a mim, como terapeuta, seguir com o paciente em direção à construção ou reconstrução dos seus propósitos, dos motivos e dos seus ideais de vida. O processo de terapia buscará, nesse caso, o entendimento de como os valores do paciente foram construídos, ajudando-o a viver de acordo com suas escolhas. Ele irá encontrar contradições, será incentivado a investir em um posicionamento e a assumir responsabilidades, aceitando as renúncias inerentes à corrida em busca de objetivos e metas.

Um dia desses, prestei atenção na letra de "If I ain't got you" (Se eu não tenho você), da cantora pop norte-americana, Alicia Keys. Ela diz: some people live for the fortune, some people live just for the fame, some people live for the power, some people live just to play the game. Traduzindo: algumas pessoas vivem para a fortuna, algumas pessoas vivem para a fama, algumas pessoas vivem para o poder e algumas pessoas vivem só pra jogar o jogo. Logo, pensei: para que será que eu vivo? Quais são os meus valores de vida? Fortuna, fama e poder, definitivamente, não! Jogar o jogo, pode ser, ao menos eu tento.

Pense em um homem de negócios, 42 anos, empreendedor. De origem humilde, construiu FORTUNA com muito esforço. Entrou em uma universidade pública longe da família e, para poder se bancar, dava aulas, à noite, em um curso pré-vestibular. Foi "trainee" de uma multinacional e efetivado logo após a graduação. Trabalhar alguns anos na área comercial de uma grande empresa colaborou para que desenvolvesse competência para os negócios. Pediu demissão, e arriscou seguir sozinho. Com seu temperamento arrojado, envolveu-se em empreendimentos bem sucedidos. Assim, bem antes dos 40, já tinha acumulado seu primeiro milhão, estabelecendo, portanto, coerência entre o que ele vê como valor a fortuna - e seus atos.

Algumas vezes, os valores entram em choque. No mundo das celebridades, a FAMA, parece ser um norte, uma direção. Artistas, atletas e políticos que estão sempre na mídia, ao adquirirem fama e serem conhecidos e seguidos por um número enorme de pessoas, estão mais sujeitos a terem sua privacidade exposta. Vide, por exemplo, episódios recentes ocorridos com Neymar, Fábio Assunção e Sérgio Moro. Praticamente toda a população brasileira acompanhou a invasão de suas intimidades, em que foram expostos os momentos íntimos de um encontro amoroso num quarto de hotel de Paris, os graves problemas causados pela dependência química e as condutas pouco ortodoxas e eticamente questionáveis no campo da política e da justiça. A fama brigou com a privacidade.

Na nossa vida real, no mundo dos anônimos e das pessoas comuns há quem corra atrás de PODER. Diz o ditado que "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Essa frase expressa uma ameaça, o poderoso gosta de mandar, é autoritário, não aceita que as coisas aconteçam de um jeito diferente de seus desejos e manipula com arrogância. Poder não combina com respeito, troca, aceitação e empatia. Relacionamentos abusivos são pobres em afeto, produzem desgaste emocional e violência. Não há poder sem o uso da coerção, e esse tipo de controle gera efeitos colaterais nas pessoas submetidas a ele. Os consultórios de psicologia estão repletos de pacientes que chegam destruídos emocionalmente, por se relacionarem com poderosos coercitivos.

Por fim, há quem viva para JOGAR O JOGO, aceitando as regras da vida, procurando ganhar as partidas, mas respeitando os adversários. Estes têm flexibilidade psicológica e repertório variado para reagir de maneira proporcional aos acontecimentos, dançam conforme a música e vivem no presente, sem apegos ao passado ou fixação no futuro. Jogar o jogo é ser eficiente na relação comportamento-consequência, significa ter a consciência de que foi você quem escolheu quais problemas vai ter de solucionar diariamente.

Já tenho bastante noção do que compõe meu conjunto de valores: família - sempre; trabalho - com muita seriedade; amor - para todos; conhecimento - infinitamente; diversão, cultura, natureza e arte - sempre que possível; amigos - constantemente perto; esportes - diversos e intensamente. Tenho um pouco de tudo isso em meu cotidiano.

E você, quais são os seus valores de vida? Com o que você realmente se importa? Perguntas difíceis, complexas e importantíssimas, mas posso ajudá-lo a pensar nas respostas. Imagine que você completa 90 anos hoje e está realizando uma festa. Como se sente? Como está sua saúde? Quem serão os seus convidados ou aqueles que você gostaria que te acompanhassem até o fim de seus dias? O que gostaria que dissessem sobre você? O que as pessoas estão, de fato, dizendo sobre você, o que você significou na vida delas, como você as afetou? Agora, volte ao momento presente e analise seus atos. Será que está conduzindo sua vida, dirigindo suas atitudes e manejando seus relacionamentos de maneira a permitir que, lá na frente, seus propósitos sejam alcançados? Será que, após a sua morte, a frase que você gostaria que te resumisse será coerente com suas atitudes atuais? 
 

*Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental do INBIO (Instituto de Neuropsicologia e Biofeedback) de Ribeirão Preto


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