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A 'camarotização' das salas de cinema

A imprensa noticiou também um caso interessante: uma professora de Brasília resolveu fazer o Enem para sentir a adrenalina do momento

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Luiz Puntel é escritor e formado em letras (Mastrangelo Reino / Arquivo A Cidade)
A prova de redação do Enem suscitou uma série de opiniões. Algumas coerentes, outras nem tanto. Professores falaram da neutralidade do tema, enquanto outros entendem que não há neutralidade em nenhuma escolha temática. Se problemas estruturais não são abordados, é porque se escolheu omiti-los, excluí-los. 

Falou-se também de cursos que sugerem modelos a serem copiados, alunos que decoram frases deste ou daquele filósofo ou sociólogo, na ânsia de mostrar erudição, já que o Enem cobra a aplicação de "conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema". A imprensa noticiou também um caso interessante: uma professora de Brasília resolveu fazer o exame para sentir a adrenalina do momento. Ela teve duas alunas que tiraram mil no ano passado e resolveu se colocar à prova. 

Até publicaram o rascunho da redação da professora, elogiando o fato dela citar Angústia, de Graciliano Ramos. No romance, segundo a professora, o enredo "retrata a relação de Luís e Marina, caracterizada pela extrema pobreza do casal e, principalmente, pelo fato de ele não conseguir levá-la ao cinema, não poder lhe oferecer oportunidades as quais permitam que ela tenha outras visões de mundo, e isso causa aos jovens angústias e conflitos."
 
Há que se fazer uma pontual ressalva a essa afirmação. Não há, em Angústia, leitura obrigatória da Fuvest para este ano, nenhuma passagem que autorize a professora afirmar o que afirmou. O casal não tinha "extrema pobreza". Luís da Silva até dá à noiva vinte mil-réis para ela comprar o enxoval, e a frívola Marina gasta tudo em bobagens. Apesar desse deslize literário, que inviabilizaria uma possível nota mil, já que a citação é inverídica, a professora fez um texto que merece, sim, elogios.  

E já que falamos em Fuvest, vale ressaltar que este tema, o da democratização do acesso aos cinemas, foi o mesmo tema da Fuvest/2015. Como assim? Quem acompanha vestibulares há de se lembrar que, naquele ano, o tema foi "Camarotização da sociedade brasileira: a segregação das classes sociais e a democracia." Não se tratou do acesso ao espaço do cinema, mas do acesso a campos de futebol, em que ricos e pobres conviviam no mesmo espaço esportivo. A repetição do tema demonstra que não há nada de novo sob o Sol. E quem disse isso não foi Graciliano Ramos, em Angústia, mas o velho e sábio rei Salomão, no livro de Eclesiastes. 

Para finalizar, um fato curioso. Na segunda-feira passada, um dia após milhões dissertarem sobre a democratização do acesso ao cinema, artistas, profissionais do setor audiovisual e representantes do governo se reuniram no STF para discutir a mudança do Conselho Superior de Cinema, que foi retirado do Ministério da Cidadania, indo parar na Casa Civil. E também a diminuição da representatividade dos profissionais do setor na composição do citado Conselho. Além da democratização do acesso às salas de cinemas, há que se discutir que tipo de narrativas cinematográficas passarão a ser autorizadas doravante. Carminha foi incisiva: "Censura não se discute, se combate."  

E, enquanto as cortinas desta crônica vão se fechando, ainda dá tempo de prestar homenagem a um trabalho que é exemplo para todos os que lutam para democratizar o acesso às salas de cinemas e a filmes que trazem criticidade aos telespectadores. Quem faz esse trabalho há décadas, num esforço quixotesco e que merece elogios é o Cine Clube Cauim, com sua programação gratuita para os alunos das escolas da cidade e região. 

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Puntel, tirando o chapéu para o Fernando Kaxassa e sua equipe, coordenadores do Cine Clube.

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