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Para entender porque Evo Morales foi deposto é preciso voltar 152 anos

Em 1867 extinguiu-se o ayllu, a propriedade coletiva da terra pelos índios e oficializava-se a submissão dos nativos à elite branca

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Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
Bolívia

Para entender porque Evo Morales foi deposto é preciso voltar 152 anos. Sim: 152 anos. Em 1867 extinguiu-se o "ayllu", a propriedade coletiva da terra pelos índios e oficializava-se a submissão dos nativos à elite branca. Terminava a fase colonialista e o imperialismo começou a espoliar a Bolívia.  

A prata, o estanho, a borracha, o petróleo e o gás enriqueceram os trustes ingleses e norte-americanos, associados às empresas chilenas. Ao povo restou a coca, usada para enganar a fome. A burguesia aliou-se aos estrangeiros e os militares sufocaram as rebeliões indígenas. Em 1870, o Chile apropriou-se do litoral boliviano. Em 1904, o presidente Rodrigues Alves "desapropriou" 152.582,4 km² da Bolívia, transformando-os no Território do Acre.  

Em 1935, derrotada pelo Paraguai na Guerra do Chaco, a Bolívia que já perdera metade do seu território, ainda "cedeu" à Argentina parte do Chaco. Essa guerra foi "patrocinada" pela Standard Oil, favorável aos paraguaios, que contrabandeavam petróleo para a Argentina, e pela Royal Dutch Shell, que apoiou os bolivianos. Os empréstimos para os canhões vieram do Chase Manhattan Bank (JP Morgan) e do grupo Rockfeller. Em 1971, depois de o general brasileiro Hugo Bethlem afirmar que é necessário tornar "nações como a Bolívia em uma espécie de protetorado" e ser "totalmente a favor da intervenção brasileira na Bolívia", no dia 18 de agosto de 1971 aviões brasileiros pousaram nos aeroportos de El Alto e Santa Cruz, levando armas para os golpistas derrubarem o governo nacionalista de Torres, democraticamente eleito. 

Em 1980, acompanhei em La Paz a repressão contra os mineiros, sindicalistas e socialistas, reunidos em uma assembleia na COB (Central Obrera Boliviana). Em 17 de julho os paramilitares invadiram a COB e metralharam os presentes. O senador Marcelo Quiroga Santa Cruz, que lutava para processar por crimes contra a humanidade o ex-ditador Hugo Banzer, escapou. 

Fui procurá-lo no seu apartamento, de onde ele tentava retirar documentos. A polícia chegou e jogou-o pela janela do décimo andar. Um comunicado oficial dizia que ele "se suicidara".
O que isso tem a ver, 152 anos depois do fim do "ayllu" e quase a meio século do assassinato de Quiroga Santa Cruz, com a queda de Evo Morales? Tudo. É uma história de continuada repressão violenta contra o povo, majoritariamente indígena, que luta contra a espoliação do país. "Rosca", "cholo", "pongo": nessas três palavras condensa-se a história boliviana. É uma sequência de derrotas de um país saqueado pelas grandes potências e cobiçado por ditaduras caboclas, como foi a brasileira.  

O geopolítico Mário Travassos, no livro "Projeção continental do Brasil", planejou um "enclave geográfico" dominado pelo Brasil, entre Sucre, Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra, para permitir a saída brasileira para o Pacífico, usando uma ferrovia. A proposta de Travassos, na década de 1920, foi revivida pela ditadura, especialmente pelos generais Medici e Geisel, insuflados por Golbery do Couto e Silva, cujas "teses" eram defendidas na ESG (Escola Superior de Guerra).  

Sobre a Bolívia escrevi dois livros: "Com a pólvora na boca" (era assim que a repressão explodia os mineiros) e "A Guerra do Chaco" (que traduzido na Argentina como "La guerra del petróleo" roda a América Latina). 

Em tempo: nada disso exclui o fato - Evo Morales foi picado pela mosca azul e, como a maioria da esquerda latino-americana, não organizou a resistência popular e sucumbiu ao caudilhismo (do qual Lula está a menos de um passo). 


Assassinatos

Jeanine Añez autoproclamou-se presidente da Bolívia. A classe dominante e dirigente boliviana é branca "de raiz", originária da conquista espanhola e de uma imigração que representa apenas 15% da população. Os demais 85% são indígenas, das etnias aimará, quíchua, chiquitana e guarani nesse grupo cerca de 30% são mestiços entre si, com algumas pitadas "brancas". Mesmo em Santa Cruz de La Sierra, reduto da direita com mais habitantes "arianos", os mestiços são a maioria da população, além dos índios ayoreo, chiquitano, guarani, guarayo, mojeño e yuracaré, que habitam as favelas da periferia e falam suas línguas maternas. Em Santa Cruz vivem 70 mil alemães menonitas, que só falam alemão e evitam contato com os bolivianos. 

Evo Morales é o primeiro índio "puro" a chegar à presidência. Contraria o processo "normal" desde a conquista espanhola. Em 1904, um relatório econômico do governo dizia: "É necessário eliminar da população produtiva o elemento incivilizado que forma grande parte do território nacional (...) a classe nativa subjugada é de pouca importância em relação ao processo econômico (...) a produção nacional está associada somente à população branca".  

Em 1946, o presidente Gualberto Villarroel defendia os indígenas. Alcides Arguedas, proeminente intelectual na época, antecipou o seu fim: "Villarroel rodeia-se de uma indiada e, consequentemente, estamos no último piso da escala social". Em 21 de julho daquele ano Villarroel foi deposto e arrastado pelas ruas, assassinado a facadas e pontapés. Seu cadáver foi pendurado em um poste na Plaza Murillo, em frente à sede do governo.  

Ao exilar-se, Evo Morales escapa do destino de nove presidentes bolivianos assassinados. Quatro deles no exercício da presidência: Pedro Blanco Soto, Manuel Isidoro Belzu, Agustin Morales e Gualberto Villarroel. Cinco, ao deixar a presidência: Antonio José de Sucre, Mariano Melgarejo, Hilarion Daza, José Manuel Pando e Juan José Torres este, assassi-nado em Buenos Aires, em 2 de junho de 1976, pela Operação Condor, com a colaboração dos ditadores Hugo Banzer (Bolívia) e Jorge Rafael Videla (Argentina).
Quem garante que Morales não seria o próximo?
 

Se lhe parece...

Quem nada sabe
sobre aquilo que não sabe
tem certeza de que sabe;
quem sabe que sabe
duvida do que sabe;
nesse imenso latifúndio
qual a parte que lhe cabe? 


Messias


"A Bíblia voltará ao Palácio do Governo." (Luiz Fernando Camacho, o Bolsonaro boliviano, líder do movimento que depôs Evo Morales). 
 
 
*a opinião do colunista nem sempre representa o posicionamento do portal ACidade ON

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