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ACidadeON Ribeirão Preto

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A playlist do amor

A música carrega em si o poder de provocar sentimentos, despertar sensações e descrever as infinitas possibilidades de afetos e emoções

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental (Foto: Divulgação)

Aviso aos navegantes: o texto de hoje vem com trilha sonora! A música, como qualquer obra de arte, carrega em si o poder de provocar sentimentos, despertar sensações e descrever as infinitas possibilidades de afetos e emoções. E faz isso com excelência! É uma das maiores maravilhas já inventadas pelo homem, pois acelera o coração, ativa memórias, faz rir e faz chorar. Pode acompanhar qualquer situação: do elevador à cerimônia de casamento, da canção de ninar à orquestra sinfônica. Arnaldo Antunes diz que tem música para qualquer situação: "música para ouvir no trabalho, música para jogar baralho, música para girar bambolê, música para querer morrer".

Gosto muito de uma brincadeira que batizei de "brincar de música". Geralmente, brincamos em família nas viagens longas de carro. É um jogo parecido com o "Qual é a música?", do programa do Silvio Santos. Cada participante escolhe uma palavra e os outros cantam alguma música que a contenha. Quando a eleita é AMOR, fica fácil, pois há milhares e milhares de canções em que ela aparece. Considero o amor o mais nobre dos sentimentos, o mais primitivo, o mais complexo, o mais rico em experiências sensoriais, o melhor combustível e o mais complicado, doloroso e difícil de administrar. Além da música, há muito amor em poemas, filmes, romances, dramas, comédias, cinema, teatro. Na Língua Portuguesa, amor é substantivo, mas na vida real é verbo: ação. E como tal, envolve emoções, tem história e acontece em determinados contextos. O filósofo Luiz Felipe Pondé, com seu costumeiro tom provocativo, no ensaio Amor para corajosos: reflexões proibidas para menores, adverte que para encarar os percalços do amor é preciso ser forte. Segundo o autor, é uma das experiências mais marcantes da vida: é céu e inferno, é nascimento e morte. É um afeto longe de ser tranquilo, enlouquece, destrói e não tem, necessariamente, nenhuma relação com a felicidade. Mas, ainda assim, afirma que vale a pena amar. Vinícius de Moraes e eu, também concordamos que "mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão, porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu".

E quase todas as músicas que falam de amor mencionam que ele vem sempre acompanhado de um tanto de sofrimento. Basta ligar o rádio para encontrarmos doses cavalares de amor e "sofrência".

Terminar uma relação sempre dói, mesmo quando há consenso. Às vezes, o amor acaba e como nos conta Maria Rita, "continuar a trajetória, é retroceder". Ela nos lembra, ainda, "que não há no mundo lei que possa condenar alguém que a um outro alguém deixou de amar". Alguns irão vivenciar dores terríveis como raiva, ira, tristeza, vazio. Elis Regina se separou de um de seus amores e notou que o seu "olhar era de adeus" e, então, "agarrou-se em seus cabelos, nos seus pelos, seu pijama, nos seus pés, ao pé da cama". Foi desesperador! 
  

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Como disse há pouco, amor é sentimento e é ação. Uma relação amorosa é, por definição, o resultado da interação entre duas pessoas que se amam, sejam elas cônjuges, namorados, amantes ou "ficantes". Ambas, iniciam uma espécie de pacto, no qual são estabelecidas as atitudes esperadas para cada situação, e em que são determinados os compromissos, os limites, as regras e as devidas renúncias. No entanto, esse pacto costuma ser um acordo tácito e os direitos e deveres de cada um nem sempre são verbalizados. Os parceiros se encontram, vão ficando juntos com regularidade e, geralmente, só irão "discutir a relação" quando surge algum desequilíbrio nas expectativas. Chico Buarque pediu, muito assertivamente, que deixassem em paz seu coração, pois ele era "um pote até aqui de mágoa", e que "qualquer desatenção" podia "ser a gota dágua".

Amar é conflitante, e há situações em que a razão briga com a emoção. Você sabe que não deve continuar, mas não consegue sair da relação, "veja bem, é o amor agitando o coração, há um lado carente dizendo que sim, e essa vida da gente gritando que não". Beth Carvalho e Zeca Pagodinho disseram, certa vez, que "neste mundo não tem professor pra matéria do amor ensinar, nem tampouco se encontra doutor, dor de amor é difícil curar". E tudo é possível para encontrar a cura dessa dor. A súplica é uma das maneiras mais comuns para se ter o amor de volta e terminar com o sofrimento, mesmo que temporariamente. Fábio Junior, depois de passar tantas noites rolando na cama, tentou voltar ao recomeço, dizendo que não conseguia mais "dormir sem teu braço", pois seu corpo já estava acostumado. Roberto Carlos também cantou desesperadamente: "eu não vou saber me acostumar [...] sem seu carinho, amor, sem você".

Estar numa condição aversiva pode gerar atitudes agressivas como ironia, ameaças, ofensas e vingança. O próprio Roberto rogou a maior praga de todos os tempos quando disse à amada: "não adianta nem tentar me esquecer, durante muito tempo em sua vida eu vou viver, [...] se outro cabeludo aparecer na sua rua [...] imediatamente você vai lembrar de mim". E ainda ameaçou: "não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada", obviamente, torcendo para que isso acontecesse.

Há mais de 20 anos, conheci o "amor da minha vida [...] nossos destinos foram traçados na maternidade". Começou com uma paixão avassaladora de filme, de livro, de doer e, como toda boa história de amor, é repleta de prazer e sofrimento. Passamos os primeiros anos namorando à distância. Avisei-lhe, logo de cara: "eu sei que vou te amar" e "em cada despedida eu vou chorar desesperadamente" Quanta choradeira no trajeto Ribeirão Preto-São Paulo! Porém, faz parte, pois "a tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim". O namoro foi longo e eu queria casar e assim como o Cazuza, queria "transformar o tédio em melodia [...] ser teu pão, ser tua comida". Ele e o Chico Buarque eram meio reticentes e diziam: "não se afobe não, que nada é pra já, o amor não tem pressa ele pode esperar". Valeu a espera, ele me pediu em casamento com direito a anel de noivado e tudo mais, e eu aceitei o pedido dizendo: "por onde for, quero ser seu par".

Chegou um momento em que eu queria "um amor maior, amor maior que eu". Vieram as filhas, que são a personificação do grau máximo de amor que já pude experimentar, amor que é sentido e vivido todos os dias e que não muda mesmo oscilando entre "apaixonamento" cego e desespero, orgulho, medo, gratidão, saudade e cansaço. Ter filhos é uma experiência tão extraordinária que até quando você está "bem cansado, ainda [...] existe amor pra recomeçar" Se nem mesmo o amado compositor Arlindo Cruz soube dizer o que é o amor, não terei eu tamanha ousadia ou pretensão. "Se perguntar o que é o amor pra mim, não sei responder, não sei explicar". Só sei que "qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar" e que "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". E "pra quem nunca encontrou o amor" deixo aqui um conselho: "tenha fé, vá na fé, nunca perca a fé em Deus".


Lista de músicas, por ordem de aparição:

1. Música para ouvir: Arnaldo Antunes

2. Como dizia o poeta: Toquinho e Vinícius de Moraes

3. Trajetória: Maria Rita

4. Atrás da porta: Elis Regina

5. Gota d´água: Chico Buarque

6. Grito de alerta: Maria Bethânia

7. Dor de amor: Beth Carvalho e Zeca Pagodinho

8. Volta: Fábio Junior

9. Amor perfeito: Roberto Carlos

10. Detalhes: Roberto Carlos

11. Exagerado: Cazuza

12. Eu sei que vou te amar: Vinícius de Moraes

13. Desde que o samba é samba: Caetano Veloso e Gilberto Gil

14. Todo amor que houver nessa vida: Cazuza

15. Futuros amantes: Chico Buarque

16. Andança: Beth Carvalho

17. Amor maior: Jota Quest

18. Amor pra recomeçar: Frejat

19. O que é o amor: Arlindo Cruz

20. Paula e Bebeto: Milton Nascimento

21. Pais e filhos: Legião Urbana

22. Fé em Deus: Diogo Nogueira
 
 
*Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental do INBIO (Instituto de Neuropsicologia e Biofeedback) de Ribeirão Preto

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