Aguarde...

ACidadeON Ribeirão Preto

docon

Sonhar não custa nada

A garota vivia entediada e, para passar o tempo, costumava tirar umas sonecas embaixo de alguma árvore no esplêndido jardim do seu palácio

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental (Foto: Divulgação)
 
Era uma vez uma menina muito esperta que morava num lindo palácio na Inglaterra, no século XIX. Tinha um pai carinhoso e compreensivo e uma mãe muito exigente e opressora empenhada em fazer com que ela se adequasse ao rígido padrão moral da época. A garota vivia entediada e, para passar o tempo, costumava tirar umas sonecas embaixo de alguma árvore no esplêndido jardim do seu palácio. Certo dia, num desses momentos de descanso, surpreendeu-se com a aparição de um coelho branco de colete e relógio e passou a segui-lo. Ao entrar em sua toca foi parar num outro universo, em que a realidade se misturava ao impossível. Experimentou diversas aventuras, enfrentou desafios absurdos e conviveu com seres bizarros como um chapeleiro maluco, uma lagarta que fumava "narguilé", um gato listrado sorridente e duas rainhas.

Aposto que todos reconheceram essa história, afinal de contas, Alice no País das Maravilhas, publicado por Lewis Carroll em 1865, é um clássico da literatura mundial. Uma história riquíssima, tanto pela originalidade quanto pela qualidade do conteúdo, abordando críticas à cultura da época e meandros da mente humana, e que continua sendo lida por adultos e crianças de todo o mundo. Virou animação da Disney na década de cinquenta. Nossa, quanto tempo já se passou! Em 2010, a obra foi adaptada por Tim Burton para o cinema de maneira espetacular em mais uma produção dos estúdios de Wall Disney. Essa versão, especificamente, manteve o enredo original, mas é um filme para o público adulto apurado na fantasia, figurino e nas possibilidades de análise. Tudo o que acontece na história é a representação de um sonho da personagem, e é esse, em minha opinião, um dos principais motivos dessa obra ser tão explorada e admirada por mais de duzentos anos.

E quem nunca se impressionou, ficou assustado ou se deliciou com esse conjunto de imagens confusas e pensamentos sem nexo aparente, que ocorrem involuntariamente durante o sono e intrigam e fascinam o ser humano desde que o mundo é mundo? Eu sonho bastante, sonho até no cochilo sagrado e reparador de quinze minutos que faço todos os dias após o almoço. Sonhos lúcidos, gozosos, de perseguição ou pesadelos. Alguns são recorrentes e me acompanham por toda a vida. Um deles é estar em viagem, em lugares que nunca estive, com pessoas de grupos distintos, tentando, sem sucesso, chegar a algum lugar. Freud explica! E também sonho muito que estou contando para alguém algum assunto que, na verdade, é conteúdo de algum novo texto. Pode parecer estranho, mas parte do que vocês leem aqui, nessa coluna, é produzido enquanto eu durmo.

Os sonhos são um fenômeno desordenado, misterioso e sem explicação lógica e como não temos ferramentas racionais para entendê-los costumamos fazer interpretações aleatórias, conexões com eventos conhecidos ou recorremos a razões espirituais e místicas para tentar explicá-los. As definições apresentadas pela Religião, Filosofia e senso comum definem os sonhos como anseio, vontade, imaginação, utopia, premonição, fantasia, ilusão, aspiração e ficção. No campo da Psicologia, mais especificamente das psicoterapias psicanalíticas, a interpretação dos sonhos é uma das partes mais importantes de seu arsenal teórico e metodológico.

O sonho de Alice pode ser interpretado de diversas maneiras e cada um de nós que se arrisca nessa tarefa certamente irá fazer considerações diferentes. A meu ver, a história representa a fuga da realidade, estratégia comum quando se vive numa sociedade repressora, moralmente rígida e hermeticamente arcaica, caso da época vitoriana, em que a história se ambienta. A fantasia vivida por Alice a coloca sempre diante de dilemas existenciais, e em sua viagem, e na minha, busca estratégias para resolver conflitos ligados à culpa, prazer, pecado, aprovação social, loucura, enfrentamento, maturidade e subversão. Outro ponto característico da história é a busca por saídas e soluções: o sonho de Alice é uma espécie de oráculo, já que ela está o tempo todo fazendo perguntas aos personagens. As respostas são sempre indiretas e provocam reflexão como, por exemplo, "se você não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve". Um diálogo que eu gosto muito é um trecho de uma conversa entre Alice e o Chapeleiro Maluco, em que ela lhe pergunta se está ficando louca e recebe uma resposta interessante: "Louca, louquinha! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são".

E por falar em oráculo, o neurocientista Sidarta Ribeiro, importante autoridade no estudo sobre o sono, acaba de lançar o livro O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho - um deleite de leitura e uma espécie de dossiê a respeito do tema. O trabalho é o resultado de anos e anos de pesquisa que incluiu elementos da História, Antropologia, Psicanálise, Psicologia, Religião, Mitologia, Arte, Neurofisiologia e Biologia Molecular. A obra nos dá um belo norte para desbravarmos esse mundo, e explora o fenômeno onírico através de exemplos e relatos de experimentos. O autor afirma que as reflexões a respeito de sonhar estiveram presentes durante toda a história da civilização e seu significado vai muito além da atividade mental neurofisiológica, da revelação de desejos ocultos ou de mensagens divinas e sobrenaturais. Seu entendimento envolve questões ligadas ao metabolismo do organismo, ao funcionamento cerebral como um todo, aos mecanismos da memória, ao subterrâneo da consciência e até à permanência do homem no planeta Terra.

A utilização do relato de sonhos é algo comum e frequente em qualquer tipo de psicoterapia. Somos solicitados, diariamente, a desvendar o significado de sonhos impactantes e incompreensíveis e a Psicanálise de Freud e seus sucessores e a Psicologia Analítica de Jung são as abordagens da Psicologia mais frequentemente associadas ao uso do relato e análise dos sonhos como instrumento psicoterapêutico. Assisti recentemente a um filme austríaco-alemão, sensível e forte chamado A Tabacaria (2018). Trata-se da história de um jovem garoto que sai do interior da Áustria para trabalhar em uma tabacaria em Viena. Ele estreita um relacionamento com um cliente ilustre, ninguém menos que o Doutor Sigmund Freud, que passa a lhe dar conselhos amorosos com base na interpretação de seus sonhos. É um filme bem rico, com uma atmosfera simbólica, que explora a questão do desejo e das pulsões sexuais, a elaboração psíquica e o modo de funcionamento da mente.

Já para uma terapeuta analítico-comportamental, como eu, o relato dos sonhos é um dos instrumentos a partir do qual o cliente é conduzido ao autoconhecimento. O sonhar é influenciado por experiências como privações, preocupações, medos, expectativas, conflitos e condições corporais. É uma maneira de comportar-se e, como tal, deve ser interpretado em função da história de vida do indivíduo que sonha e à luz das circunstâncias que estão em operação quando ele ocorre. Cabe ao terapeuta integrar o conteúdo do relato com outros comportamentos que o cliente emite, avaliando regularidades, reações típicas, déficits, excessos e reservas comportamentais. Diante do relato, pergunta-se: qual relação o cliente faz entre esse sonho e sua vida atual, o que se parece com algo que esteja vivendo e qual sensação ou sentimento que apareceu no sonho o faz lembrar de algo que tenha sentido ultimamente? Esse questionamento o estimula a reconhecer os elementos que formam uma cadeia de situações e ações e o faz ser um observador mais acurado do seu próprio comportamento. Que tal experimentar responder a essas questões?

Sonhar não custa nada, mas é uma nobre prática e um elo muito útil no processo de tomada de consciência, além de ser fundamental na manutenção da saúde. Durante o sonho, revisitamos o passado para resolver o futuro, realizamos sinapses, simulamos vivências, solucionamos dilemas, exercitamos a criatividade e desintoxicamos o cérebro. Todos nós sonhamos, embora nem sempre lembremos dessas preciosidades e, assim, ficamos impossibilitados de registrar e relatar nossos sonhos a quem nos ajude a entendê-los. O professor Sidarta nos presenteia com uma receita para estimular sua ocorrência e lembrança. Ele sugere que, antes de dormir, digamos a nós mesmos, como um mantra, "vou sonhar, lembrar e relatar". E ao despertar, tenhamos lápis e papel por perto para registrarmos as imagens, enredos e sensações que surgirem. Esse rico material são metáforas da vida no período de vigília e podem dar sentido à nossa existência. 
 
*Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental do INBIO (Instituto de Neuropsicologia e Biofeedback) de Ribeirão Preto

Mais do ACidade ON