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Arautos do retrocesso

Há 45 anos estou em sala de aula, quer como professor do Ensino Médio, quer como professor de oratória

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Luiz Puntel é escritor e formado em letras (Mastrangelo Reino / Arquivo A Cidade)

Há 45 anos estou em sala de aula, quer como professor do Ensino Médio, quer como professor de oratória. Certamente, se fizermos as contas, chegamos à casa de milhares de alunos encaminhados profissionalmente. E, entre tantos, centenas de alunas se profissionalizaram e hoje são médicas, enfermeiras, dentistas, engenheiras, arquitetas, professoras, entre tantas outras profissões.

De todas elas, muitas se enveredaram para áreas científicas. Que bom! No entanto, não é o caso da maioria das mulheres, alunas ou não. Sabemos que até há pouco tempo, em torno de 70 anos, à mulher era reservado o trio casamento-parto-maternidade, o famoso bela, recatada e do lar. Uma rápida busca na internet nos leva a ler algo arrepiante. Em uma edição da revista Housekeeping Montly, que traduzindo literalmente quer dizer "Limpeza de Casa Mensal", lemos mais de dezoito conselhos que uma mulher pudica e pudibunda, ou seja, virtuosa e caseira, deve agir em relação ao maridão, coitado, que chega cansado do trabalho e precisa que a mulher esteja com o jantar pronto e pronta para, tirando os sapatos dele, fazer um escalda-pés no herói familiar.

Mas, por que as mulheres ainda não ocupam plenamente o universo científico, se já avançaram tanto em suas conquistas? Será que avançaram tanto assim? Não, infelizmente não! Basta lermos o relatório do PISA, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, seja de 2018 ou o de 2015, para comprovar esse dado. Nele, fica claro que não há incentivo, não há confiança e falta motivação para elas avançarem no campo que secularmente foi restrito ao mundo masculino, a ciência.

Apesar de, em pouco mais de meio século, termos tido avanços significativos na equiparação laboral e de igualdades para ambos os gêneros, propondo equilíbrios entre o masculino e o feminino, ainda há muito o que caminhar.

No entanto, volta e meia, aparecem os arautos do retrocesso, que propõem a volta ao passado não muito distante, tornando a ver a mulher como objeto do desejo masculino, como se ela fosse um apêndice, uma sombra do maridão, coitado!

Basta olharmos as notícias aqui e ali para comprovar isso. Está aí o recente caso do motorista de Uber que se engraçou com uma passageira, porque ela "estava com um short do tipo Anitta, miniblusa e com as pernas abertas", segundo ele. Também é recente, o ato sexista na apresentação do time feminino do Atlético Mineiro. O atleticano fantasiado de "Galo Doido" faz uma das atletas dar a clássica "voltinha", fazendo-a girar o corpo, expondo-a de forma chula, como um objeto. Sim, porque, em seguida, afasta-se, esfrega e leva as mãos à boca fazendo um gesto chulo de "degustação".

Mas, e quando as expressões chulas e sexistas são feitas por quem dirige a Nação? Um ex-presidente já usou expressões sexistas chulas como as mulheres terem que ter "grelo duro" para o defenderem. O atual não ficou atrás e ironizou, com insinuações também sexistas e chulas, afirmando que a jornalista "queria dar o furo a qualquer preço". Pode isso, produção?

É necessário, portanto, continuar a desmantelar os estereótipos na educação das meninas, deixando de querer que sejam princesas, donas do lar, ou objeto da sanha masculina.

E, para que a mulher continue a lutar pelo direito libertário, que é ser dona do seu nariz, da sua profissão, do seu espaço na sociedade, é preciso que ela não se conforme com a relativização que o mundo machista impõe, o de ciência ser coisa de homem, não de mulher.

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Puntel, parabenizando a ministra Cristina Peduzzi, primeira mulher a presidir o TST.

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