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Autorreflexão, superação e amor: a jornada para se tornar pais adotivos

Em Ribeirão Preto, 206 pretendentes esperam pela chance de adotar; Romantização da adoção, diferença entre perfis de crianças e desejo dos pais ainda são barreiras

| ACidadeON/Ribeirao


Antonio Carlos Nicolucci e Fernando Reis Rodrigues Nicolucci se conheceram pela internet em dezembro de 2016. Nela, os moradores de Ribeirão Preto e Nova Crixás (GO) trocaram as primeiras palavras. "Distância é problema?" foi uma das primeiras perguntas. Agora a internet pode ser a maneira com que o casal se transforme em uma família. Em 25 de abril eles se tornaram um dos 206 pretendentes na fila de adoção da Comarca de Ribeirão Preto.

"Quando recebemos nossa senha para acompanhar o processo de inscrição da adoção, acessávamos todos os dias o site. Nela também recebemos a lista de todas as crianças que estão disponíveis para adoção e estamos iniciando um possível processo de aproximação com um grupo de irmãos em outro estado".  

A internet também foi um dos meios que o casal, que em junho completa um ano de casamento, pôde aprender mais sobre o processo de adoção. Além dela, encontros oferecidos pela Gaiarp (leia mais abaixo) possibilitaram que o casal pudesse amadurecer a ideia de adoção e entender se esse realmente era o caminho que eles escolheriam seguir.  

De acordo com Antonio Carlos, o processo é uma maneira de não apenas se certificar da vontade de adotar, como também ser um exercício de autorreflexão. Para o empresário de 48 anos, a seleção do perfil da criança é uma das etapas mais importantes do procedimento.  

"Eu já tenho um filho de 17 anos e quando você é pai [por gestação], não faz escolhas. É um choque de realidade, eu estou escolhendo um filho?. Se você fosse gerar, não saberia. Existem crianças de todos os jeitos, a diferença é que você vai pegar uma caneta e apontar o que você aceitaria ou não, como crianças que sofreram violência sexual, são geradas pelo incesto. Então é uma forma de você se confrontar, analisar o que você não saberia lidar".

Porém, o sonho de ser pai sempre falou mais alto para ambos, que esperam adotar até três crianças de até 8 anos de qualquer sexo e raça, com problemas tratáveis leve. "Por telefone, quando nos conhecemos, já falávamos em ter filhos e eu sempre falei da adoção. Sempre tive essa vontade", diz Antonio.   

Já para Andresa Cristina Moreira, crescer vendo a casa da avó materna sempre cheia de pessoas que ela "adotou", seja legalmente ou apenas na forma de um lar temporário para quem precisasse de um lugar para ficar lhe fez perceber que "não precisava ser sangue para poder ser uma família". 

"Eu tive uma fase em que considerei também ter um filho biológico, mas isso passou e a adoção sempre ficou. A vontade de ser mãe por adoção sempre esteve comigo".  

O desejo se transformou em ação há 5 anos, quando ela comprou um apartamento para poder receber uma criança. Logo depois veio a primeira visita ao Fórum de Ribeirão Preto, onde se dá início ao processo de adoção. Ela conquistou sua vaga na fila em dezembro de 2016 e agora segue "em gestação" aguardando o novo membro (ou membros) de sua família.  

"Acho que o que difere uma gestação de uma espera por adoção é a questão do tempo. Mas eu prefiro acreditar que como o tempo de gestação é maior, o tempo para se preparar e estar pronta é maior também".  

Entretanto, Andresa não nega: acreditava que já estaria comemorando o Dia das Mães em 2019. Ela está aberta para receber até dois irmãos de até 7 anos de qualquer sexo e raça com doenças tratáveis leves. "Sabia que não seria do dia para a noite, os cursos que fiz já me deram uma noção que o processo era demorado, só não imaginava que fosse tanto", lamenta.

Andresa está desde dezembro de 2016 na fila de adoção (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

"Naquela hora, virei pai" 

A caminhada de Wander Ferreira até a paternidade começou antes mesmo de conhecer Elisângela. Em 2009, o operador de processos era casado com outra mulher, que passou por um tratamento de endometriose para que eles pudessem se tornar pais com o auxílio da fertilização in vitro. Porém, ela morreu em um acidente de transito, fazendo com que Wander adiasse o sonho até o ano seguinte, quando conheceu Elisângela. "Antes mesmo de casar, falei que queria adotar. Eu não pensava em engravidar, pensava em ser mãe", diz a professora. 

Porém, Wander viu a história se repetir com quase o mesmo triste final. Após reconhecer em sua mulher os mesmos sintomas que sua ex sentia, veio a confirmação que Elisângela também sofria de endometriose. Depois do diagnóstico vieram três cirurgias, uma delas para retirar uma das trompas da mulher. Em outubro de 2014, o casal iniciou o processo de adoção e também o tratamento de fertilização. A expectativa era de duas crianças, uma biológica com a ajuda do processo de fertilização in vitro e outra, de até 5 anos, na ficha de adoção. Porém, durante o tratamento da fertilização in vitro Elisângela desmaiou na direção e também sofreu um acidente enquanto dirigia.  

"A última inseminação foi em julho. Foram quatro tentativas, sofremos quatro lutos. E para a mulher é muito cansativo, são injeções quase que diariamente, ela [Elisângela] entrou em depressão. Chegou em um ponto que disse chega", relembra Wander.

Com o sonho de ter duas crianças ainda nos corações do casal, veio em fevereiro de 2017 a ideia de alterar a ficha para adotar duas crianças de até 9 anos. Dois meses depois, uma ligação começou o processo de transformar o casal em pais. "Ligaram de Itapecerica da Serra na noite de sexta-feira falando da Anna Clara e do Everton perguntei se podíamos ir já no sábado conhecê-los!", conta, entre risos, o operador de processos.  

E na primeira visita, foi a tímida Anna, na época com 6 anos, que ditou como seria o encontro. "Ela já veio direto em mim, essa danadinha, com um quebra-cabeça e ficamos brincando no chão. A assistente social nos chamou, fomos sentar para conversar e faltou uma cadeira. Ela então perguntou para mim se podia sentar no meu colo. Naquela hora, virei pai".

Foi um mês de viagens de final de semana para se aproximar das crianças até que em maio de 2017, uma semana antes do Dia das Mães, eles receberam a noticia que poderiam começar a vida em família. Mas quatro meses depois, Anna Clara novamente "influenciou" o destino da família. "Ela deitava na minha barriga e perguntava porquê eu não dava um bebê da barriga, se tinha um bebê lá. Eu ia colocar um DIU [anticoncepcional] em outubro, em setembro engravidei da Sofia". 

Elisângela não nega o receio que sentiu ao descobrir que estava grávida com duas crianças adotadas recém-chegadas em casa. "Ainda era muito início de adaptação, o processo era recente então fiquei preocupada". Mas, para Everton, que agora tem 10 anos, o amor e a proteção de um irmão mais velho já existia. "Antes de ver, já sabia que estava amando ela. E do jeito que o médico falou, também sabia que ela ia ser muito esperta".  


Romantização e 'conta que não fecha' 

A psicóloga da Vara da Infância e Juventude Marisley Vilas Boas afirma que uma das principais lutas é a de desconstruir uma cultura romantizada do que é a adoção e as dificuldades que os pretendentes poderão passar durante o processo adotivo. "Ter filhos, sejam eles biológicos ou adotivos, não é algo fácil, é uma construção. Na adoção tem que ter coração para aguentar do inferno ao céu, abertura para receber uma história diferente da sua, acolher as dores daquela criança".  

Outro dado que Marisley afirma ser importante esclarecer é que 'a conta', de pretendentes que desejam adotar e de crianças disponíveis para adoção, realmente não fecha. "Tem crianças, porém o perfil não atende a expectativa de quem quer adotar, tornando o tempo de espera maior. Seja um grupo grande de irmãos, a preferência por meninas, cor da pele. Tem havido mudança, porém ela ainda é muito pequena".  

Marisley também alerta que muitos pretendentes dão entrada no processo de inscrição ainda precisando amadurecer alguns pontos. "A gente tenta segurar um parecer desfavorável, então se a pessoa é bacana mas precisa amadurecer algumas coisas, nós a orientamos". Andresa foi uma das pretendentes que recebeu essa orientação. Seu processo ficou barrado por cerca de um ano, onde ela foi orientada a rever suas condições financeiras. Após fazer a reavaliação, ela foi reabilitada e seu processo, concluído.  

"Se é realmente isso que você quer, se você tem certeza, pensa, amadureça, vai buscar, vai conhecer. É uma jornada difícil, mas tem momentos de prazeres tão fortes quanto, acredito eu, uma gestação", comenta Andresa.  

Todo cuidado é pouco 

Marcia Inês Vieira Pecego Peruchi dedicou 30 anos de sua vida para a adoção, 15 na Vara da Infância e Juventude e os outros 15 na Gaiarp (Grupo de Apoio e Incentivo à Adoção de Ribeirão Preto), ONG (Organização Não-Governamental) que auxilia pessoas que desejam adotar. "Atendemos pessoas quando elas tem dúvidas em relação a adoção. Como que faz o passo a passo, grupo de preparação, grupo de padrinhos e também reuniões abertas para a comunidade, onde levamos profissionais e famílias para dividir experiências. Tudo para as pessoas entenderem o que é realmente a adoção".

O grupo, de acordo com Marcia, também é de auxílio para famílias que estão na fila de adoção ou já adotaram. De acordo com Marcia, depois que uma família adota ela também precisa de apoio. "Tem que ter um lugar que ela possa ir conversar e poder se instruir a respeito de dúvidas. Para que a adoção seja bem sucedida, a pessoa tem que estar bem preparada".  

Para a presidente da Gaiarp, a adoção aos poucos começa a tomar outro rosto, um mais aceitativo. "As pessoas tão começando a entender que não é só bebê que pode ser adotado. Depois que o grupo começou, a gente tem percebido que mudaram o perfil da criança. A gente mostra que a criança maior pode ser amada".  

E foram justamente as crianças mais velhas que fizeram parte de uma polêmica recente. Um desfile de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos que esperam adoção realizado em um shopping de Cuiabá (MT) foi alvo de críticas nas redes sociais. A Ampara (Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção), que organizou o evento, defendeu a iniciativa, citando que ela promove a "convivência social" e "mostra a diversidade da construção familiar". 

Para Maria Conceição do Nascimento, advogada de direito de família, infância e juventude, os dois lados são compreensíveis. "Entendo quem fala que é feio, que expôs e foi um constrangimento para as crianças. Mas também entendo o lado de quem trabalha com isso. As pessoas se sentem impotentes, querem que apareça alguém que dê carinho e amor para elas [crianças]. Quanto mais velho, menos chances [as crianças] têm". 

A diretora da AARP (Associação de Advogados de Ribeirão Preto) descreve a situação como triste. "Eu, quando vi, fiquei triste. É triste para a gente olhar e ver crianças sem família. Quem reclamou não deixa de ter certa razão, mas se não mostra, as pessoas não vão criar uma empatia, pensar na possibilidade, muita gente nem sabe que existe isso. É muita criança precisando de lar".

PASSO A PASSO DA ADOÇÃO  

1- Quero adotar. O que devo fazer?
Procure a Vara de Infância e Juventude do seu município e saiba quais documentos deve começar a juntar. A idade mínima para se habilitar à adoção é 18 anos, independentemente do estado civil, desde que seja respeitada a diferença de 16 anos entre quem deseja adotar e a criança a ser acolhida  

2- Documentos
É necessário apresentar identidade; CPF; certidão de casamento ou nascimento; comprovante de residência; comprovante de rendimentos ou declaração equivalente; atestado ou declaração médica de sanidade física e mental; certidões cível e criminal

3- Dê entrada
Será preciso fazer uma petição preparada por um defensor público ou advogado particular para dar início ao processo de inscrição para adoção. Só depois de aprovado, seu nome será habilitado a constar dos cadastros local e nacional de pretendentes à adoção

4- Curso e avaliação
O curso de preparação psicossocial e jurídica para adoção é obrigatório. Após comprovada a participação no curso, o candidato é submetido à avaliação psicossocial com entrevistas e visita domiciliar feitas pela equipe técnica interprofissional. O resultado dessa avaliação será encaminhado ao Ministério Público e ao juiz da Vara de Infância

5- Você pode
Pessoas solteiras, viúvas ou que vivem em união estável também podem adotar. A adoção por casais homoafetivos ainda não está estabelecida em lei, mas alguns juízes já deram decisões favoráveis

6- Perfil
Durante a entrevista técnica, o pretendente descreverá o perfil da criança desejada. É possível escolher o sexo, a faixa etária, o estado de saúde, os irmãos, etc. Quando a criança tem irmãos, a lei prevê que o grupo não seja separado

7- Certificado de habilitação
A partir do laudo da equipe técnica da Vara e do parecer emitido pelo Ministério Público, o juiz dará sua sentença. Com seu pedido acolhido, seu nome será inserido nos cadastros, válidos por dois anos em território nacional

8- Aprovado
Você está automaticamente na fila de adoção do seu estado e agora aguardará até aparecer uma criança com o perfil compatível com o perfil fixado pelo pretendente durante a entrevista técnica, observada a cronologia da habilitação

9- Uma criança
A Vara de Infância vai avisá-lo que existe uma criança com o perfil compatível ao indicado por você. O histórico de vida da criança é apresentado ao adotante; se houver interesse, ambos são apresentados. A criança também será entrevistada após o encontro e dirá se quer ou não continuar com o processo. Durante esse estágio de convivência monitorado pela Justiça e pela equipe técnica, é permitido visitar o abrigo onde ela mora; dar pequenos passeios para que vocês se aproximem e se conheçam melhor

10- Conhecer o futuro filho
Se o relacionamento correr bem, a criança é liberada e o pretendente ajuizará a ação de adoção. Ao entrar com o processo, o pretendente receberá a guarda provisória, que terá validade até a conclusão do processo. Nesse momento, a criança passa a morar com a família. A equipe técnica continua fazendo visitas periódicas e apresentará uma avaliação conclusiva

11-  Uma nova família!
O juiz profere a sentença de adoção e determina a lavratura do novo registro de nascimento, já com o sobrenome da nova família. Existe a possibilidade também de trocar o primeiro nome da criança. Nesse momento, a criança passa a ter todos os direitos de um filho biológico

Fonte: Conselho Nacional de Justiça


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