Aguarde...

ACidadeON Ribeirão Preto

docon

Eles deixaram a loucura da cidade para viver no campo

Conheça as histórias de quem abandonou trânsito, poluição e correria para se reconectar com a natureza; O Slow Living é um movimento que atrai cada vez mais gente

| ACidadeON/Ribeirao

Quando a onda vier 
estarei no alto 
onde as cabras moram 
inteiro e limpo 
os pés, 
plantados no chão, 
a cabeça nas nuvens, 
a pele ao vento e 
o coração na mão 

Essa foi a resposta do fotógrafo Vicente Sampaio, quando perguntado sobre como a vida no campo transformou suas emoções e colaborou para sua transformação pessoal. O poema, escrito por ele, foi seguido de uma declaração sucinta: "a primeira sensação foi uma dilatação espantosa do tempo".   

"Meu dia tem 36 horas". O fotógrafo Vicente Sampaio se mudou para o campo e não se arrepende | Anne Sobotta | Arquivo Pessoal

Vicente é uma das pessoas que optaram por deixar a vida maluca da cidade para se reconectar com a natureza, na área rural. A tomada de decisão veio em 2013, quando deixou a rota Ribeirão Preto São Paulo Salvador que fazia a trabalho e pela família para fazer ninho na área rural, a seis quilômetros de Santo Antônio do Pinhal. Ele integra um crescente grupo que opta pelo "slow living", um movimento que incentiva uma vida mais lenta, mais consciente sobre o agora e com maior percepção sobre como estamos gastando nosso tempo. Estresse, ansiedade, longas jornadas de trabalho e outros subprodutos da vida urbana são alguns dos itens colocados em xeque. 

Segundo o fotógrafo, a mudança foi um processo longo. Primeiro, conheceu a Serra da Mantiqueira em uma escalada com amigos, chegou a morar na Chapada Diamantina e, ao final de 2010, ao conhecer sua atual companheira, a francesa Anne Sobotta, as ideias de morar no campo foram alinhadas. Três anos depois, o casal se instalava em uma colina na Serra da Mantiqueira.  

A relação com o tempo após a mudança foi algo notável. "Meu relógio hoje tem 36 horas ou mais e tédio é uma palavra que desapareceu do dicionário", diz. "São mil coisinhas diárias para realizar, as plantas, os bichos, a casa e coisas que invento", diz ele, que se aventura no cultivo de hortas, marcenaria e outras atividades manuais, além do trabalho com a fotografia.  

Na parte criativa, inclusive, o ganho foi grande. Depois de se dedicar por anos à fotografia de rua nas grandes cidades, atualmente, Vicente se diz mais "paisagista", compartilhando fotos da natureza em suas redes sociais com um grande engajamento de amigos e admiradores da sua obra. Um dos seus trabalhos, dedicado às nuvens, caiu nas graças da mais importante revista de fotografia em preto e branco de Berlin, que publicou as imagens em uma de suas edições.  

Paradoxalmente, aqui na solidão do mato, estou fotografando muito mais do que antes. Esse fazer fotográfico é completamente sem nenhuma pretensão, uma necessidade interna", explica.   

Vicente Sampaio, em sua casa em Santo Antônio do Pinhal: vida simples, estímulo criativo e mudanças na percepção do tempo | Foto: Anne Sobotta

Para o fotógrafo, a tecnologia foi uma grande aliada na mudança de vida. E apesar de muitos amigos terem-no alertado sobre as dificuldades e isolamento, a família se adaptou bem com as novas possibilidades. "Morar no campo exige alguma coragem, despojamento. Com a internet, hoje em dia, não importa o lugar onde esteja, você está no mundo".  

A história de Vicente faz parte de uma tendência observada no mundo todo: de acordo com um relatório publicado pelo Office of National Statistics, mais de 58 mil pessoas com idade entre 30 e 39 anos deixaram a cidade de Londres entre junho de 2012 e junho de 2013 um número recorde.  

Aqui no Brasil, ainda não há números oficiais sobre migração da cidade para o campo, mas fazemos uma pergunta: quantas pessoas você conhece que já expressaram este desejo ou se propuseram a viver, de fato, uma vida mais ligada à natureza? 

ADEUS À LOUCURA DAS COZINHAS

Juntos há sete anos, o casal Beatriz Nomellini e Paulo Henrique Vitor, 29 anos respectivamente, decidiram fugir das cozinhas dos restaurantes, onde trabalhavam. Pressão, jornadas exaustivas, dores no corpo e estresse constante já não faziam mais sentido naquela fase da vida deles. Há dois anos, tomaram a decisão de sair de Ribeirão Preto e passaram a morar e a trabalhar em uma fazenda, próxima a Cravinhos.  

Ele, ex-piloto de avião e ex-chefe de cozinha, se tornou horticultor orgânico. Ela, gastrônoma e ex-chef de cozinha, se tornou produtora de chocolate orgânico. Nestes últimos anos, chegaram a ter mais de 20 itens na roça, 70 galinhas para corte e ovos, caixas de abelhas para produção de mel e uma qualidade de vida que nunca haviam experimentado.  



Segundo Beatriz, eles tinham uma visão romantizada da vida no campo, acreditavam, no início, que iriam ver o entardecer todos os dias, da grande varanda. A realidade, no entanto, foi se mostrando outra. Muito trabalho, uma vida dinâmica. 

"Muita gente não faz ideia, mas a adaptação também é difícil. É muito mosquito, terra dentro de casa, tenho que andar muito pra levar o lixo, ir buscar correspondência lá nos Correios. Hoje trabalho muito mais que antes, mas a qualidade desse trabalho é diferente e me sinto muito menos cansada do que na cidade", diz Beatriz.  

O lago na frente da casa, possibilita uma vista que restaura qualquer estafa mental e também possibilita uma alimentação mais fresca do que nunca. "Já pesquei nosso almoço aqui do meu quarto", diverte-se Paulo.  

A decisão, segundo eles, foi tão acertada que em breve estarão de mudança para "outra roça" e para outros desafios, em uma fazenda em Cássia dos Coqueiros. 

MUITA CALMA NESSA HORA

Apesar de observar os casos crescentes de pessoas dispostas a voltar para a vida no campo, a professora, arquiteta e urbanista Vera Lucia Blat Migliorini, diz que ainda é muito cedo para afirmar que existe um "êxodo urbano".  

Ela, que também é doutora em planejamento urbano e pesquisadora do IPCCIC - Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais, diz que este movimento pode estar acontecendo por uma necessidade de reconexão com uma vida mais simples. No entanto, esta simplicidade está sempre alinhada com o uso da tecnologia, quase nunca "fugindo" dela.  

"São as novas tecnologias que permitem que as pessoas tenham mais liberdade ao escolher onde morar. Estas pessoas estão voltando para o campo também porque sabem que podem contar com uma série de sistemas de informação que viabilizam suas atividades fora das cidades", pondera.  

E a professora está certa. Todos os nossos entrevistados utilizam a internet, por exemplo, como ferramenta facilitadora da vida no campo. Inclusive, compartilham diariamente e com muito orgulho suas reflexões e cotidiano nas redes sociais. 

CRÔNICAS DA VIDA NA ROÇA 

Mônica Davi: do mercado da moda para a vida na roça | Arquivo Pessoal

Mônica Davi da Silva, 41, não se imaginaria na vida de hoje há alguns anos. Nunca teve vontade nem estímulo de morar no campo, porém, depois de um término de casamento e desilusão com os negócios, tomou uma decisão drástica: a paulistana radicada em Ribeirão, acostumada com o cinza do concreto, quis passar um Réveillon em modo de economia de energia. E foi aí que conheceu a pequena cidade de Gonçalves, na parte mineira da Serra da Mantiqueira. 

A estadia em uma casa, de frente para um vale, foi o suficiente para Mônica se apaixonar pelo local e começar o ano de 2014 com novas resoluções. Depois de mais algumas visitas e um "período de experiência em uma casa emprestada", em menos de um ano, estava se mudando de mala e cuia e, logo, comprou um terreno e construiu sua morada permanente.  

"O que mais me perguntam é como é minha rotina. Eu faço tudo que as pessoas fazem, saio pra trabalhar, passeio com meus amigos, saio com o namorado, só que estou na roça", diz Mônica, que trabalha há quase dois anos na Câmara Municipal de Gonçalves.   

 

Crônicas fotografadas: Mônica divide suas aventuras na roça no seu Instagram

Mônica cuida da casa sozinha, da horta, do pomar, cozinha, etc. "Vim pra cá pra desacelerar mesmo, estava esgotada do tanto de compromisso que tinha em Ribeirão". Segundo ela, é preciso determinação para o período de adaptação. "No início, ia para Ribeirão ou São Paulo e voltava com o carro cheio de coisa, sentia falta de alguns produtos que eu costumava comprar no mercado, de comer coisas específicas. Mas isso é uma bobagem, com o tempo essas necessidades vão sumindo".  

Para ela, a transformação é completa, com mais prazer em pequenas coisas, com a atenção voltada à natureza, a si mesma. "É muito menos consumismo, vai a zero. Depois de trabalhar com moda tanto tempo e de comprar muito, minha relação com isso mudou completamente. Quase não compro nada aqui", explica. "Usar maquiagem aqui é até meio cafona" diverte-se.  

Mônica divide suas aventuras na roça através do seu perfil no Instagram.

Você pode ajudar o jornalismo sério

A missão do ACidade ON é fazer um jornalismo de qualidade e credibilidade. Levar informação confiável e relevante, ajudar a esclarecer e entender os fatos, sempre na busca de transformação. E o seu apoio é fundamental. Ajude-nos nessa missão para construir uma sociedade mais crítica e bem informada.

Apoie o bom jornalismo.

Já é assinante? Faça seu login.

Comentários

"O site não se responsabiliza pela opinião dos autores. Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do ACidade ON. Serão vetados os comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. ACidade ON poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios deste aviso."

Facebook

Mais do ACidade ON