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O velho de cara nova: brechós invadem a cidade

Lojas de roupas usadas estimulam o olhar consciente para a moda e o consumo; Preparamos uma lista com mais de 30 brechós para você garimpar em Ribeirão.

| ACidadeON/Ribeirao


Se há alguns anos comprar roupas usadas estava fora do seu planejamento, hoje é melhor você começar a repensar a ideia. Os brechós têm conquistado espaço entre o ecossistema empreendedor e, de quebra, colaboram com o meio ambiente e ajudam muita gente a modificar seus hábitos de consumo de moda.  

E, com tantas denúncias de trabalho escravo, desperdício de recursos e abuso dos recursos naturais, o mercado da moda anda sendo questionado. De acordo com um estudo realizado em 2017 pela Fundação Ellen MacArthur, entidade britânica voltada à ao desenvolvimento da economia circular, a produção de roupas praticamente dobrou nos últimos 15 anos.  

O estudo divulgou também que menos de 1% de tudo o que é produzido é reciclado e dá origem a novas roupas, um problema em termos de lixo e meio ambiente. Além disso, a indústria têxtil gasta 93 bilhões de metros cúbicos de água anualmente, gerando 1,2 bilhão de toneladas de gases causadores do efeito estufa.  

Já em relação à moda brasileira, a Associação Brasileira de Indústrias Têxteis (ABIT), tem um dado ainda mais impressionante. Só em 2017, foram produzidas 8,9 bilhões de peças, representando uma média de 1,3 milhão de toneladas de roupas.   

Retroq Brechó: cuidado na apresentação do negócio e prioridade nas peças estilosas. Foto: Aline Lamonato / divulgação


MODA, ATIVISMO E CONSCIÊNCIA  

Apesar da crescente expansão do mercado da moda, há quem esteja parando para agir a favor de uma maior consciência sobre essa cadeia. É o caso da proprietária do Brechó Retroq, Marina Pereira, de 28 anos.  

À frente do negócio há cerca de seis anos, Marina se considera uma ativista e enxerga o seu brechó como algo muito além de uma loja de roupas usadas. "Sempre pensei no Retroq como um espaço de troca, de diálogo, onde pessoas que pensam de forma parecida se encontram para falar sobre esse problema".  

O Retroq nasceu no Jardim Paulista e, atualmente, ocupa uma ampla esquina na rua Rui Barbosa, no centro de Ribeirão. Recém-reformado, o espaço foi cuidadosamente decorado e hoje atrai um perfil de público variado: desde mulheres que buscam peças de grife por um preço camarada e gente que preza pelo estilo e já tem a cultura do re-utilizar, independente da etiqueta.  

Marina diz que seu próprio guarda-roupa é composto, em maioria, por peças da loja ou de outros brechós. E é ela quem compra as roupas usadas, pesquisa, garimpa, monta a vitrine e exibe os cobiçados looks nas redes sociais. "As pessoas querem ver minha roupa, minha maquiagem, meu cabelo. Quando eu apareço, o retorno é infinitamente maior", conta.  

Hoje, a empresária afirma comprar cerca de 200 peças por dia. E o crescimento do negócio foi tão grande que este mês o Retroq lança sua primeira coleção com marca própria. As peças foram produzidas com retalhos de fábricas têxteis e com costureiras contratadas exclusivamente para o projeto. "Tem gente que acha que ter um brechó é só comprar e vender roupa. Aqui, eu estou inserida numa atmosfera muito criativa e tento criar coisas novas o tempo todo".   



O LADO DA NECESSIDADE  

Distante das grifes e da atmosfera "cool" da jornada empreendedora de Marina, está o ex-motorista Jurandir dos Santos, 77, proprietário do brechó Bellasu.  

Há dois anos em uma esquina movimentada no centro da cidade, o brechó que Jurandir e a esposa Sueli gerenciam atrai um público de classe-média baixa. E estes clientes, segundo ele, compram peças de segunda mão não por preocupação com o meio ambiente ou a moda, mas simplesmente, por necessidade. "Aqui vem muito garçom querendo camisa, vendedora de loja aqui do centro, pedreiros atrás de calça jeans pra trabalhar", explica.  

No entanto, o crescimento do negócio também foi grande. O que começou no alpendre da residência do casal nos Campos Elíseos, hoje se transformou em três lojas. A que visitamos, toda decorada com paletes, araras de madeira e com um nítido cuidado estético para tudo ficar bonito para quem passa, demorou três meses para ficar pronta.  

Lá, as peças são vendidas por R$8 até R$40. "Agora temos muita concorrência e quisemos fazer aqui um brechó de primeira e melhoramos muito a qualidade das roupas", diz.  

A mulher de Jurandir é quem garimpa as peças, principalmente em bazares beneficentes da cidade. Com um aluguel de R$850, é preciso mesmo se diferenciar. "Tem que saber comprar", diz, afirmando ter até 200% de margem de lucro nas vendas. Segundo ele, o problema com furtos é constante. "Já peguei duas senhoras com uma criança e iam colocando as peças numa sacola. Sempre vem um espertinho, é muito chato".    

Jurandir dos Santos, do brechó Bellasu: "tem que saber comprar". Foto: Francine Micheli


DE CLIENTE À EMPREENDEDORA  

Fã de brechós há mais de 10 anos, a fotógrafa Sté Frateschi é craque em garimpar peças legais em brechós por precinhos surpreendentes. E o talento para a curadoria culminou na criação do seu próprio brechó digital, a Elétrica, que foca na moda com propósito, consciência e diversidade.  

A Elétrica surgiu da parceria entre Sté e a sócia, Mariana Cardoso e, depois de participarem de feiras e eventos, logo mais ganhará uma loja física em Ribeirão Preto. A curadoria das peças é baseada na criatividade e estilo das peças, considerando a qualidade têxtil e estado de conservação. Para Sté, o olhar do dono do brechó na hora de comprar é o que faz toda a diferença para o negócio. 

"As pessoas estão buscando cada vez mais alternativas sustentáveis de consumo. A moda, mesmo com todas suas questões no mínimo questionáveis, também vem nesse fluxo", diz. "O crescimento dos brechós e consequentemente a procura por peças de segunda mão não vem somente desse fator da conscientização, mas é parte desse processo todo que estamos vivendo".  

Segundo a fotógrafa, os clientes da Elétrica gostam de peças exclusivas. "Uma parte deles nos procura por conta das questões ambientais e de consumo mais consciente. Sempre fomos um brechó que se compromete a estender nossa consciência por todo nosso trabalho, desde a escolha de fornecedores, roupas, modelos até o conteúdo e divulgação".  

E para ela, a preocupação com o futuro da humanidade tem tudo a ver com o boom dos brechós mundo a fora. "Não há roupa mais sustentável do que aquela que já existe!".  

Sté Frateschi, do brechó Elétrica: "não existe roupa mais sustentável que a que já existe". Foto: Tainá de Freitas / divulgação

VEJA OPÇÕES DE BRECHÓS EM RIBEIRÃO PRETO: 

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