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Ser um homem feminista é ouvir barbaridades

Já disse e vou repetir até quando tiver dado a minha voltinha completa em terra firme: por mim, do primeiro ao último ato, entregava tudo nas mãos das mulheres

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab (Foto: Divulgação)

Mulheres

Já disse e vou repetir até quando tiver dado a minha voltinha completa em terra firme: por mim, do primeiro ao último ato, entregava tudo nas mãos das mulheres. Estamos longe de ver algo parecido, como sabemos, e ser um homem feminista é ouvir barbaridades pela defesa que se faz de uma ideia que não agrada aos que acreditam que o mundo é masculino e ponto final.

A realidade chocante reforça a impressão que estamos andando para trás. No Brasil e no mundo (e, muitas vezes, de homens brasileiros espalhados pelo mundo), casos de violência doméstica aumentam com requintes de maldade e crueldade de fazer Tarantino rever seus conceitos estéticos. Aí sempre surge um gênio cro-magnon a dizer que (preciso ser exato no raciocínio estúpido) que "não foi a violência contra as mulheres que aumentou, mas sim o número de denúncias", lógica que não explica nada e, pior, completada pela frase "elas agora aparecem mais", como se a luta feminina de décadas fosse um mero rodapé da História . Não é de chorar? É.

Mas sempre teremos boa memória para lembrar feitos e vidas de mulheres que até podem não representar todas elas, mas que, de qualquer maneira, representam um todo ou uma ideia do que é um todo quando o que está em questão é a defesa dos seus direitos, seus valores e pioneirismo. Fiz uma lista com alguns nomes que apareceram nos últimos dias, e uma novidade que deve dar o que falar. Todas elas, mais a novidade, de alguma maneira, fazem, fizeram e ainda vão fazer do mundo, e do seu canto particular, um lugar melhor para todos. Homens, inclusive.
 

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Fernanda Montenegro

Uma autobiografia escrita aos 90 anos é obra para seres excepcionais. Fernanda é singular pela carreira brilhante, pela postura ética, pelos valores transparentes e pela verdade cortante. É impossível olhar para aquela cara, tão cheia de vida e talento na interpretação de personagens criados para a TV, cinema e teatro, assim como é impossível ouvir aquela voz tão marcante, e não perceber que a atriz é uma brasileira que ama seu ofício, seu país, a liberdade e que, sobretudo, preza a memória, a dela mesmo e a dos outros.
 

Fernanda Torres

Grande atriz, ótima escritora e figura que não se cansa de perceber a dura realidade que cerca a vida nacional, suas mazeles e injustiças sociais, calhou dela ser filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres. Ela não precisava fazer uma defesa linda e emocionante da mãe, em artigo publicado na Folha de S.Paulo. Mas escreveu com verdade e precisão. E ontem (08/10), reestreou, magnífica e sensacional,em "Filhos da Pátria", a série de Bruno Mazzeo que, agora ambientada nos anos 30, deveria ser a cartilha, o Caminho Suave do humor afiado para todos os brasileiros. Fernanda Torres é todas. E todos.
 

Maria do Céu Guerra

Conheci em Lisboa, ano passado, a atriz portuguesa de 75 anos. Ela dirige o teatro A Barraca, espaço de resistência intelectual e referência do talento luso. Fomos apresentados por Nuno Pacheco e Ana Paula Dias, antes de assistirmos ao espetáculo "O Ano da Morte de Ricardo Reis", baseado na obra de José Saramago. Miúda e com vivos e irrequietos olhos verdes, Maria do Céu ganhou, há 15 dias, o prêmio Globos de Ouro na categoria Mérito e Excelência. Promovido pela SIC, canal de TV líder de audiência em Portugal, a cerimônia é a principal festa do talento no país de Cristiano Ronaldo. Ela fez um discurso lindo em defesa da liberdade e dos 45 anos do fim da censura. Perto do fim, fez uma citação e um elogio público emocionante para Fernanda Montenegro e, quando os aplausos vieram, ela os pediu não para si, mas para a colega brasileira. O teatro Coliseu dos Recreios, cenário da festa coalhada de celebridades (com Marcos Caruso e Vera Holtz entre os apresentadores da noite), aplaudiu de pé, com força e emoção.
 

Diahann Carrol

Criança, eu tinha verdadeiro fascínio pela figura da atriz afro-americana protagonista do seriado "Júlia"(exibido entre 1968-1971), sobre a vida de uma enfermeira viúva, que cuidava do filho pequeno. Bastava ouvir os acordes da música de abertura do seriado para eu correr para frente da TV em preto e branco. Diahann morreu na semana passada, após uma carreira brilhante de atriz e cantora de musicais, que lhe valeu um Tony e um Globo de Ouro. Mais tarde, na minha fase cineclube, fiquei ainda mais apaixonado por ela, por um papel anterior ao de Julia, o de Connie Lampson, em "Paris Vive à Noite", com Sidney Poitier, Paul Newman e Joanne Woodward, e ponta de Louis Armstrong.
 

Nina Horta

Avessa ao oba-oba que tomou conta da culinária nacional, a mineira Nina morreu no último domingo e vai fazer uma falta tremenda na cena gastronômica, seja pelo viés literário, seja pela imaginação coerente e sem limites na criação de receitas que motivaram e inspiraram gerações de chefs e jornalistas especializados no assunto. Ganhadora do prêmio Jabuti de Gastronomia com o livro "O Frango Ensopado da Minha Mãe", Nina Horta tinha um texto elegante, bem humorado, inesperado e fiel aos seus princípios. E cozinhava como quem respira: da maneira mais natural e humana do mundo.
 

O Mima vem aí

Será inaugurado em Lisboa, no próximo dia 25 de novembro, o Mima (Museu Internacional da Mulher-Associação). Segundo a brasileira Katia Canton, escolhida para dirigir a entidade, o conteúdo será baseado no trio "sustentabilidade, indústria da moda e violência". A data da inauguração é sintomática: 25/11 foi escolhido pela ONU como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher.

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