Aguarde...

ACidadeON Ribeirão Preto

docon

Adiós, Bisso

Qualquer coisa que não seja alvo de um like, não tem a menor possibilidade de sucesso; vai morrer na praia, engazopar na subida ou despencar na descida

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é jornalista (Foto: Divulgação)
Adiós, Bisso

Eu sei, eu sei: em 2019, qualquer coisa que não seja alvo de um like, não tem a menor possibilidade de sucesso; vai morrer na praia, morrer à míngua, engazopar na subida ou despencar na descida. Não vai passar à posteridade, se bem que, posteridade, no caso, são os próximos 15 minutos ou o tempo que demorar a sua próxima entrada nas redes sociais. Ou seja, se dormir dez horas seguidas, este será o tempo.

Como ninguém dorme isso tudo, a não ser uma ou outra criancinha exausta de brincar no parquinho, é bem possível que as novidades de há 15 minutos já estejam irremediavelmente velhas. Casal separado? O novo e último lance da Anitta (seja lá o que isso for)? O novo look de 4 mil dólares (!) da filha de 8 meses (!) da mais nova celebridade da praça? Um Jaguar destruído por um motorista que não sabe engatar a ré? Ou um cãozinho fofucho que lambe o espelho? Se você leu ou ficou sabendo disso tudo ontem à noite, lamento informar que você está completamente por fora.

E pensar que nem sempre foi assim e ninguém está falando do tempo da locomotiva a vapor. Fala-se, em matéria de tempo contado para a História, de ontem mesmo. E só nos damos conta (calma, você que tem hoje os verdes e deliciosos 18 anos) de como as coisas se tornaram e estão cada vez mais fugazes quando alguém que nos marcou muito vai embora para sempre.

É quando morre alguém que amávamos muito quando éramos mais jovens (e seguimos amando, até sempre) que percebemos que tudo durava um pouco mais, caso de Patrício Bisso, sensacional artista multimídia e que chegou bem "antes-de-tudo-que-hoje-é-considerado-transgressor". Bisso, a bem da verdade, foi um transgressor de deixar qualquer digital influencer de hoje sem um adjetivo interessante para defini-lo.

Morto em Buenos Aires no último domingo, dia 13, Bisso era o portenho mais paulistano do mundo. Quem o conheceu nos anos 1980, como eu o conheci durante trabalhos para a imprensa, ouviu dele que talvez jamais voltasse para a capital argentina, cidade em que nasceu, mas para onde voltou após um imbróglio que nem Olga del Volga, a hilária sexóloga criada e interpretada por ele, seria capaz de explicar. Voltou mal, voltou arrasado.

Para mim, Patrício Bisso tinha o melhor desenho do mundo, com suas figuras tão características dos 50 e 60. Mas reduzi-lo a um dos melhores ilustradores de todos os tempos é injusto, impreciso e incorreto. Ele também foi cantor, ator e apresentador com um brilho que se projetava tão além de tudo, que era impossível tentar classificá-lo.

Quando o vi no palco em "Ladies da Madrugada", do genial Mauro Rasi, tive a certeza de que, no departamento "entrega sem fim com sotaque portenho", jamais veria nada igual outra vez. Passados tantos anos, continuo esperando que surja alguém com tamanha energia, vibração e luz própria. Bisso enfrentava cada desafio como se não estivesse mesmo ali, como se flutuasse acima de todas as coisas.

E não era uma sensação minha, particular: todas as pessoas que acompanharam minimamente a carreira e a vida do artista sabiam que ali, pelos mais diversos motivos, havia muito mais do que um homem e suas mil e uma identidades; havia um artista que sabia ser homem, mulher e criança. Como desenhava seus próprios figurinos, a extensão da perfeição estética se dava em todos os níveis. Nada ficava fora do tom e o acerto geral era impressionante.

No texto, Bisso também tinha um estilo identificável logo à chegada: da mesma escola de Oscar Wilde ou do brasileiro Telmo Martino, a prosa era marcada pela ironia, pelo deboche e o humor sempre arrasador: o que lhe rendeu inimizades tão duradouras quanto suas amizades, que era muitas e que o adoravam.

A redação de jornais e revistas com a presença de Patrício Bisso era garantia de festa e também de alguma inveja de tanta versatilidade, de sua inteligência impressionante e de sua cultura invulgar. Responder publicamente aos invejosos e ressentidos, aliás, era uma de suas especialidades mais comentadas e divertidas.

Em uma dessas ocasiões, lembrada por muitos que viram a cena, ele foi encarado por um dramaturgo e diretor de teatro, cujo espetáculo havia recebido uma crítica arrasadora (e cristalinamente verdadeira) de Bisso. "Você não sabe fazer crítica de teatro!", disse aos berros o furibundo diretor (hoje completamente esquecido). Bisso, com um olhar capaz de fulminar um pelotão, manteve a frieza e respondeu: "Bom, ainda estou em vantagem: você não sabe escrever, não sabe encenar um espetáculo, não sabe dirigir os atores, não sabe escolher os figurinos, nem a música e nem mesmo a sala para apresentar a sua peça: ela está cheia de pulgas, querido", disse Bisso, tão baixo e com tanta classe, que o homem teve um ataque de nervos e tentou esganá-lo, no que foi impedido pelos que acompanhavam tudo. E o que fez Bisso? Olhou bem para ele e completou, com a fina e elegante ironia, sua marca registrada: "Tentar me matar? Acho que como ator dramático você é um perfeito comediante".

Você pode ajudar o jornalismo sério

A missão do ACidade ON é fazer um jornalismo de qualidade e credibilidade. Levar informação confiável e relevante, ajudar a esclarecer e entender os fatos, sempre na busca de transformação. E o seu apoio é fundamental. Ajude-nos nessa missão para construir uma sociedade mais crítica e bem informada.

Apoie o bom jornalismo.

Já é assinante? Faça seu login.

Comentários

"O site não se responsabiliza pela opinião dos autores. Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do ACidade ON. Serão vetados os comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. ACidade ON poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios deste aviso."

Facebook

Mais do ACidade ON