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Ninguém menos que a sublime Christy Turlington

Christy lá, inteira, linda de morrer, exalando uma sensualidade tão natural quanto duradoura, dos tempos que ela era uma das cinco maiores modelos do mundo

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é jornalista (Foto: Divulgação)
 Christy, Christy...

O mundo parecia que estava na antessala do seu tão falado epílogo no fim da tarde da última segunda-feira: fui gravar em Bebedouro e, assim que acabou a reportagem, às 5 da tarde, achei o céu muito escuro para aquele horário e em plena primavera. A coisa estava mesmo um breu sem fim que cobria a cidade por inteiro. E eu, que não ia a Bebedouro há pelo menos 10 anos, vi uma cidade inteira quase subemergindo diante da chuva que desabou por mais de uma hora, sem parar, uma coisa meio Noé, com todas as ruas e avenidas alagadas.

Nem tentei escapar, porque não conheço a cidade tão bem e meu destino era a rodovia Faria Lima. E a água já ia pela metade das portas e meu alarme interno me fez fazer o que faz toda a gente: parei em um posto de gasolina (na parte mais alta do posto...) e fiquei dentro do carro, vendo a água subir e subir e subir. Entrei na loja de conveniência, peguei um café e voltei para o carro, tudo em ritmo The Flash, com tempo para duas fotografias pedidas por telespectadores. E eu ali, só pensando no aguaceiro do lado de fora da loja.

Mas assim que entrei no carro, eis que um clarão se abriu: paradinha no banco do carona, o último número da revista Vogue. Comprei o exemplar antes de sair de Campinas, na minha banca de todos os dias (sim, vou à banca todos os dias, ou quase isso). Não é uma leitura que goste: para chegar à primeira matéria, como diria Paulo Francis, atravessa-se 40 páginas ou mais de propaganda. Eu amo propaganda bem feita, com capricho fotográfico, principalmente de moda, mas não tenho paciência para tanto.

Mas comprei porque não acreditei na foto da capa, estrelada por ninguém menos que a sublime Christy Turlington. E aí, no meio do temporal de Bebedouro, o sol de ficção se abriu e deu-se a claridade: não qualquer claridade, mas a claridade da beleza que parece não ter idade, mas que tem, sim, senhoras e senhores: redondos 50 anos. E Christy lá, inteira, linda de morrer, exalando uma sensualidade tão natural quanto duradoura, dos tempos que ela era uma das cinco maiores e mais bem pagas modelos do mundo. E que pescoço é aquele, destacado pela gola alta que a faz parecer uma escultura renascentista?

Mas nada ali é inventado. Liguei meu botão da memória no modo extraturbo: pode ter sido em meados de 1996 que vi Christy Turlington beeeeem de perto e quase tive um troço: sinceramente, nem me lembrava de que ela ainda era a modelo favorita da Calvin Klein, a marca fetiche que cobria Nova York de outdoors ainda mais fetichistas. E Christy brilhava como nunca no centro do Fashion Café, o endereço glamoroso e de péssima comida inaugurado (modo de dizer, já que havia um esquema mezzo mafioso, mezzo fraudulento, tocado por dois empresários com péssimas intenções, que foram presos depois da quebra do negócio) pelas então poderosas supermodelos Claudia Schiffer, Naomi Campbell e Ellen Macpherson.

Eu estava ali para trabalhar, descrever a atmosfera e, in extremis, experimentar a comida, uma cruza doida e intragável do que havia de pior nos menus dos endereços caça-níqueis, típicos dos anos 1990, restaurantes com zero de ambição gastronômica, mas com um mar de pretensão culinária, em que os pratos de louça eram quase do tamanho do ego de seus donos. Foi no meio de tamanha arrogância e abuso de falta de senso que dei de cara com Christy, apresentada à trupe de jornalistas pela então diretora do New York Convention and Visitors Bureau, Celita Jackson.

Claro que fiquei muito impressionado com o trio Schiffer, Campbell e Macpherson, mas era em Christy que eu conseguia ver aquilo que era raro e hoje virou banana de xepa no mundo artificial que cerca e empurra as celebridades: Miss Turlington era a única a ter o chamado e muito valoroso star quality, aquela combinação rara e excepcional de talento, graça, beleza, sex appeal e naturalidade. Quando apertei sua mão, maravilhado, não era uma fantasia tola. A beleza de Christy era um tipo de inteligência que dispensava palavras e ações.

Segunda-feira, quando li a reportagem sobre sua vida e seus anos mais recentes, longe dos holofotes e da mídia, casada e mãe de dois filhos adolescentes, percebi que nada do que a valorizava desapareceu. Aos cinquenta anos, falando com uma inteligência superior e com tudo em cima, parece que a vida tem sido generosa com ela porque a ex-modelo soube valorizar o que ganhou como dádiva, aquilo que os mais antigos dizem que "veio de graça". No caso de Christy, veio para nos alegrar e para mostrar que beleza sem um mínimo de sentido não se segura. Por mais divina que seja a tal da graça.

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