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Superficialidade não foi o caso de Iva, e nem poderia ser

Contou que, depois do nosso primeiro e último encontro, ela ainda levou dois anos para sair da espiral da anorexia e dos efeitos colaterais de sua doença

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é jornalista e colunista do portal ACidade ON (Foto
Iva, parte II

É normal conhecermos pessoas com as quais só convivemos por menos de meia hora. Outras, por mais tempo do que 30 minutos. E existe a categoria de gente que conhecemos e convivemos praticamente a nossa vida toda, incluindo aí os parentes que, para o bem e para o mal, estão conosco do berço ao túmulo, marcando presença, dividindo histórias e experiências. Quando mais velhos, nos revelam o passado; mais novos, nos abrem (ou pelo menos tentam) o futuro com aquela mesma leveza que todos nós também já tivemos um dia, antes de conhecermos cada vez mais pessoas por menos de meia hora - é a idade que nos aproxima desse tipo conhecimento, às vezes mais próximo, outras mais distante, mas quase sempre superficial.

Superficialidade não foi o caso de Iva, e nem poderia ser, dado o tipo de primeira conversa que tivemos quando a conheci no supermercado, após observá-la, com a curiosidade de repórter e a discrição de um monge beneditino. Isto é, não fiquei olhando para ela, mas não havia como escapar da figura parada, quase imóvel, diante de prateleiras entupidas de pães dos mais diversos tipos, sabores e texturas. 
 

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Era inescapável ao olhar por tudo: com 39 quilos e 40 anos, tinha uma cabeça que o pescoço parecia não controlar: tombava lentamente para a esquerda e para a direita, como se carregasse o peso do mundo, enquanto os olhos, verdes e imensos, liam os rótulos das embalagens dos pães. Cada poro e cada movimento (sempre lento, muito mais lento do que todos os movimentos lentos que eu conhecia; era uma espécie de câmera-lenta) revelavam um cuidado extremo com o entorno. Ela sabia que estava sendo observada, mas não se incomodava.

A figura frágil, de braços tão finos quanto as baguettes expostas nas gôndolas da padaria do supermercado, era de uma beleza estranha. Que fora e era bonita não se discutia: o conjunto, que certamente já vivera dias de maior harmonia entre cabeça, tronco e membros, ainda mantinha duas características que marcavam: a pele tinha um frescor e uma luminosidade raras até mesmo em pessoas com a saúde em dia, e o sorriso, destacado do rosto muito fino e magro, era capaz de iluminar não uma sala, mas muitos salões, fosse pela naturalidade, fosse pela beleza dos dentes muito brancos, e dos lábios suavemente pintados.

Era isso: embora esquálida, hesitante e indiferente a tudo em sua volta, era uma mulher de força. E foi ela que puxou conversa, ao me reconhecer dos meus trabalhos na EPTV, e me pedir ajuda para escolher uma das marcas de pão de forma. Descobri então que seu nome era Iva e que sofria há tempos de um distúrbio severo de alimentação, provocado, segundo ela, por uma série de fatores que a atingiram com tudo e com força. A vida pessoal e a carreira profissional naufragaram ao mesmo tempo. "Só pensava em morrer, mas agora estou melhor", garantiu-me em nosso primeiro encontro. E ainda me disse: "Vou reencontrar o coração do pão e aí vou fazer um belo sanduíche para você", citando Marcel Proust e a sua famosa madeleine. Isso foi em 2013.

Seis anos depois, em outro supermercado, nos encontramos novamente. Mas na semana passada Iva era uma outra pessoa. Com quase quinze quilos a mais, retomou sua vida e parece ter renascido em todos os sentidos. 

"Não falei?", perguntou ela, depois de me dar um abraço que conseguiu ser forte sem ser massacrante, afetuoso sem ser babão e sincero sem ser uma forma de se desculpar por algo que, de fato, ela jamais teve culpa. "Só não telefonei até hoje porque vejo que você é muito ocupado e que vive correndo. Ontem mesmo vi sua reportagem em Franca, com aquelas pizzas, ai, ai, ai...". E eu, para provocar e brincar, devolvi: "Melhorou mesmo, já está até suspirando por uma pizza...", ao que ela respondeu "mas também, com aquela presunto cru, aquele queijo Canastra...".

Contou que, depois do nosso primeiro e último encontro um daqueles que duram menos de meia hora , ela ainda levou dois anos para sair da espiral da anorexia e dos efeitos colaterais de sua doença. Foi a partir de 2016 que começou a encontrar o equilíbrio e a força para recomeçar do zero.

"Foi difícil, mas mentalizei minha melhora através de uma atividade e de uma "terapia" que eu evitava: a meditação a sério foi a atividade, e a minha terapia foi e ainda é o apoio da minha mãe, que eu recusava por não querer vê-la sofrer; foram a minha porta de saída do problema e hoje são meus dois alicerces, embora eu saiba que minha vigilância tem que ser permanente. Mas não vejo isso como um fardo, mas como a minha redenção".

Fiz questão de lembrá-la do sanduíche prometido. "Ai, meu Deus, achei que você não ia se lembrar...". "Como assim", perguntei, "você não vai honrar a sua palavra?". Ela esticou os braços (agora firmes e mais grossos) para o alto e marcou para amanhã o nosso encontro gastronômico informal, com ela, segundo me prometeu, fazendo uma especialidade que agora é sua marca registrada: uma combinação de vegetais e queijos, servido no pão ciabatta. Mas o melhor mesmo foi saber que ela reencontrou a alegria de ter uma vida para chamar de sua e, junto com ela, o coração do pão que ela imaginara perdido para sempre.
 

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Depois de um ano especial, com os 40 anos da EPTV e a minha estreia aqui no ACidade ON, saio de férias e volto em meados de dezembro. Logo depois, mais uma novidade que vai me fazer conhecer mais pessoas e histórias que serão contadas aqui mesmo, só que em vídeo, com exclusividade para vocês. Afinal, quem tem 317 cidades para explorar não pode reclamar de falta de assunto. Abraço grande e até a volta.

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