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Duas mulheres que sorriem

Com tanta gente, o amigo secreto tem piadas não ensaiadas, gracinhas a granel e coro divertido dos mais novos

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é colunista do portal ACidade ON (Foto: Divulgação)

As festas de fim de ano da família foram as de sempre: cerca de 40 pessoas, cardápio com receitas de tradição (a cargo de um dos irmãos, especialista em deixar todo mundo pedindo mais...e mais), criançada com idades variadas e ansiosas para ganhar os presentes, aquele clima que se repete há décadas, e que faz muita falta quando não acontece. Com tanta gente, o amigo secreto tem piadas não ensaiadas, gracinhas a granel e coro divertido dos mais novos. E dura quase tanto uma cerimônia do Oscar.

Mas nem tudo estava bem, embora o clima fosse de zero drama. Principalmente porque o irmão mais velho, principal envolvido, estava bastante tranquilo, mesmo com a saúde debilitada há mais de um mês. Nem a certeza da cirurgia, prevista para cerca de vinte dias depois, criou um climão. Pelo contrário: rei da ironia fina e do humor sempre elegante (mesmo que diga barbaridades), ele manteve a expectativa de "dias melhores virão" em altíssima conta.  

 
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No início de dezembro, quando todo mundo já sabia da gravidade da situação, um dos irmãos "viu", ou melhor, "reviu" uma cena da qual nunca se esquecera: em 2001, pouco antes de ela morrer, ele viu a mãe fazendo uma caminhada pela Avenida Barão de Itapura, em Campinas, junto ao comprido muro com balaustres do Instituto Agronômico de Campinas, em uma manhã em que uma suave neblina cobria os belos jardins IAC e a própria avenida. Desde que soubera do diabetes, ela passou a fazer caminhadas, quase sempre sozinha, às vezes com alguma vizinha.

Naquela manhã, com o ar "embaçado", ele a viu de dentro do carro e a reconheceu pelo jeito de andar (passos curtos e acelerados) e por causa da roupa ela sempre usou calças e jaquetas próprias para exercícios. Naquele mesmo dia, quando passou por sua casa no final da tarde, ele contou que a vira e fez uma brincadeira sobre a sua boa forma física. Ela, como sempre fazia, puxou o cós da calça e disse: "já perdi mais três quilos". Em menos de três meses ela nos deixaria para sempre, de maneira rápida, quando tudo aconteceu em menos de uma semana.

No início de dezembro de 2019, ele "a viu" novamente, caminhando na mesma avenida. É bom deixar claro: embora não seja um cético bárbaro ou coisa que o valha, ele não é dos mais crentes. Tem lá sua fé, e respeita e admira todas as religiões. Naquela manhã, quase vinte anos depois, ao "vê-la", andando a passos rápidos no mesmo caminho e com a mesma roupa, ele primeiro pensou que não estava bom da cabeça. Depois, ao ver que ela não desaparecia nem mesmo no retrovisor, começou a acreditar que era um sinal.

Ele viajou para Santa Catarina e calhou de, no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, estar em uma cidade que a tem como padroeira e onde existe uma gruta, pequena e discreta, que recebe fiéis que estão de férias por lá. Por ser o dia da santa, o ambiente estava carregado daquela energia que não acaba, daquele fervor que parece mover tudo e todos. E, ali mesmo, lembrou-se que o dia 8 também era o aniversário de uma tia, médica, irmã de sua avó materna, que era muito próxima de sua mãe.

Voltou para o hotel e não conseguia se esquecer da mensagem nada boa (ruim mesmo) que recebera dias antes do irmão que estava acompanhando o caso mais de perto. Naquela noite, sonhou com Nádima, a tia médica e querida por todos, e a mãe, Leila. A tia repetiu mais de uma vez que o "caso não é tão grave" e que "ele ficará bom", enquanto a mãe sorria com a mesma alegria de sempre. No dia seguinte, o diagnóstico terrível foi atenuado, embora ainda continuasse a ser sério e preocupante.

No último dia 17, o irmão mais velho foi operado e correu tudo bem, nenhum procedimento mais grave foi necessário. Ao chegar ao hospital para visitá-lo, na noite do dia 19, o irmão o viu deitado na cama, dormindo e, pelo visto, tendo um sonho bom, já que ele sorria e, embora todos os parentes sempre o achassem parecido com a mãe, estava ainda mais parecido.

Naquela noite, o irmão sonhou mais uma vez: uma festa cheia de gente; parentes e conhecidos, amigos e pessoas que ele não conhecia; ao fundo do salão, o pai, dois tios e a avó materna, madrinha do irmão mais velho. Ao lado dela, Leila e Nádima, ambas sem dizer nada, mas sorrindo como no primeiro sonho. Dias melhores virão, mesmo.

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