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Lazer e Cultura

Um Lar confortável e seguro para a nossa história

Confira a crônica do professor José Ernesto, que fala sobre a situação do MIS de Ribeirão Preto

| ACidadeON/Ribeirao

(Foto: Pixabay)
Divo Marino, saudoso, escreveu há anos neste jornal artigo intitulado "MIS e Arquivo Publico e Histórico" (1-11-2015) citou Padre Vieira: "A História é irmã da verdade, êmula do tempo, depósito das ações, testemunho do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro". Não creio que levemos a sério ou que as autoridades comunguem este pensamento. 

Há cerca de dez anos fui ao Cemitério da Saudade, à procura do documento de sepultamento de meu bisavô materno, falecido em 26/11/1936. Dirigi-me ao escritório e perguntei ao funcionário se era possível encontrar tal documento. Tentava descobrir onde ele nasceu, pois tinha informação, de conversas que ouvi na infância, de que ele era da Ilha da Madeira. O funcionário buscou um livro empoeirado, colocou-o sobre a mesa e, ao abri-lo, o material simplesmente se esfarelou, Estava consumido por cupins.
 
Em 1988, visitando uma pequena cidade da Andaluzia (20.000 habitantes, se tanto), onde meu avô paterno nasceu em 1896, fiz o mesmo procedimento. Em posse da data por mim citada, a funcionária subiu em uma pequena escada, buscou um livro menos empoeirado e me copiou os documentos que buscava. Voltei à mesma cidade 2013 e fui ao cemitério, em busca de dados sobre a geração anterior à de meu avô. Dirigi-me ao escritório simples, bem conservado e só não consegui os documentos que procurava porque o funcionário não fora trabalhar naquele dia por ser feriado (Finados) e porque um senhor, bem idoso, sentado e pensativo em um banco próximo ao muro do cemitério, me informou: "no hay defuntos hoy!". Informação precisa para uma cidade pequena em que tudo e todos se conhecem. Conversamos longamente e pude ouvir, atento os seus lamentos sobre a morte recente de sua esposa e sobre as histórias por ele vividas durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). 

Embora o local de nascimento ou a localização do túmulo de meus antepassados só tenha importância para mim e alguns familiares não creio que nos preocupemos com o cuidado e a atenção que merecem os documentos que registraram a nossa história. O que está preservado depende da dedicação de funcionários pouco valorizados pelo seu trabalho. Onde estarão as coleções do Diário de Noticias e do Diário da Manhã. Felizmente A Cidade com seu arquivo preservado, nos presenteia diariamente com uma seção curiosíssima sobre fatos ocorridos há cem anos. Esses jornais documentaram fatos importantes de nossa história. Tenho informações de que a coleção do Diário de Noticias se encontra em um seminário em Brodósqui, correndo riscos de se perder, consumida pelo tempo. Onde estará a coleção de O Diário da Manhã. Espero que o arquivo de O Diário esteja preservado. 

Há alguns anos,  a Justiça deu prazo de dois anos para termos um lugar seguro e adequado para abrigar documentos e narrativas de nossa história. Não seria o momento de as cabeças pensantes (e portadoras de canetas mandantes) da cidade, que ufanamos em denominar de Capital da Cultura, fazerem com as quatro Universidades um plano mais ousado de preservação dos nossos documentos históricos? Não seria interessante digitalizar esses documentos e colocá-los à disposição dos estudantes e interessados? Além dos documentos sobre a guarda do Arquivo Histórico, em condições discutíveis, onde estarão as atas de nossa Câmara Municipal, e os documentos de nosso executivo Se estiverem guardadas como estarão e por quanto tempo resistirão? 

Existe no momento uma possibilidade excepcional: transferir todos os documentos da historia da cidade para a Rua Conselheira Dantas, 984 na Vila Tibério, um prédio tombado pelo patrimônio histórico, num movimento que teve como autor do projeto em nossa Câmara Municipal o vereador Beto Cangussu. O prédio em que funcionou por muitos anos o Lar Santana. O Lar Santana, para os que não conhecem, foi fundado em 1926, pelo Bispo D. Alberto José Gonçalves. De início, como colégio e, depois, como Orfanato. Lembro-me de que, quando fiz o curso secundário, uma de minhas colegas de classe era moradora do Lar Santana e, por muitos anos, ainda criança, acompanhava minha mãe nas missas dominicais daquela instituição. É uma referência na Vila Tibério. 

O Lar Santana foi o cenário de fatos que deram início a um dos lamentáveis fatos ocorridos em nossa cidade durante o regime militar. Em 1969, a coordenadora do orfanato, Madre Maurina, foi presa e acusada de envolvimento com militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Os fatos que se seguiram foram elucidados pela Comissão da Verdade e vários livros publicados e em via de publicação relatam a história do Lar e de Madre Maurina. Nada mais justo de que transformar o Lar Santana na sede em que nossa história será preservada e consultada. Esse local não seria o ideal para meu prezado amigo, Dr. Otavio Verri, depositar sua valiosa biblioteca da historia de Ribeirão Preto e região? 

Mas, voltando ao cemitério espanhol ainda volto lá. Em um dia que não seja feriado ou infelizmente "que haya defuntos", para localizar e agradecer a minha vida nos túmulos de Miguel Sanches Lucena, Dolores Sanches Lucena ou Nicolas Frias Gimenes e Ana Garcia y Garcia, meus tataravós! 
 
*José Ernesto dos Santos é médico Nutrólogo e professor sênior da FMRP-USP


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