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Lazer e Cultura

Dragões, Mancha e Império são destaques no 1° dia de desfiles em SP

Carro enroscou em fio e atrasou desfile em quase uma hora no Anhembi

| Folhapress

Viviane Araújo brilhou à frente da bateria da Mancha Verde (Foto: Folhapress)
 
Silêncio não combina com Carnaval, mas o Anhembi ficou praticamente mudo por 1 h no primeiro dia de desfiles das escolas de samba de São Paulo. Sete agremiações da elite do Carnaval passaram pela avenida entre a noite de sexta-feira (21) e a manhã deste sábado (22).

Numa situação nunca antes vista, o palco do samba paulistano registrou congestionamento de carros alegóricos que não conseguiam deixar a área de dispersão.  O Anhembi também ficou parcialmente sem luz nas arquibancadas e nos camarotes. E até o relógio oficial, responsável por marcar o tempo dos desfiles, ficou travado.

O combo de problemas foi causado pelo abre-alas da Dragões da Real que, ao concluir o desfile, ficou enroscado na fiação elétrica na saída da área de dispersão. O bloqueio causou um efeito cascata que atingiu em cheio a escola seguinte, a atual campeã Mancha Verde, e as demais que se preparavam para desfilar à noite e acabaram se apresentando já ao amanhecer.

A Enel, distribuidora de energia em São Paulo, afirmou que a rede elétrica estava dentro dos padrões técnicos de segurança, inclusive em relação à altura dos fios e cabos na região do Sambódromo do Anhembi. Segundo a empresa, a energia elétrica foi desligada, por volta das 3h45, para garantir a segurança. Técnicos da distribuidora trabalharam na fiação afetada e conseguiram restabelecer o serviço.

Os problemas da Dragões, porém, já haviam começado antes quando o último carro da escola precisou ser empurrado com mais rapidez para a escola não perder ponto por descumprir o tempo regulamentar do desfile de 65 minutos.  Mesmo com 1 h de atraso, a Mancha Verde entregou um desfile impecável em que ironizou na avenida a declaração da ministra Damares Alves de que meninos vestem azul e meninas rosa.

Para a escola, a limitação de gênero é a representação de dogmas medievais. O tema da escola este ano foi "Pai! Perdoai, eles não sabem o que fazem". A Mancha Verde foi a única escola a encerrar o desfile com folga, aos 64 minutos (o limite é de 65).

Mesmo com bandeirão na avenida e torcida ativa, a Mancha não animou tanto quanto o esperado devido à quebra de ritmo provocada pelo caos que precedeu seu desfile. Já próximo das 7h, a penúltima escola a desfilar, Império de Casa Verde -que deveria ter entrado na avenida às 4h40 seguiu sob chuva.  



Mesmo sem a iluminação pensada para a noite, a Império de Casa Verde foi uma das escolas que mais animou as arquibancadas com sua homenagem ao Líbano, embalada pelo samba-enredo "Marhaba Lubnãn". A escola não poupou esforços e investiu em tecnologia para entregar um show imponente.

Destaque também para a Dragões da Real que prometeu alegria em seu samba-enredo e cumpriu, mostrando que em 2020 a meta é deixar a vice-liderança e ser consagrada campeã. Quem também trouxe um bom show foi a Tom Maior, que apostou em homenagem à personalidades negras para contar uma história de resistência e também da configuração do povo brasileiro.

A Acadêmicos do Tatuapé veio neste ano homenagear a cidade de Atibaia com carros que transportaram a avenida para a cidade do interior paulista. A última escola a desfilar, a X-9 Paulistana enfrentou muitas dificuldades. Com uma arquibancada esvaziada, a escola ainda viu um dos seus carros se desprender, além de fazer uma curva para a esquerda e quase bater na lateral da avenida. Em um esforço homérico, os empurradores da X-9 conseguiram impedir a colisão e colocar o carro de volta ao centro da avenida.

Apesar do caos, festa na avenida A Barroca Zona Sul abriu o primeiro dia de desfiles com o samba-enredo "Benguela.. A Barroca Clama A Ti, Tereza!", uma homenagem à quilombola Tereza de Benguela, angolana que veio ao Brasil com 18 anos e liderou a luta contra a escravidão no século 18. A escola voltou ao Grupo Especial após 15 anos. Retorno que fez disparar o coração da rainha de bateria, Renata Spallicci, já ao subir no carro.

Essa foi a sua primeira vez como rainha, e já de saída a empresária e musa firmeza recebeu duras críticas por ser uma mulher branca desfilando como rainha de bateria de uma escola cuja temática era negra. "Fiquei assustada no começo, mas ficam os aprendizados. Eu pedi desculpas, porque minha luta é pelas mulheres, para que elas possam conquistar seu espaço", afirma.

A segunda escola a desfilar, a Tom Maior, trouxe o samba-enredo "É coisa de preto", uma ode à miscigenação do povo brasileiro. Uma das homenagens prestadas pela escola foi à vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018 junto com o seu motorista Anderson Gomes.

Um estrutura gigante da parlamentar, segurando uma mordaça nas mãos, lembra que a morte violenta não calou a ativista. O icônico rapper dos Racionais, Mano Brown, também foi homenageado pela escola em uma das alas. Assim como o humorista e ator Mussum.

A violência policial contra a população negra também foi representada na avenida. O ator que representou a personagem Madame Satã foi cercado e espancado por atores intérpretes de policiais. Satã foi uma personagem importante da noite carioca no bairro da Lapa (RJ). (Matheus Moreira, Dhiego Maia e Cristina Camargo)

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