Aguarde...

Lazer e Cultura

Theatro Pedro II: um espetáculo que não sai da nossa memória

Chegar aos 90 anos de vida pulsante, cheio de memórias afetivas, ser parte da identidade de uma cidade e com força suficiente para mudar a vida de seus frequentadores é motivo de muita comemoração

| ACidadeON/Ribeirao

 

Jornalista, editor e apresentador da EPTV, âncora da rádio CBN Ribeirão, Historiador e Mestrando em Políticas Públicas pela UNESP de Franca

A noite é de espetáculo. Em casa, as pessoas se arrumam com ansiedade, afinal, é preciso estar apresentável para entrar no terceiro maior teatro de ópera do país. O Movimento nos bastidores rompe o silêncio do gigante. Casa cheia, um sinal de que vem coisa boa pela frente. Assim como na década de 1930, ano que o Theatro Pedro II foi inaugurado, o tapete vermelho está lá, vivo, para reverenciar o que há de mais importante: os artistas e a plateia.

Pelo saguão já passaram os poderosos do fim da era do café, empresários com suas cartolas, mulheres com seus vestidos longos e colares de pérolas. Gente importante, que fazia de Ribeirão Preto um pedacinho de Paris. E se você prestar bastante atenção é possível sentir esse clima, porque essas cenas estão marcadas nos corredores, nas cortinas, nos camarotes. Dê uma volta pelo salão dos espelhos, lugar que era reservado a um grupo seleto para coquetéis e reuniões antes e durante as demoradas óperas. Feche os olhos e ouça o tilintar das taças de cristal carregadas de champanhe.

Saudades desse clima mágico? Eu também. Não vejo a hora dessa pandemia passar, para voltar a frequentar esse aniversariante tão querido. Um vovô, que faz parte das nossas vidas, muito mais do que imaginamos. E que nos deu tantos presentes ao longo desses 90 anos. Por enquanto, ficamos com as nossas memórias. E são muitas. 
 
Majestoso Theatro Pedro II (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
Eu te pergunto, caro internauta, o que você sente quando passa por lá? Quais memórias vêm à mente? Um show que marcou a sua vida, o primeiro encontro, uma tarde gostosa com seus filhos numa peça infantil, um salão de ideias que mudou a sua vida na feira do livro, um protesto acalorado em frente à esplanada... É claro que muita coisa mudou ao longo de quase um século, mas cada transformação marcou as pessoas de um jeito diferente. Vejamos a seguir um breve retrospecto, entre a história cronológica e as memórias contadas por seus protagonistas.

No fim dos anos 1950 e começo da década de 1960, as óperas já não davam tanto dinheiro. O que pegava mesmo eram as festas no subsolo, na chamada "caverna do diabo", onde hoje é o Auditório Meira Júnior. Quem viveu a juventude naquela época lembra de dançar o boggie oogie, ao som de Little Richard. E também fazer o footing nas ruas ao redor, em que as moças andavam em uma direção e os rapazes em outra. Quando os olhares se cruzavam, os pares se formavam para o baile. Hoje essa paquera foi substituída pelas mensagens de WhatsApp e redes sociais. Melhor ou pior? Isso é assunto pra outa pauta.

Mas depois um tempo as contas do mês não fechavam e o Pedro II foi arrendado, transformado em cinema. Era o começo da decadência. E foi durante a exibição de um filme dos trapalhões, em 1980, que um incêndio destruiu o teatro. O monumental coração da cidade ardia em chamas. Testemunhas ainda vivas lembram desse acontecimento que comoveu Ribeirão. Pessoas gritavam pelas ruas "tá pegando fogo no cinema". Além do barulho das chamas estalando a madeira, se ouvia a sirene dos bombeiros e o silêncio triste de que se aglomerava na praça XV, não acreditando na cena que deixou marcado aquele 15 de julho. 
 
Entrada do Theatro Pedro II (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Toda a classe artística se organizou em defesa do que restou do patrimônio da cidade. A notícia que circulava era de que os prédios de todo o quarteirão paulista, inclusive o teatro, tinham sido vendidos para um banco. A esplanada logo virou lugar de protestos. Depois de quase uma década de muita pressão popular, o teatro foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo (Condephaat). Em 1989 a edificação queimada foi desapropriada pelo Estado e a posse dada à prefeitura. O "Pedrão" passava a ser do povo, um resistente, ressignificado como espaço democrático e não mais restrito às elites. Ao mesmo tempo seria lugar do clássico e do popular, permitiria a entrada do rico e do pobre e seria palco de arte e de debate.

Mas o desafio era devolver a vida ao teatro. A restauração começou em 1991 e teve o toque de uma das maiores artistas plásticas do país na época, Tomie Othake. O teto foi todo desenhado com as marcas que lembravam o fogo. O novo lustre representava a gota dágua que apagou o incêndio. A imprensa, equipes de TV, jornal impresso e rádio, registravam diariamente o renascimento. Desde de sua reinauguração em 1996 já passaram pelo teatro personalidades de destaque, como o bailarino russo Mikhail Baryshnikov, cuja sapatilha foi doada à fundação Pedro II, a Orquestra Sinfônica de Israel, e diversos outros grandes nomes internacionais e nacionais.

Theatro Pedro II (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
Por essas e tantas, o Theatro Pedro II é o que Pierre Nora, historiador Francês, define como um lugar de memória. No texto "Entre a memória e a história: a problemática dos lugares", traduzido e publicado em 1993 no Brasil, o autor diz que a memória é um elo entre passado e presente, sempre viva, carregada por grupos, em constante transformação, passada pelas gerações. Até mesmo por isso, o sociólogo francês, Maurice Halbwachs, afirmou que a memória é sempre coletiva, uma vez que está escorada nos indivíduos.

Mas sem a vigilância necessária, a história - que se utiliza de documentos concretos e métodos científicos, para determinar rupturas e continuidades no estudo do homem no tempo, fazer críticas e análises livres de paixão - é capaz de varrer essas memórias diante da aceleração dos anos. Para Nora, os lugares se tornam, assim, os ancoradouros dessas memórias, ao redor de um acontecimento. No caso do Theatro Pedro II, um lugar de memória complexo, já que é palco de diversos acontecimentos expressivos, traumáticos, de celebrações, vitórias e derrotas.

Por isso chegar aos 90 anos de vida pulsante, cheio de memórias afetivas, ser parte da identidade de uma cidade (e por que não dizer de um país inteiro?) e com força suficiente para mudar a vida de seus frequentadores é motivo de muita comemoração. O Theatro, com th, que acolheu seu público e seus artistas, merece a nossa reverência. E deve ser entendido como patrimônio cultural de todos. Servir de inspiração como símbolo de resistência, de transformação e ressurgimento. O lugar que já contou muitas histórias de vida, agora é história de inspiração. Parabéns Theatro Pedro II.

E para você, leitor, deixo a sugestão do livro "Memórias de um teatro: o fio da história", coordenado pelo Instituto Paulista de Cidades Criativa e Identidades Culturais (IPCCIC), escrito por Adriana Silva, Lilian Rosa e Luciana Rodrigues. Lá você pode encontrar relatos de algumas dessas memórias aqui registradas. Boa leitura, boas lembranças e, quando voltar lá, bom espetáculo! 
 
Theatro Pedro II é uma verdadeira obra de arte (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
MAIS SOBRE O TEMA 
Ele merece muitas palmas: Theatro Pedro II completa 90 anos





Mais notícias



Mais notícias do ACidade ON