Coluna Giro entrevista Ronaldo Mota, reitor da Universidade Estácio de Sá

Reitor fala sobre o grande desafio de fazer com que a tecnologia seja bem sucedida quando aplicada na educação

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    • Juliana Rangel
Murilo Corte / ME
"Educar tem se tornado mais complexo, porque abarca o imprescindível conteúdo acadêmico, mas introduz, adicionalmente, novas exigências", afirma o reitor (Foto: Murilo Corte / ME)

 

Como as escolas vêm lidando com toda essa tecnologia?

As tecnologias digitais invadiram a secular instituição escola de dentro para fora, sem que elas tivessem o devido tempo para se preparar.  Assim, em consequência, os desafios são enormes. Caminhamos a passos largos para um mundo de educação permanente ao longo da vida e onde a informação está, cada vez mais, totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e basicamente gratuita. De alguma forma, todos seremos estudantes para sempre e a informação em si, o mais barato e vulgar dos produtos ou serviços. Uma das mais importantes perspectivas no setor nos próximos anos, do ponto de vista metodológico, diz respeito a uma mudança progressiva de foco em direção a privilegiar as chamadas competências metacognitivas, incluindo as habilidades interdisciplinares, transversais e socioemocionais. Entre as características metacognitivas, destaco, a título de ilustração, aprendizagem independente, solução de problemas complexos, perseverança, autocontrole emocional e cumprimento simultâneo de multitarefas em equipe.
 
E isso é fácil de ser adaptado em escolas particulares. Mas e as escolas públicas? Como podem ser adaptadas?

Sobre a questão mais relevante a ser enfrentada, creio que tanto faz a escola ser pública ou privada. Tão ou mais relevante do que aquilo que foi aprendido (associado genericamente à cognição ou aprender) é o amadurecimento da consciência, por parte do educando, acerca dos mecanismos segundo os quais ele melhor aprende (metacognição ou aprender a aprender). Essas estratégias educacionais passam por enfatizar elementos motivacionais, incluindo atenção especial a trabalhos colaborativos (capacidade de produzir em equipe) e em aspectos interdisciplinares (habilidade de estabelecer conexões entre diversas áreas do saber), acrescidos de relevância de comportamentos como tolerância e compaixão (empatia aplicada, isto é, entender o outro por se colocar na posição do outro e agir em função disso). São também relevantes os estímulos à visão empreendedora e o especial domínio de linguagens e de plataformas digitais
 
E esse modelo de escola do futuro que vem surgindo e ganhando espaço no Brasil?A escola do futuro deve dar respostas hoje para temas que estão presentes desde ontem e continuam sem respostas satisfatórias. Educar tem se tornado mais complexo, porque abarca o imprescindível conteúdo acadêmico, mas introduz, adicionalmente, novas exigências e perspectivas. Atitudes, comportamentos e posturas são elementos transversais presentes nos processos de aprendizagem de praticamente todas as áreas do conhecimento e em todas as suas fases.

Mesmo com toda essa tecnologia, os jovens ainda enfrentam graves problemas em redes sociais, como erros de português, falta de entendimento de textos. Como as redes sociais podem se tornar aliadas na educação?

As tecnologias digitais às vezes parecem ser o veneno. E de fato, às vezes, são mesmo. Mas é do próprio veneno que se produz o antídoto a ele, assim como se faz com cobras peçonhentas. Há que se explorar metodologias inovadoras, que contribuam para que nossos jovens e crianças leiam mais, escrevam mais e melhor, bem como sejam capazes de entender, e bem, textos complexos. Entendo que explorar a metacognição vai além dos procedimentos usuais de transmissão simples do conhecimento, privilegiando a curadoria precisa e eficiente do conteúdo disponibilizado e a adoção de abordagens emancipadoras, especialmente aquelas baseadas em aprendizagem independente.

Por onde começar para o Brasil ter uma educação pública de qualidade?

Educação e o contexto social onde ela se realiza não são coisas estanques e totalmente separáveis. Nossa carga cultural traz marcas bem descritas em obras consolidadas, entre elas destaco “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freire. Neste e em outros estudos, são enfatizadas, de um lado, uma elite acostumada às benesses e aos privilégios, que justificam e estimulam o paternalismo e a acomodação, e, de outro, os demais submetidos à exclusão e à opressão, que desfavorecem a emancipação e as iniciativas empreendedoras. A tradição histórica que se reflete nas relações, seja nas ruas ou no trabalho, infelizmente, também repercute nas salas de aula, via pedagogias que prioritariamente estimulam a aprendizagem marcadamente dependente. Ou seja, em outras palavras, o Brasil tem que perceber algo simples e que parecemos querer, ingenuamente, nos enganarmos a nós mesmo. Somos um dos países de maior contraste social do planeta e pagamos um preço muito alto por isso.
 
Hoje mudou muito o perfil de uma faculdade superior com o avanço dos cursos à distância. É o futuro?

Mais do que a educação a distância, a qual é somente uma modalidade possível, creio que as ferramentas advindas do uso intenso e adequado das tecnologias digitais deverá alterar a face da educação superior. Destaco a analíca da aprendizagem. Analítica da aprendizagem (em inglês, learning analytics) diz respeito à abordagem baseada na coleta e análise sistemática de dados sobre os educandos e seus contextos, tendo em vista o entendimento e a otimização do processo de aprendizagem e do ambiente no qual ele ocorre. Embora não exista uma definição única ou consensual sobre o tema, ele está associado ao desenvolvimento de ações e estratégias educacionais implementadas com o suporte de modelos, simulações e padrões estatísticos. Tal processo viabiliza conferir a eficiência e eficácia de metodologias educacionais, conhecer mais sobre todos os atores envolvidos e aprimorar de forma inteligente e substantiva a prática pedagógica.
 
Qual a sua avaliação sobre a forma como a tecnologia vem sendo usada atualmente, nas salas de aula?

As tecnologias digitais, de fato, invadiram a escola, de fora para dentro. O que é diferente de terem sido adotadas. Ou seja, antes dos professores ou dos gestores escolares decidirem ou não pelo seu uso, os educandos passaram a usá-las no dia-a-dia, inclusive na escola. Isso não é bom e nem mau; é fato. Hoje vivemos e lidamos tardiamente com as consequências desta “invasão” não planejada. Mas sou otimista, mais pelo potencial que vejo nos alunos e na capacidade de transformação e adaptação das pessoas do que na nossa capacidade, enquanto educadores, de enfrentarmos de imediato esta surpreendente realidade.
 
Como os docentes podem preparar aulas atrativas para envolver alunos que já nasceram na era digital?

Tendo calma, humildade e tolerância. Eles, os professores, jamais saberão mais e nem tanto quanto seus alunos sobre o mundo digital, portanto, não entrem nesta guerra perdida a priori. Os educadores devem saber mais, muito mais, sobre o conteúdo e sobre a vida. Isso basta. Desde que os professores não tentem brigar com as tecnologias e com seus alunos, um diálogo, complexo e difícil, pode ser reestabelecido. No momento, em alguns casos, educadores e educandos habitam planetas diferentes, usando linguagens distintas e sendo obrigados a conviverem juntos por algumas horas do dia. Por vezes, sacrifício desnecessário para todos. A solução está em curso, mas demandará tempo, o qual flui rápido.


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