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Viagem de carro pelo interior revela o Uruguai profundo

Roteiro corta interior do Uruguai de norte a sul expondo 11 cidades inexploradas e cheias de tradição, como a pequena San Javier, marcada por herança russa

| ACidadeON/Ribeirao

Zagarzazú: Praia no balneário localizado em bairro de Carmelo, à beira do rio Uruguai (foto: wikipedia)


Por ano, 500 mil brasileiros visitam o Uruguai. Mas experimente perguntar quais cidades eles conheceram: mais de 90% ficam entre Montevidéu e Punta del Este e somente 7,5% chegam à Colônia do Sacramento, segundo o Ministério do Turismo. Enquanto isso, boa parte do país permanece inexplorada.

Criado oficialmente como roteiro turístico em março de 2016, e ainda pouco divulgado no Brasil, o Corredor Pássaros Pintados é um exemplo de joia a ser descoberta. O caminho segue o trajeto da Ruta 3, que corta o interior do país de norte a sul, ao lado do rio Uruguai, na fronteira com a Argentina. A estrada tem 550 km e passa por 11 cidades, de Colônia do Sacramento a Bella Unión.

Em uma tacada só, seriam quase sete horas de viagem de carro. Mas não faltam bons motivos para ir parando durante o percurso.

A charmosa Carmelo, que fica a três horas de carro de Montevidéu, é o começo da rota. Colonizada por italianos a partir de 1855, a cidade abriga pouco mais de uma dezena de vinícolas-boutique. Quase todas têm ótima infraestrutura para visitantes.

É possível se hospedar nas luxuosas Narbona Wine Lodge (narbona.com.uy), do grupo Hyatt, e Campotinto (posadacampotinto.com), ambas com excelentes restaurantes. 

Quem quiser uma opção mais rústica pode acordar em vinhedos carregados de uvas tannat. Basta se acomodar na casa de hóspedes da Finca las Cavas.(fincalascavas.com.uy), alugada pelo Airbnb, ou no chalé da Bodega Cordano (almacendelacapilla.wixsite.com/almacendelacapilla), onde a refeição pode ser churrasco em fogo de chão.

Nas outras vinícolas, entre elas a El Legado (bodegalegado@adinet.com.uy) e a Irurtia (irurtia.com.uy), visitas guiadas podem ser combinadas a almoços, degustações e cavalgadas pelos vinhedos, sempre com agendamento prévio.

Entre dois e três dias são suficientes para conhecer as vinícolas de Carmelo. Mas a melhor época para visitar depende das intenções do turista. No inverno, quando a temperatura despenca para até 2ºC negativos, as atividades no campo são suspensas. Para apreciar a vindima, é melhor programar a viagem para março.

É também durante o verão que o balneário Zagarzazú, bairro de Carmelo à beira do rio Uruguai, ganha vida com a chegada de famílias que se instalam em trailers e barracas. As ruas de terra e as aleias de pinheiros lembram as regiões dos lagos norte-americanos.

Entre chalés particulares esconde-se o hotel-butique Puerto Dijama (hotelpuertodijama.com), inaugurado há dois anos. O argentino Pablo Nini e a brasileira Bruna Durães administram as nove suítes, dividem a cozinha e emprestam bicicletas para os hóspedes.

Entranhas do país

A porção central do Corredor Pássaros Pintados, entre as cidades de Mercedes e Paysandú, revela as entranhas do país. São cidades pequenas, de ruas sossegadas, onde o turismo internacional é novidade. Embora o governo tenha investido US$ 2,5 milhões (R$ 9,5 milhões) no roteiro, o trecho é carente de infraestrutura. 

Faltam bons hotéis e restaurantes em algumas cidades. Em compensação, as distâncias curtas entre os municípios permitem escolher um só ponto como base e conhecer um pouco de tudo.

Mercedes, a uma hora e meia de Carmelo, é uma boa opção em janeiro. Por dez dias, a cidade é tomada pelo Encuentro Internacional de Músicos Jazz a la Calle (jazzalacalle.com.uy). 

Realizado anualmente desde 2007, o festival reúne cerca de 140 músicos de vários países, que se apresentam de graça pelas ruas e praças. Em função do evento, a cidade dispõe de uma estrutura hoteleira mais eficiente.

Comunidade russa preserva comida, idioma e festa típica (foto: divulgação)


Comunidade russa preserva comida, idioma e festa típica

A caminho de Paysandú, parada seguinte do Corredor Pássaros Pintados, convém reservar algumas horas para conhecer San Javier, que parece um território russo encravado no interior do Uruguai.

Os primeiros colonizadores, que chegaram em 1913, pertenciam à seita religiosa Nuevo Israel e vieram para o Brasil fugindo da perseguição da igreja ortodoxa. Como funcionava como cidade-estado com leis próprias, sob a tutela do líder da seita, Vasili Lubkov, San Javier manteve os costumes 90% da população, de 2.000 habitantes, têm ascendência russa. Os mais velhos ainda falam russo pelas ruas.

Sobrou pouco do patrimônio arquitetônico. Enquanto alguns prédios aguardam restauração, é possível visitar o templo La Sabraña, decorado com fotos de imigrantes, e um pequeno museu, onde são expostos objetos. Em julho, acontece a Fiesta Rusa, com danças e comidas típicas.

Para provar pratos do país, é preciso ir ao balneário Puerto Viejo, a 5 km do centro, onde fica o parador de Raquel Santilla. O shaslik, cordeiro com limão assado na parrilla, e os varenikes, raviólis com recheio de batata e ricota, são as especialidades da casa.

Cidade Fray Bentos (foto: Fray Bentos / Divulgação)


Aula de história em Fray Bentos

Para quem gosta de história, Fray Bentos é um destino curioso. A cidade de 23 mil habitantes abriga as instalações do extinto Frigorífico Anglo, que funcionou de 1863 a 1979 e chegou a ter 25 mil funcionários nos tempos áureos. Ali se fabricava a carne enlatada Corned Beef Fray Bentos. Hoje, a marca pertence à escocesa Baxters, que comercializa o produto pela Amazon.

Caminhar pelos gigantescos galpões desativados equivale a uma aula de história. Na sala das máquinas, equipamentos a vapor, elétricos e a combustível são testemunhas da evolução da indústria. Os escritórios, mantidos como estavam no último dia de trabalho, foram transformados no Museu da Revolução Industrial (paisajefrayben tos.com/pc/). 

Já Nuevo Berlín encanta pelas atrações naturais. A cidade fica nas franjas do Parque Nacional Esteros de Farrapos e Ilhas do Rio Uruguai, um sistema de pantanais fluviais e ilhas com 17 mil hectares. De barco, é possível atravessar o rio Uruguai até as ilhas. 

O passeio deve ser contratado na recém-inaugur ada Estação Fluvial de Nuevo Berlín. No trajeto, que dura 3 horas, o visitante observa algumas das 200 espécies de aves nativas e conhece os apiários flutuantes, instalados sobre tambores que boiam no período das cheias. Dos 3.000 habitantes de Nuevo Berlín, 60% vivem da apicultura. 

Ao fim do passeio, a sugestão é conhecer o restaurante Casa Meira (casa.meira@hot mail.com), comandado pelo ex-executivo da indústria do petróleo Ernesto Meira. Não se deixe enganar pela simplicidade das instalações e pela falta de foco do menu, que mistura pratos italianos e árabes: a cozinha é primorosa.

Gran Hotel Concordia: De 1860, hotel é considerado monumento histórico nacional (foto: Wine Lodge / Divulgação)


Ruas vibrantes em Salto

Os resorts e os parques de águas termais são as atrações mais conhecidas de Salto, a próxima parada da rota. Como o município fica a 150 km da fronteira com o Brasil, não é difícil topar com ônibus de excursão brasileiros, sobretudo vindos da região Sul.

Muitos turistas nem se dão ao trabalho de esticar até a cidade permanecem nos vilarejos dos arredores, como Termas del Daymán (termasdayman.com), de perfil mais popular, e Termas del Arapey, onde a grande atração é o Arapey Thermal Resort & Spa (arapeythermal.com.uy), com sistema all inclusive. Uma pena, porque o melhor de Salto está mesmo em suas ruas vibrantes. 

Nessa antiga porta de entrada de argentinos no Uruguai, em função do porto, a arquitetura bem preservada convida a caminhadas pelo centro. Topa-se com tesouros como o Teatro Larrañaga, de 1882, que foi restaurado e ainda serve de palco para importantes espetáculos. Ou o Gran Hotel Concordia (ghotelconcordia@gmail.com), de 1860 declarado monumento histórico nacional, o local ainda recebe hóspedes e mantém um quarto-museu, onde Carlos Gardel se hospedou, em 1933. 

A poucos minutos do centro, é possível visitar a Olivares Salteños (olivaressalteni os.com.uy), segundo maior fabricante de azeite do país, e a vinícola Bertolini Broglio, que lançou o primeiro rótulo em 2001. É preciso agendar as visitas.

Microcervejaria Bimba Brüder (foto: Reprodução Facebook)


O berço da cerveja Norteña

Mais uma hora de estrada e chega-se a Paysandú, conhecida como berço da cerveja Norteña. A marca hoje pertence à Ambev, mas a cidade mantém a paixão pela bebida desde 1966, na Semana Santa, a festa de rua Semana da Cerveja atrai até 400 mil pessoas. 

Fora do festival, vale a pena bater à porta da microcervejaria Bimba Brüder (bimbabruder.com), que produz cinco tipos da bebida. O proprietário, Carlos Lamarca, recebe os visitantes e improvisa degustações entre os tanques de fermentação. Os rótulos também estão no menu do Café del Teatro. 

O lugar, que já funcionou como cafeteria do vizinho teatro Florencio Sánchez, fundado em 1860 e ainda em atividade, foi transformado em bar, com parte do mobiliário original ainda em uso.

A poucos passos dali funciona a matriz da rede de confeitarias Postre Chajá (pos trechaja.com), onde nasceu, há 90 anos, o doce chajá (pronuncia-se txarrá). Essa espécie de merengue de pêssego é uma das sobremesas mais famosas de todo o Uruguai.

Já para quem valoriza a boa mesa, o programa imperdível de Paysandú está no vilarejo Casablanca, a 10 km do centro: o restaurante La Pulpería (fricasa.com.uy/lapulperia), fundado há seis anos em uma construção de 1850, onde funcionava um armazém de secos e molhados. 

O menu-degustação, disponível no almoço e no jantar, tem como base ingredientes cultivados no quintal da propriedade. À tarde, o chá é servido nas mesas do terraço, diante do rio Uruguai. Embora a casa disponha de seis quartos, a melhor alternativa para hospedagem em Paysandú é o hotel Casagrande (hotelcasagrande.com.uy), com apenas 13 suítes.

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