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Política

Aos 90 anos, Carlos começa faculdade de arquitetura

Voltar aos estudos em idade avançada tem sido um comportamento cada vez mais comum em Ribeirão Preto

| ACidadeON/Ribeirao

Aos 90 anos, Carlos Augusto Manço foi atrás de realizar o sonho de cursar arquitetura. E ele quer mais. Formado, pretende ingressar no mercado de trabalho na área (foto: Matheus Urenha / A Cidade)
 
Aos 90 anos, depois de construir a casa e encaminhar filhos e netos para uma vida estável, o aposentado Carlos Augusto Manço decidiu voltar à sala de aula. Ele é o mais novo aluno do curso de arquitetura e urbanismo do Centro Universitário Barão de Mauá.  

Assim como Carlos, voltar a estudar com idade mais avançada tem sido uma cena cada vez mais comum em Ribeirão Preto.
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de estudantes com 40 anos ou mais fazendo cursos de graduação nas universidades de Ribeirão saltou de 677 para 1.767 em dez anos, entre 2000 e 2010.  

"Maior expectativa de vida e uma melhor qualidade de vida experimentada pelos idosos explicam o maior interesse", declarou o geriatra Carlos Rodrigues da Silva Filho.  

Somente em cinco universidades de Ribeirão Unaerp, Barão de Mauá, Moura Lacerda, Anhanguera e Uniesp há hoje 59 alunos matriculados com 60 anos ou mais.

Aprimoramento  

Aposentado há 30 anos, Carlos trabalhava com desenho técnico de arquitetura na USP e resolveu retornar à sala de aula para se aprimorar na área. Foi casado durante 62 anos, mas a esposa morreu no ano passado em decorrência de um AVC (acidente vascular cerebral). "Sempre quis fazer arquitetura, desde a juventude, mas a situação financeira na época não me permitiu fazer a faculdade, fiz somente o técnico em desenho no Industrial. Priorizei construir nossa casa, estudar os filhos e alguns netos", diz o aposentado.  

O calouro destaca que a motivação para iniciar o curso foi o "sonho antigo" de ter uma graduação e acrescenta que, depois de formado, pretende atuar na área como colaborador de outros arquitetos.  

Especialistas consideram a iniciativa de Carlos uma atitude benéfica não só para ele, mas também para os que o rodeiam na universidade.  

"Esse tipo de aluno na sala de aula irradia esperança aos outros simplesmente pelo exemplo, dispensa até o discurso que estudar é importante", pontua Ocimar Alavarse, docente da Faculdade de Educação da USP. 

Carlos e neto Gabriel: família apoia o idoso em tudo 

Faculdade é incentivo, diz neta  

Uma das netas de Carlos, Isabella Bucci, 34, acompanha o avô em tudo e disse que a família está muito orgulhosa e que o apoia para continuar. "Perdemos a nossa avó ano passado, e isso foi muito impactante. Agora tentamos dar novos incentivos à vida dele e um deles é a faculdade", diz. Sobre as aulas e a turma, o calouro de 90 anos declarou que ainda é cedo para dizer. "Está no começo, mas estou gostando. Sento na primeira fileira, não vejo os alunos de trás. No intervalo converso pouco, pois já voltamos rápido para a aula, mas sei que se precisar posso contar com eles", conclui.  

Vida ativa  

Com dois filhos, oito netos e quatro bisnetos, o aposentado Carlos Augusto Manço tem uma vida bem ativa. Além de cursar a faculdade de arquitetura na Barão, o idoso também faz um curso de pintura livre na USP. "Eu gostava de cuidar de orquídeas, antigamente ia atrás de mudas nos matos da região para replantar, mas hoje fica muito complicado por ter muitos produtos químicos e a nossa saúde não pode falhar", conta.   

(Priscilla Figueiredo, com supervisão de Rita Magalhães) 

*USP, Estácio, Unip e Faculdade Reges não informaram | Fontes: universidades e IBGE (Infográfico: Gaspar Martins)

Análise 

Aluno irradia esperança 

"Esse tipo de aluno com mais idade, que volta a estudar, traz um efeito bastante benéfico para os colegas e irradia esperança aos outros. Um senhor de 60 anos ou mais estudando, debatendo nas aulas, já é um exemplo que dispensa discursos. Ele prova a importância dos estudos na vida, representa um estímulo aos mais jovens. Além disso, o estudante mais velho pode enriquecer as aulas ao levar sua maior experiência de vida ao ambiente universitário. A tendência é que esse tipo de aluno seja cada vez mais frequente, já que as pessoas estão vivendo mais. Existem dois perfis de alunos mais velhos nas faculdades: aqueles aposentados que voltam aos estudos para aprofundar os conhecimentos adquiridos e os que continuam trabalhando e voltam à universidade para ampliar sua formação e enfrentar problemas do mundo do trabalho como, por exemplo, professores que querem ser gestores, diretores". (Ocimar Alavarse Docente da USP, especialista em educação) 

Estudo é um marcador de atitude 

O geriatra Carlos Rodrigues da Silva Filho considera que a presença de idosos nas universidades é um "marcador de atitude".  

"Tendo ou não feito faculdade antes, ele mostra ser um sujeito vivo, que faz planos, tem projetos. Essa atitude perante a vida é adequada e vai justamente ao encontro do envelhecimento saudável", declarou.  

O médico explica que o idoso estudante poderá exercitar a memória, mesmo que tenha mais dificuldade para aprender em comparação aos colegas mais jovens por conta da idade avançada. "A memória deve ser entendida como um músculo, precisa ser exercitada", acrescentou.  

Além disso, Silva Filho lembra que o ingresso na faculdade estimula a socialização. "O idoso se insere num outro grupo de pessoas, se sente estimulado. E isso tem um impacto positivo na expectativa de vida", conclui.



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