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Política

Confira a coluna do jornalista Julio Chiavenato

Ele fala da quinta fase da Operação Sevandija e do futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni

| ACidadeON/Ribeirao

A corrupção no sofá

A descoberta de que Marco Antônio continuava a receber propina, mesmo na cadeia, sugere que não basta o porrete da Operação Sevandija. Precisamos de um pouco mais.
É preciso um perfil dessa gente. Social, mostrando suas origens de classe; histórico, revelando quando e como entraram para a vida pública; psicológico, para demonstrar como se formou o caráter deles. Finalmente, procurar o que une esse pessoal, além da corrupção.

Começando com Freud

Como Freud ensinou, a psique humana é formada pelo Ego, o Superego e o Id. Todos nascemos com o Id, que representa as "pulsões primitivas", os desejos, vontades e o instinto pelo prazer. De acordo com o Id formam-se o Ego e o Superego. O Ego seria o resultado da relação com a realidade, "controlando" os instintos primitivos do Id. Atua para equilibrar o desejável ao possível, dentro das regras sociais que não podem ser quebradas. Enquanto isso o Superego representa os valores éticos e culturais do indivíduo e atua como freio para o Ego, avisando-lhe do que é ou não moralmente permitido. Freud, de quem copiei isso, afirmava que o Superego começa a desenvolver-se aos cinco anos, na intensificação dos contatos da criança com os mecanismos da sociedade, como a escola.
É possível aplicar essa "ciência" aos corruptos e malandros que atuam na política, como forma preventiva de impedir a ação criminosa?
Há riscos. Poderemos chegar ao totalitarismo, julgando que pessoas com probabilidades de se envolverem com a corrupção devem ser eliminadas da vida pública. Aconteceu no fascismo, no nazismo e no estalinismo. No entanto, há vantagens: sem repressão nem preconceito é provável detectar em indivíduos de "caráter elástico" a predisposição para o crime político.

Dárcy e Marco Antônio

Dárcy Vera, por exemplo. Se lembrássemos sua "história de vida" seria previsível que, por sua deficiente formação cultural aliada ao sofrimento imposto pelas injustiças sociais, não saberia controlar o poder político. Grosseiramente falando, o seu Id sufocaria o Ego e o Superego estaria livre para dominar suas ideias e fantasias. Recorde-se que ela, exercendo o cargo de prefeita, dançava, cantava, deixava-se fotografar como Penélope Charmosa e comportava-se com um voluntarismo irresponsável que lhe trazia satisfação ao sentir-se "poderosa".
E Marco Antônio? Pouco sabemos da sua vida particular. Era discreto e agia em silêncio, sem ostentação. No entanto, não era apenas o "braço armado" de Dárcy Vera, foi o cérebro do esquema que se espalhou pela administração municipal até quebrar Ribeirão Preto.
Teoricamente, para coibir a corrupção havia o sistema político, principalmente a Câmara. Só que a maioria dos vereadores era, ativa ou passivamente, parte do esquema. E quase todos oriundos de um populismo com base na comunicação radiofônica, com características psicológicas que só formalmente os diferiam de Dárcy Vera.

Brasileiros "sem culpa"

Deixando a Operação Sevandija, verificamos que a conjunção Id-Ego-Superego produz no Brasil pessoas que elaboram um mundo fantasioso para justificar e propiciar seus ilícitos. Um dos mais extraordinários é Lula. Ele se diz inocente de tudo que lhe acusam e ignora as provas. Não finge: "sente" que não tem culpa, com sincera convicção de que fez o mais correto. No caso dele há uma série de componentes a mais, porém, se há diferenças nos pormenores e nos resultados, a essência é a mesma que produz o ser humano envolvido pelas circunstâncias que levam ao crime ou ao que é considerado criminoso pelas ideias (pre)dominantes.
O caso de Onyx Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil, é mais curioso. Admitiu ter recibo R$ 100 mil pelo Caixa 2 e desculpou-se prometendo entregar o dinheiro às instituições de caridade. Descobriu-se que não foi uma só vez. Bolsonaro nada disse, mas Sérgio Moro parece que aceitou as desculpas. Então, passamos a ter como "pacientes", além de Onyx, também Bolsonaro e Moro...
Se quisermos ir aos casos extremos, lembremos Hitler. Ele era um homem "sensível" no cárcere, onde alimentava um ratinho de estimação. Adorava cães e crianças. Enternecia-se com música clássica, especialmente Wagner. Recordem o que aconteceu depois.
O discípulo dissidente de Freud, Carl Jung, dizia que "tudo depende de como vemos as coisas e não de como elas são". Já Freud foi incisivo: "O Estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los". As frases de Jung e Freud lembram Brecht: "O crime não é roubar um banco, mas fundar um banco".
Para entender a corrupção política é preciso uma "ciência auxiliar" que investigue as moti-vações e origens dos corruptos. E mais: ferramentas sociológicas (e das "humanas" em geral) que analisem o papel do Estado e da sociedade.