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Política

Confira a coluna do jornalista Julio Chiavenato

Ele comenta sobre a saída dos médicos cubanos e uma possível ppp para gerenciar o bosque de Ribeirão Preto

| ACidadeON/Ribeirao

 
Bosque Municipal
A Prefeitura estuda a possibilidade de uma PPP (Parceira Público-Privada) para o Bosque Municipal. Segundo o edital publicado no Diário Oficial, a ideia é tornar o bosque e o zoológico autossustentáveis, com "investimentos da empresa vencedora". É "um estudo que não tem pressa" para ser concluído. Ainda bem.
É a velha história: se o prefeito não consegue resolver o problema (ou o que pensa ser problemático), apela à iniciativa privada e terceiriza. Em Ribeirão Preto tudo o que foi terceirizado nos últimos anos custa mais caro e não oferece serviço de qualidade.
Com o Bosque Municipal é mais sério. É uma mata quase virgem dentro da cidade, que recebeu intervenções para se tornar uma espécie de parque. O conceito que norteou sua fundação tem mais de um século. Quando foi idealizado, prevalecia a noção de colocar "animais selvagens" em um ambiente estranho e hostil para eles e mantê-los em jaulas para a "educação" e divertimento do público. Assim criou-se e tratou-se o Bosque por muito tempo, até sua decadência física e cultural, apesar dos esforços para sua manutenção.
Há coisas boas, como a presença de biólogos e profissionais da área (veterinários, nutricionistas das universidades etc.) que protegem e cuidam de animais maltratados, expulsos do seu habitat pela destruição ambiental etc. Ao lado disso, continua sendo visitado pela parcela mais pobre da população. É, também, um polo pedagógico que atende as escolas (ainda que pouco), incentiva a introdução científica e aproxima estudantes da natureza.  

Isto basta?
Se analisarmos o potencial do Bosque, não. Poucas cidades no mundo (e não há exagero) têm o privilégio de uma floresta no centro urbano. Em tempos de poluição e desumanização isto é fantástico. No entanto, até as potencialidades do Bosque se degradaram nos últimos anos. Para todos os prefeitos o Bosque, em vez de fonte de lazer e cultura, é "deficitário" e consumidor de verbas.
O prefeito atual, em vez de buscar informações técnicas, científicas, culturais e urbanísticas com as instituições que trabalham na área, opta pelo mais conveniente: transferir a particulares a iniciativa de exploração do Bosque. A primeira certeza é óbvia: para entrar no recinto será preciso pagar. O resto é consequência.
É necessário que os preocupados com a questão cobrem da Prefeitura uma avaliação mais específica e detalhada sobre o que fazer com o Bosque Municipal, ouvindo especialistas, organizações e entidades (existem muitas, federais e estaduais) comprometidos com o meio ambiente e as necessidades sociais e de lazer da população.

Tá OK?
O olhar ideológico é irracional. Quando à ideologia se unem a burrice e preconceito as coisas desandam.
Cuba rompeu o acordo com o governo brasileiro e 8.332 profissionais do programa Mais Médicos podem deixar o país. Na prática significa que perderemos mais de 51% dos trabalhadores na área de saúde, que atuam principalmente nas cidades do Norte e Nordeste. A maioria dessas comunidades, aldeias ou acampamentos indígenas e camponeses nunca tiveram médicos antes da chegada dos cubanos.
Um ponto a considerar: estes médicos atendem a população com o acompanhamento familiar e a prevenção de doenças. Por várias questões que não cabem aqui, estão livres das pressões e "oferendas" de laboratórios e grupos industriais etc. Em resumo, praticam uma medicina mais barata e eficiente, se levarmos em conta o meio social em que atuam. Os resultados foram positivos, o que pode ser constatado tanto pelas avaliações governamentais como pelo depoimento da clientela atendida; há estudos do Imperial College (Londres) e da Stanford University (EUA).
Então, por que o contrato foi rompido?
Porque o governo cubano melindrou-se com as seguidas manifestações de Bolsonaro, acusando os cubanos de incompetentes que precisariam ser avaliados pelo governo brasileiro. E acusou Cuba de praticar "trabalho escravo", pois fica com mais da metade dos salários dos médicos.
Primeiro: os cubanos são eficientes e o Ministério da Saúde comprovou. Segundo: Bolsonaro não compreende o que é um governo socialista a parte que fica com o Estado cubano ajuda a dar assistência médica gratuita para todos em Cuba. Terceiro, se for necessário acentuar: a "sobra" dos salários dos cubanos no Brasil é mais do que suficiente para eles.
Uma coisa é a campanha política, quando as asneiras recebem aplausos. Outra, a responsabilidade do presidente eleito. Ele não pode ser boquirroto, falar o que lhe vem à cabeça e não esperar reações. No caso, as consequências serão sofridas pela população que ficará desamparada.
Segundo os primeiros estudos, nos próximos anos não há condições de preencher as vagas com a saída dos cubanos, embora o Brasil tenha médicos mais do que suficientes. Acontece que os brasileiros não querem sair dos centros urbanos, mesmo ganhando mais. A medicina, como tudo no Brasil, é uma "profissão" isto é, um meio de vida. Deveria ser uma missão isto não significa sacrifício nem perda, mas compromisso social. É outra história, que também não cabe aqui...
Cuba resiste aos trancos, com dificuldades e, provavelmente, para sobreviver terá que ceder algumas conquistas das políticas públicas. Mas o país ainda é um referencial científico na medicina, não só pelo atendimento gratuito como pelos resultados, como o tratamento do vitiligo, psoríase e vários tipos de câncer de pele e na produção de vacinas. Ao cortar os laços com Cuba o Brasil não perde apenas 8.332 médicos, mas a oportunidade de um intercâmbio científico que poderia ser positivo se abandonássemos o condicionamento ideológico.