Aguarde...

ACidadeON Ribeirão Preto

Ribeirão Preto
mín. 20ºC máx. 36ºC

Política

Confira a coluna do jornalista Julio Chiavenato

Ele comenta sobre a oposição ao governo Bolsonaro, os 'mitos' da política e sobre os buracos de Ribeirão Preto

| ACidadeON/Ribeirao

O boteco

Especula-se como será a oposição a Bolsonaro, mas não se discute o evidente: os vitoriosos já brigam entre si.
O capitão bagunçou a política. Para ele, os mais complicados são seus companheiros de campanha. A argamassa que os unia rachou. Enquanto a esquerda, ou o que restou dela, continua atônita, a direita que o elegeu bate cabeças.
Extensivamente, como isto se reflete na massa que o elegeu?
Roubando um conceito psicológico, podemos dizer que não existe um "inconsciente político". Como diria o filósofo de botequim, parodiando um psicanalista de café filosófico: é bobagem dizer que os eleitores de Bolsonaro votaram inconscientemente, pois não existe inconsciência política. Se não existe inconsciente político há o voto "consciente" estimulado pelo ódio e o ódio é a expressão do medo. De quem os eleitores de Bolsonaro tinham medo? Não sabem, porque quem odeia tem consciência do ódio, mas não do medo que leva ao ódio. Assim, quem odeia tem a necessidade de suprimir os fatos (a origem dos medos) e transformar o medo em ódio ao inimigo que o ameaça no caso, o PT. Com a preponderância do ódio sobre o medo (a vitória de Bolsonaro) aos poucos o medo se acalma e o ódio se dissipa.
Aí vem o revertério. Como não houve e não há unidade no ódio (mas afinidades no medo), as correntes vencedoras esperam resultados diferentes do vencedor, do "mito". Ironicamente, encontraram um adjetivo preciso para explicar Bolsonaro. De repente, o mito começa a se dissolver. Então o entrechoque entre desiludidos e adeptos alheios às contradições pessoais conturbam o ambiente.
A partir dessa situação aproveitam-se (e talvez se organizem) as forças vitoriosas e as vencidas que sobreviveram para ser oposição. Que podem ou não ser as mais radicais que apoiaram ou enfrentaram Bolsonaro na disputa pela presidência.
Mas a política não é apenas o conflito entre forças antagônicas e alianças oportunistas. É, principalmente, o reflexo de um processo social e econômico capaz de alavancar alguns "sentimentos" que produzam clamor ou revolta popular. Um aumento de salário negado, uma corrupção pontual de membro destacado no governo, uma tragédia inesperada (o rompimento de represas, inundações ou a execução de inocentes em meio ao tiroteio entre policiais e bandidos), podem mudar o quadro de uma hora para outra.
Tudo é incerto quando não há um programa e as personagens são contraditórias, política, psicológica e ideologicamente. Até mesmo este artigo pode ser jogado fora e nada disso valer. Não se esqueçam: estamos todos em um boteco chamado Brasil. 


Restrito e esquisito

No Brasil tudo é muito rápido ou "novo" demais. Ontem? Esquecemos. Amanhã? É outro dia.
Luís Carlos Prestes, o líder comunista mais famoso entre nós, ficou anos preso e foi exilado. Envelheceu no exílio. Os antigos comunistas chamavam-no de velho ou de capitão. Com o tempo ele passou a ser apenas o Velho, idealizado e messiânico. Com a anistia, em 1979, voltou ao Brasil.
Então, deixou até de ser o Velho e poucos lembravam que ele foi o capitão comandante da Coluna Prestes. Passou a ser, simplesmente, Prestes. O mito, que já era uma antiga lenda, começou a ser apagado. Ficou isolado, sem aliados nem seguidores. Morreu.
Hoje temos um novo capitão que sem prisão nem exílio, só com as armas das redes sociais, é mito para muita gente.
Uma coisa nada tem a ver com a outra ou tem?
Consultemos o dicionário. Para o Aurélio, mito é a "representação de fatos ou personagens reais, exagerada pela imaginação popular, pela tradição", ou a "narrativa dos tempos fabulosos ou heroicos". Nesses aspectos, Prestes é mito.
O mito atual, aclamado por milhões de brasileiros, é o presidente eleito Jair Bolsonaro. Ele também é capitão. Mas, ao contrário de Prestes, não foi expulso do Exército por ser revolucionário. Foi "saído" e reformado por quebra de disciplina.
Voltemos ao Aurélio. O dicionário ainda diz que mito é uma "narrativa na qual aparecem seres e acontecimentos imaginários, que simbolizam forças da natureza, aspectos da vida humana". Nesse sentido, Bolsonaro é um mito, pois não se pode negar que ele é uma "força da natureza" e trabalha com "acontecimentos imaginários". Reforça a sua característica mitológica outra definição de mito pelo dicionarista: uma "ideia falsa, sem correspondente na realidade".
De mito em mito me contrito, sem delito nem atrito este é o pais que habito. Tudo tão restrito e esquisito... 


Plec-plec-plec

Os buracos no asfalto têm várias categorias; nós, nenhuma maneira de escapar deles. Quando começaram a aumentar, há uns trinta anos, bastava se desviar das crateras. Agora não dá mais: são tantos que nos engolem.
Os primeiros resultados foram pneus rasgados, rodas tortas, suspensões escangalhadas. Como a buracaria se sentiu impune, aproveitou. E na sequência, começou a matar gente. Motociclistas caíam ou eram lançados ao ar; motoristas desviavam-se e atropelavam pedestres.
Nada sensibilizou os prefeitos. E os buracos cresceram. Sentindo-se livres, corroeram o subsolo e romperam as tubulações de água e esgoto. Até que produziram dois tipos de automobilistas e motoqueiros. Um, que aprendeu a mapear o local dos buracos e a passar longe dos safados. Outro, que usa os buracos para desculpar suas barbeiragens.
E os buracos aumentam. Quando se pensa que não apareceriam novas modalidades, os buracos, em um salto de criatividade, apresentam-nos o plec-plec-plec.
O plec-plec-plec é um diversionismo buracal. Trata-se de enfiar entre os sulcos dos pneus uma pedra desgarrada do asfalto, que passa a fazer o característico barulho enquanto o carro anda: plec-plec-plec.
Assim, esquecemos o buraco em si e paramos o automóvel para tirar a pedrinha. Então, que alívio: o pneu não furou e continuamos a jornada com a pneusada silenciosa e seguimos felizes até o próximo buraco.