Celular de Plastino tem desde contradições a novas denúncias

Documento no celular do empresário acerta em repasses dos honorários de Zuely, mas diverge de planilhas encontradas em casa

    • ACidadeON/Ribeirao
    • Cristiano Pavini
Weber Sian / A Cidade - 07.out.2016
Marcelo Plastino, dono da Atmosphera, se matou em 25 de novembro de 2016 (Foto: Weber Sian / A Cidade - 07.out.2016)

 

Com menção a irregularidades envolvendo duas dezenas de empresas e agentes políticos, o celular de Marcelo Plastino, que teve o relatório feito pela Polícia Federal tornado público na última quarta-feira (6), reforça suspeitas da Operação Sevandija e traz elementos para novas investigações. Mas, também, dúvidas e contradições relacionadas ao que o empresário, que se matou em 25 de novembro, poderia trazer em uma possível delação premiada.

Organizado em tópicos, um arquivo em formato PDF no celular do empresário dá indícios do que ele delataria ao Ministério Público. Ainda não está claro, porém a efetividade dessas denúncias (ver infográfico), que envolvem desde seis vereadores da atual Legislatura da Câmara à ex-prefeita Dárcy Vera (PSD). Todos negam irregularidades.

Apesar de divergências na tradução das cédulas de R$ 2 com a contabilidade da propina, o arquivo no celular de Plastino também traz elementos que seriam confirmados apenas após a morte do empresário. Ou seja: ao menos parte de seus apontamentos têm valor.

Em um tópico, por exemplo, o arquivo aponta que as empresas Ambiental e Carvalho Multisserviços, tradicionais na prestação de serviços terceirizados e limpeza e zeladoria para a prefeitura, “intermediaram Luchesi e Zuely para pagamento”.

O relatório da quebra do sigilo bancário de Zuely Librandi, que só seria anexado aos autos do processo três semanas após o suicídio de Plastino, apontou que ambas receberam R$ 577 mil em cheques da advogada. A Sevandija suspeita que foram intermediárias utilizadas por Sandro Rovani para o pagamento de propina.

Também foi descoberta, na quebra de sigilo, que Luchesi recebeu R$ 60 mil de Zuely. Ele não foi denunciado no esquema dos honorários e alegou, à época ao A Cidade, que o valor é resultado de um “empréstimo” que ainda não havia sido pago. As duas empresas negam irregularidades e dizem que já prestaram esclarecimentos ao MP.

Sob análise

Em nota, o Gaeco informou que “a análise e a eventual confirmação do conteúdo do material juntado ao processo [relatório do celular de Plastino] depende  do confronto com outras provas”. O órgão afirmou  aguardar o fim da instrução criminal nos processos em andamento para realizar a “análise individualizada das provas, verificando sua utilização em outros feitos e suspeitas pendentes”.

PERGUNTAS AINDA EM ABERTO SOBRE O CELULAR DE PLASTINO

1-Quem escreveu o documento?
O relatório de análise da PF não informa se foi feita análise nos metadados do arquivo para tentar localizar em qual aparelho eletrônico foi escrito. Algumas frases citam Marcelo Plastino em terceira pessoa, indicando que ele poderia não ser o autor do conteúdo – e sim ter recebido de seu advogado, por exemplo. O relatório também não diz em qual partição do celular o arquivo estava.

2-Quando foi escrito?
Não há menção, no relatório de análise, à data de criação do arquivo. Isso é importante para verificar se foi próximo à data do suicídio (25 de novembro) e se, na ocasião, havia tratativas de acordo de delação premiada.

3-Por que há divergências entre o arquivo e as planilhas?
Plastino deixou um “legado” do que poderia ser a delação premiada: planilhas impressas e arquivos no celular encontrados em seu apartamento em novembro, na noite do suicídio, que complementam as cédulas de R$ 2 apreendidas em seu cofre em setembro. Mas há divergências entre os documentos, colocando em xeque qual deles traz a “tradução” correta das cédulas. Por exemplo:

- Nas planilhas impressas, as siglas AC, TV e TC nas cédulas de R$ 2 seriam menções a valores pagos a vereadores da base aliada de Dárcy. Já no documento do celular, são relacionadas a pagamentos a Ricardo Silva (PDT). Em conversa no Whatsapp com o filho, encontrada em seu celular, Plastino pede opinião ao filho para colocar “nas costas do Ricardo Silva” a sigla TC, sugerindo prejudicar o pedetista.

- Sigla AC presente nas cédulas de R$ 2, que nas planilhas impressas significaria “Ajuda de Campanha”  para Walter Gomes e Cícero Gomes, aparece como sendo “Anúncio de Campanha” para Ricardo Silva no documento do celular e “Amigos Comuns” de Walter Gomes em uma foto de um manuscrito também encontrado no celular, como sendo pagamentos de brindes e churrascos.

4-Plastino podia provar o que estava escrito?
Não está claro se Plastino teria elementos para comprovar as acusações, muitas delas novas, presentes no arquivo eletrônico. Algumas, como o pagamentos de propina em contratos de tratamento de esgoto e recolhimento de lixo, fugiam da alçada da empresa Atmosphera. E se os mensalinhos a agentes públicos foram pagos em dinheiro, o rastreamento também seria difícil.

OBS: Além do relatório de análise das apreensões, a PF realizou um laudo pericial dos equipamentos eletrônicos, não localizado pelo A Cidade no processo digital.  Na Sevandija, esses laudos costumam ser anexados em mídia (DVD ou Blu-Ray), de acesso restrito às defesas. Questionada por meio da assessoria da imprensa sobre detalhes do celular, a PF informou que “os laudos e relatórios já foram encaminhados à Justiça, nada havendo a ser acrescentado neste momento”


0 Comentário(s)

Seja o primeiro a comentar.