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Eleições

Julio Chiavenato: Entre tapas e beijos se faz um prefeito

A eleição desse ano em Ribeirão Preto não tem candidatos de peso, exceto o prefeito; Isso não quer dizer que ele vencerá

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritos Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Como "se faz" um prefeito?  

Em Brasília eles conjuram. Ribeirão Preto sofre as consequências. No Planalto e no Congresso os caciques selam alianças que na verdade são conchavos. Ajustam diferenças e trocam favores da "grande política" usando os munícipios e estados como moeda de troca.  

Assim se explicam as desistências de Gandini e Lincoln Fernandes e os problemas jurídicos do PSL local. Vários partidos, de acordo com sua participação no poder e as perspectivas de sucesso eleitoral, acomodam suas candidaturas relegando os interesses locais e localizados. Só há exceções quando a situação partidária está consolidada. Caso, em Ribeirão Preto, do PSDB, que almeja reeleger Duarte Nogueira; e do PT, que pode perder mais uma repetindo a conduta de sempre (como o PSOL, o PSTU, o PCdoB e os demais nanicos; a expressão "nanico" é politicamente indelicada, mas correta para situar a política nanica da oposição à esquerda, embora um sarcástico comentasse, "qual esquerda, camarada?"). 

A eleição desse ano em Ribeirão Preto não tem "candidatos de peso", exceto o prefeito. Isso não quer dizer que ele vencerá ou alguém "mais leve" não possa surpreender. Em 1992 Palocci não tinha "peso", mas Lula foi o contrapeso que o levou à vitória. "Candidatos de peso" são aqueles tradicionalmente com lastro eleitoral e partidário. Foi o caso, em 2016, de Ricardo Silva, do próprio Gandini e, naturalmente, Nogueira. Naquele ano Nogueira ganhou o "peso" do governador Alckmin; Ricardo, o do seu pai, o deputado Rafael Silva. Hoje quais "pesos pesados" estão dispostos a quebrar a cara na eleição municipal em Ribeirão Preto? 

O povo pode eleger o prefeito, mas não pode escolher os candidatos. As candidaturas não são decisões pessoais dos candidatos, pois resultam de acordos entre partidos que menoscabam circunstâncias locais e guiam-se por exigências externas. Mais: os diretórios estaduais e municipais muitas vezes se imolam, sacrificando-se pelo interesse maior dos líderes nacionais. Não adianta falar em democracia lembrando os gregos, liberdade de expressão, direitos do cidadão etc., é assim que o jogo é jogado. E, não raro, o juiz é ladrão. 


Nesse mundo não há inocentes

Porém, os "caipiras" não são vítimas inocentes. Eles contribuem para o toma-lá-dá-cá, aceitando "sacrifícios" em troca de cargos, vantagens e compensações futuras. Entendem que o "bom cabrito não berra" e, quando berra, doura a pílula, como Gandini - todos sabem que ele levou uma rasteira, mas ele não sai atirando: o tombo de hoje pode ser o pulo do gato amanhã. Idem, o mais novo "rasteirado", Lincoln Fernandes. 

Na verdade, se observamos historicamente as eleições municipais, constata-se que as mudanças foram mínimas. Quando aparentemente mudou apenas a cúpula do poder, sem alterar as formas da administração; nem seus resultados: em todas as gestões faltou água, a Saúde e a Educação foram problemáticas etc. Por exemplo, com a eleição de Antônio Palocci a "revolução" anunciada pariu um prefeito mestre em manipular licitações "com molho de tomate" e capaz de um salto ousado até chegar a ministro. No caminho, desandou. 

Por quê? A resposta seria dos cientistas políticos, mas eles estão preocupados com seus nichos e vacilam ao enfiar o bisturi no tumor pútrido das estruturas econômicas. Uma resposta fora do padrão das teorias vigentes, mas que já foi dominante em décadas passadas, é que uma sociedade estruturada na exploração de classes só pode produzir uma política adequada à sua dominação. É o que temos. A Constituição, o Judiciário e as demais instituições trabalham para garantir a "normalidade" e a "ordem" - os críticos liberais conformam-se em defender a democracia vigente, como se bastassem os processos formais para superar a injustiça social enraizada. 

O que não inibe até quem sabe disso a participar da farsa, prometendo mudanças que sabem impossíveis. Assim, as eleições desse ano serão como as outras: o vencedor não ficará com as batatas. Elas já têm dono e estão repartidas biblicamente: aos que têm, mais será dado; aos que nada têm, até o que têm será tirado (Mateus, 13;12). Isso se aplica não só na hierarquia das classes sociais, mas, também, na "divisão" do bolo político: os caciques partidários têm a faca que corta cada fatia. 


Eleitor de dupla face

Cidadão de ótimo conceito,
folha corrida extraordinária
e homem de muito respeito
fez essa poesia solidária:
"Eu vou eleger um prefeito
de honestidade binária,
para que ele dê bom jeito
na minha conta bancária".
 

Simone, quando mocinha

"À minha volta, reprovava-se a mentira, mas fugia-se cuidadosamente da verdade". (Simone de Beauvoir, 1908-1986)
 
 
*a opinião contida nesse artigo não representa, necessariamente, o ponto de vista do ACidade ON

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