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Sorria, você está sendo manipulado

Em casa, comentávamos sobre como seria bacana conhecer a Grécia; Minutos depois, no meu Instagram, comecei a receber propagandas de agências de turismo

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas (Foto: Arquivo Pessoal)

Em casa, numa conversa em família, comentávamos sobre como seria bacana conhecer a Grécia. Estávamos sentados à mesa, almoçando, e os nossos celulares estavam ali por perto. 

Minutos depois, rolando a tela do meu Instagram, comecei a receber propagandas de agências de turismo me oferecendo pacotes de viagens para lá. Bizarro, não? Isso já aconteceu comigo diversas vezes e, quando acontece, me dá um frio na espinha, uma sensação de estar sendo observada, algo do tipo: "Deus está vendo"! E sempre que sinto isso, me lembro do filme de terror visto na década de noventa, "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado". 

Ultimamente, tenho a impressão de que estamos dentro de um filme de zumbis, de possessão ou premonição, sendo observados por entidades do além. No entanto, o filme da nossa vida atual está mais para ficção cientifica, já que convivemos com robôs e somos controlados pela inteligência artificial. Conceber um Deus onisciente, onipresente e onipotente, depende da crença e da espiritualidade de cada um, mas o fato de sermos observados por um poderoso sistema cibernético é uma realidade concreta e objetiva. 

Me lembrei, agora, de outros fatos curiosos. Há alguns anos, minha filha teve uma suspeita de dengue e fiz alguma postagem no Facebook relacionada ao acontecimento. Recebi um SMS de não sei quem me perguntando se o diagnóstico tinha sido notificado a alguma instituição sanitária. Pensei: o Facebook tem o número do meu celular? Se minha página é restrita aos amigos, como é que alguém teve acesso a essa informação? 

Outro fato ocorreu recentemente. Quando os salões de cabelereiro puderam voltar a funcionar, fui me livrar dos cabelos brancos, ajustar o corte, fazer as unhas etc. Assim que cheguei ao local, recebi uma advertência, novamente do Facebook, para que eu tomasse cuidado com a transmissão do Coronavírus, que usasse máscara, álcool-gel, essas coisas. Pensei: como é que o Face sabe que eu estou aqui se não postei nada, não fiz check-in? Estranho! 

Intrigada com a constatação de que minhas conversas estão sendo ouvidas por "alguém", fui pesquisar a respeito e descobri que isso acontece quando você mesmo permite o acesso ao microfone do seu celular e à sua localização. Permitimos isso, provavelmente, quando configuramos o aparelho ou quando baixamos algum aplicativo e aceitamos aqueles termos de privacidade, obviamente, sem ler, porque isso dá muita preguiça. 

A essa altura, muitos de vocês já devem ter assistido ao documentário "O dilema das redes", lançando na Netflix, em setembro deste ano. Se ainda não viu, coloque-o na sua lista, pois é importante ter consciência do poder de manipulação psicológica das redes sociais. 

Depoimentos de ex-funcionários de diversas plataformas da internet como Google, Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e Pinterest revelam como a persuasiva indústria da tecnologia trabalha para rastrear nossas atividades na internet e para nos direcionar. Eles identificam nossos padrões de ação com o objetivo de nos manter conectados, dirigindo nossa atenção aos anunciantes. Além dos relatos, é apresentada uma história fictícia, porém muito realista, de adolescentes cujo comportamento foi controlado pelos algoritmos. Se você tem alguma atividade na rede, o sistema sabe tudo sobre você. Sabe quando está solitário ou deprimido, sabe com quem você anda conversando, sabe da sua agenda, entende sua personalidade mais que seu psicoterapeuta e conhece suas vulnerabilidades emocionais melhor que você mesmo. E mais, determina "o que você fará no próximo verão". 

Especialistas de diversas áreas, inclusive das neurociências, afirmam, lá no "Dilema", que nossas atividades no mundo virtual têm provocado mudanças em toda a estrutura da sociedade, principalmente na economia, na política e na saúde. Fazemos compras instantâneas sem sair de casa; somos bombardeados por ataques em massa e fake news que nos polarizam e nos induzem ao voto. E estamos dependentes das mídias sociais da mesma maneira que viciados em drogas. 

Além disso, as perspectivas não são nada animadoras. Pelo visto, a situação está fora de controle e, se nada for feito, poderemos chegar à guerra civil, à barbárie e à extinção da vida na Terra. Bizarro, triste e assustador! 

O documentário apresenta uma frase interessante do professor Edward Tufte, da Universidade de Yale, USA: "Existem somente duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas ilegais e a de programas de computador". Fazemos parte do cardume que foi fisgado pela rede, mas que tipo de usuários de internet somos nós? Fumantes recreativos? Etilistas sociais? Cheiradores diários? Injetadores descontrolados? Crackeiros irrecuperáveis? 

Conheci, por intermédio de uma amiga, um material interessante, publicado pela "Top Dog Social Midia". Essa agência de conteúdo americana publicou um artigo no seu site com o título "Que tipo de usuário de mídia você é? Foram definidos dez tipos de personalidades na rede, traduzidos por mim como: o observador, o ativista, o espalhador de lixo, o passional, o sociável, o propagador de ódio, o influenciador, o que adere às novidades, o cheio de contatos e o família. O entendimento do comportamento padrão de cada tipo proporciona que as mídias levem a ele, exatamente, aquilo que mais o interessa. Não há nenhuma novidade no fato do nosso comportamento estar na mira do pessoal do marketing e da publicidade, mas me parece que depois do surgimento das redes sociais, que aplicam procedimentos poderosos de instalação e manutenção do comportamento compulsivo, a coisa desandou. 

Já faz algum tempo que a sociedade não admite que propaganda de tabaco e bebidas alcoólicas sejam destinadas ao público infantil, não se pode nem mais dizer que o Danoninho vale por um bifinho, pelo simples fato, de que isso se trata de mentira. Quando eu era criança, eu comia um chocolate cuja embalagem simulava um maço de cigarros. Hoje, isso não é permitido, pois já sabemos que esse ato incentiva o fumo. Mas por que, então, nós permitimos que nossos filhos tenham acesso à tablets e celulares, antes mesmo que completem 5 anos de idade? Talvez, para que fiquem entretidos e, assim, possamos ter mais tempo para "chapar" nas redes sociais. 

Nos idos da década de oitenta, os Titãs disseram que a "televisão nos deixou burros, muito burros demais". O que dizer, então, dos smartfones? Diria que são telefones espertos nas mãos de usuários ingênuos. Grande paradoxo!

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