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Eleições

Eleições: Os candidatos são personagens que assumem um papel

Há atores que parecem acreditar no seu personagem. Principalmente quando interpretam a si próprios em uma imagem idealizada

| ACidadeON/Ribeirao

 

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Crítica teatral das eleições em Ribeirão Preto

Vistos na propaganda eleitoral os candidatos não têm personalidade. São personagens que assumem um papel.  

Há atores que parecem acreditar no seu personagem. Principalmente quando interpretam a si próprios em uma imagem idealizada, como Duarte Nogueira. Ele enfeita atos passados, imaginários ou reais, como se fossem pontes para o futuro. Bom não exagerar na síndrome do ator principal. Paulo Autran, por exemplo, engolia seus personagens, projetava a voz e quem o ouvia... via a "persona" Paulo Autran. Nogueira atua como se estivesse só no palco: ignora o resto do elenco, mal vê o público e declama o texto fora do contexto. 

Sueli Vilella parece a atriz tímida que, aos poucos, rouba a cena. "Chama" os refletores, procura o "timing" exato e aumenta as proporções: se estivesse no papel da Virgem Maria ela diria que soube educar muito bem o seu filho. 

Cris Bezerra acredita tanto nela que se tornou cover dela mesma. Tudo vai mal, mas ela promete consertar. É uma espécie de Cassandra, aquela que foi amaldiçoada por profetizar tragédias que ninguém levava a sério. Dizem que quando Cassandra dormia as cobras lambiam seus ouvidos para que ela pudesse conhecer o futuro. A Cassandra grega se deu mal; se Cris soubesse ver o passado saberia que a aliança entre o demônio e o diabo acaba em festa no inferno. 

Chiarelli é o avatar de Jânio Quadros, de quem "reencarna" a roupa amarfanhada, os cabelos despenteados, o sotaque manjado e o voluntarismo que curará a dor no peito da vovozinha. Talvez acredite no seu papel, como aqueles atores ingleses que de tanto trabalharem no teatro elisabetano adquirem a prosódia seiscentista; há a lenda de um intérprete de Ricardo III que acabou corcunda. 

E os outros?  

São coadjuvantes. Machado, do PT, tenta, mas está difícil porque a plateia mudou. Os outros da esquerda prometem o mesmo que os da direita: creche, saúde, educação. Até pouco tempo a esquerda propunha mudar e a direita regia. Hoje, "tamo junto". 

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Acertando por linhas tortas

São mais de 500 os candidatos a vereador. Pela postura deles no horário eleitoral, nem dez por cento têm chance. Por que tanta gente quer defender o povo? 

Adivinhem.  

Um, confunde latifundiário com fundiário. O marqueteiro nem percebeu. Mas Deus é um sociólogo que escreve certo por linhas tortas: o problema urbano em Ribeirão Preto deve ser resolvido pelo fim do latifúndio. Nesses canaviais, o latifúndio é um montão de usinas vazando álcool por todos os poros. Mas, na Roma antiga, antes de haver latifúndio, o "dominium" era a casa, a possessão controlada pelo senhorio que explorava o trabalho dos proletários. No "dominium" ninguém podia ter mais de 125 hectares. Porém, Roma tornou-se imperialista e o sistema mudou. Veio o latifúndio: do latim "latus" (amplo) e "fundus" (fazenda). Os pequenos proprietários perderam suas terras e as cidades se encheram de plebeus, que para não morrer de fome tornaram-se soldados. 

Os bairros marginais de Ribeirão Preto são "latifúndios" suburbanos, a servir de depósito a milhares de trabalhadores que vêm para a "polis" cuidar dos negócios do senhor. A maioria é vítima do grande latifúndio nacional, que expulsa da terra milhões de pobres que se esparramam pelas bordas das grandes cidades, concentrando mão de obra barata. 

Assim, "sociologicamente", o candidato que confundiu latifundiário com fundiário acertou mais do que errou. O drama é que ele não sabe disso. Se soubesse não seria candidato a vereador, denunciaria ao seu povo esse sistema excludente que oferece a ilusão da vereança para "subir na vida". 


Ave Mito, morituri te salutant


Vão proibir o espaguete
e a pastelaria chinesa,
estão de olho na baguete,
que é heresia francesa.

Nem pensar na vacina
para o fim da pandemia,
pois o que vem da China
é enganosa feitiçaria.

Se o general diz que sim,
o capitão diz que não,
nessa bagunça sem fim
quem se ferra é a nação.

Essa vacina comunista
tem um chip gayzista
que ataca o terraplanista
e pode tornar ateísta
o crente negacionista.

Salve sua alma, irmão,
desconfie da tal ciência:
com deus no coração,
se morrermos, paciência. 


Todavia...

"O Brasil não tem povo, tem público." (Lima Barreto, 1881-1922)
 
 
*A opinião do colunista não representa, necessariamente, a posição do ACidade ON

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