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Confira a coluna do doutor José Ernesto

Leia a história desta semana do professor dr. que atua na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão

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Essa assinatura é sua?
 
A XIV turma da Faculdade de Medicina da USP é muito especial. Dela saíram grandes profissionais em todas as áreas de atuação médica. Entre nossos colegas temos ainda diretores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Superintendente do Hospital das Clinicas, um dos Reitores da USP, um Secretário de Saúde do Estado e o atual Presidente da FAPESP (que me lembro agora).
Tradicionalmente nos reunimos a cada cinco anos. Bons papos! Relembrar os tempos de estudantes, contar sobre a família, os sucessos e dificuldades da profissão. Nos últimos anos, essas reuniões têm sido anuais, provavelmente porque o quórum infelizmente vai diminuindo.
 
Recentemente comemoramos 48 anos de graduação e lá vamos nós tomarmos um chopinho (um?) e conversarmos sobre os mesmos assuntos, mas sempre com novas interpretações. As conversas nos últimos anos abordam menos os relatos das grandes conquistas. Os temas mais visitados são os netos, as coronárias e a próstata. Alguns trazem para a reunião coleções de fotos dos seis anos de convívio, dos times de futebol, das festas, do Baile Branco e outros.
 
Na reunião recente, coordenada e muito bem organizada, como sempre, pelo nosso "promoter" o Rui Celso, conversávamos animadamente num grupo, quando o Sidney, colega que atua em Rio Preto, se aproxima do Roberto, ortopedista em Uberlândia e grande nadador, que até hoje ganha medalhas em competições oficias de máster (nome politicamente correto para designar idoso), se aproxima com um cheque, amarelecido pelo tempo, mostra a assinatura para o Roberto e pergunta:
 
-Roberto, essa assinatura é sua?
 
Ele olha desconfiado e diz:
 
-Sim!  

Um cheque de cinco cruzeiros (o que será isto?) datado de novembro de 1977. 

Começa então uma tarefa digna de Indiana Jones. Num esforço antropológico, fomos tentar entender os caminhos percorridos por um cheque de cinco cruzeiros, emitido em 1977 em Uberlândia, foi aparecer depois de 41 anos, nas mãos de um colega em São Jose do Rio Preto. Trezentos quilômetros!
 
A história agatacristiana começa em 1977, quando o Roberto, querido professor da Faculdade de Medicina de Uberlândia, vai a uma lanchonete e pede um salgado e um refrigerante. Ao pagar, estando sem dinheiro na carteira, preenche um cheque. Um aluno da Faculdade de Medicina se aproxima e diz:
 
- Não professor, deixe que eu pago.
 
Roberto responde
 
-Tudo bem, então o cheque é seu.
 
Esse aluno termina o curso medico e a especialização em Uberlândia e vai exercer Medicina em São José do Rio Preto.
 
Alguns anos (ou décadas) depois, em conversa com o Sidnei ele diz que se formou em Uberlândia.
 
- Poxa, tenho um colega de turma que deve ter sido seu professor. O Roberto, ortopedista.
 
- Ah....claro e eu guardo com carinho um cheque de que ele me deu. Nunca descontei.
 
-Deixe-me ver. Posso mostrar para ele?
 
Em resumo 41 anos depois um cheque de cinco cruzeiros, foi uma das estrelas da reunião.
 
É claro que meu primeiro impulso para brincar mais com o Roberto, foi escrever que o cheque fora devolvido por falta de fundos. Mas, a mensagem mais forte, é um aluno guardar por 41 anos e como lembrança um cheque de cinco cruzeiros que lhe fora dado por um professor querido e admirado.
 
Já não se faz mais alunos, talvez nem professores, como antigamente.

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