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Cotidiano

"Não vejo problema", diz mecânico que namora prostituta em São Carlos

Relação teve início há três anos e passou por momentos conturbados após mulher decidir continuar na profissão. Casal planeja aumentar a família com um filho

| ACidadeON/São Carlos

"Hoje eu acho normal,, não vejo problema" - Danilo
 
"Hoje eu acho normal, não vejo problema". É assim que o mecânico Danilo Almeida define o relacionamento de três anos com uma garota de programa de São Carlos. De acordo com o jovem, a paixão teve início enquanto ele ainda era cliente da atual namorada. A relação entre os dois evoluiu e eles passaram a morar juntos. Hoje, os namorados já pensam em construir uma família. Lidar com a profissão da mulher, no entanto, nem sempre foi algo fácil para o rapaz.  

"A primeira vez que nos encontramos foi em 2014. Ele achou meu número em um site e ligou marcando um programa. Até aí, nada fora do comum. Assim que eu cheguei e ele abriu a porta, ele me deu um sorriso tão lindo que me derreti toda. Confesso que meu coração bateu diferente", lembrou Joseane Magalhães.  

"Eu saí com meninas desse mesmo site outras vezes, mas com ela foi outra coisa. Quando vi a foto dela na página, mesmo sabendo que poderia ter [edição de imagem] já fiquei muito curioso. Quando estava a caminho do encontro, parecia que era minha primeira vez, estava muito nervoso. Assim que olhei para ela, sabia que não ia ser a última vez", relatou Danilo.  

Os dois continuaram a se encontrar por alguns meses, tudo sob o pretexto de uma relação estritamente profissional. "Nenhum dos dois ia dar o braço a torcer, mas já dava para sentir algo diferente. Na minha cabeça, aquilo era errado. Como é que eu ia ter uma relação com ela, sendo que na época ela tinha um monte de clientes? Eu já ficava com ciúmes, mas nunca falei nada. Ela também começou a perceber que, quando a gente se encontrava, era mais conversa do que sexo", apontou Danilo.  

"Eu não sabia qual era a intenção dele. Tem homens que procuram a gente só para desabafar mesmo, gostam de levar para sair, viajar, querem mais a nossa companhia do que o sexo em si. É normal. Tem até clientes que começam a ficar com ciúmes e pensar que mandam na gente. Esses eu trato de cortar logo de uma vez. Com o Danilo não parecia isso, mas que tinha algo estranho, isso tinha", disse a jovem.  

"Ele pediu meu telefone particular porque dizia que no outro era muito difícil de me encontrar. Eu normalmente não passo esse número para ninguém além da família e dos amigos, mas não vi problema porque eu também queria manter o contato com ele. Ele começou a me mandar [mensagens no] WhatsApp quase todos os dias e a gente conversava, mas era como amigos. Chegou um dia e ele me disse que tinha uma proposta indecente para fazer: perguntou se eu topava sair com ele não para o motel, mas para tomar um açaí no Centro. Isso ele não sabia até pouco tempo, mas eu tinha um cliente naquele dia que resolvi desmarcar para me encontrar com o Danilo", contou Joseane.  

Segundo o casal, o encontro foi marcado por um clima extremamente desconfortável. "É engraçado porque você está acostumado a ver aquela pessoa sem roupa, já tivemos momentos muito mais íntimos, e a coisa mais difícil foi sair em público. Eu não sabia como lidar, se eu dava a mão para ela, se dava um beijo. Também fiquei com um pouco de medo de alguém ver e reconhecer ela, eu, ou pior: os dois. Resolvi ficar quieto e esperar que ela fizesse algo. No fim, ninguém fez nada, nem um beijo rolou. Ficamos conversando até a hora que ela precisou ir embora", lembrou o rapaz.   

"Tem até clientes que começam a ficar com ciúmes e pensam que mandam na gente" - Joseane

Relacionamento aberto
Depois desses, outros encontros fora dos motéis continuaram a acontecer e, aos poucos, o clima de romance foi surgindo naturalmente. "Não foi forçado, na terceira vez a gente foi ao cinema e ele me deixou em casa depois do filme. Quando eu ia descer do carro, a gente se beijou. Não foi nosso primeiro beijo, mas foi a primeira vez que eu senti que não era mais uma coisa de cliente e garota de programa. O beijo não foi em meio ao sexo, foi uma coisa que me fez sentir carinho. Daí em diante, a coisa evoluiu rápido", apontou Joseane.  

"A gente foi saindo cada vez mais, mas na minha cabeça era muito complicado aceitar a profissão dela. Eu tinha um pouco de ciúmes sim, que homem não teria? Ficava imaginando mil coisas. Até hoje, quando penso que ela está com algum cliente, me dá um pouco de irritação, mas logo passa. Se eu conheci ela assim, na profissão, não podia exigir que ela saísse. Mas eu tentei mesmo assim", justificou Danilo.  

O casal conta que, por algum tempo, a relação ficou conturbada por conta da opção de Joseane em continuar trabalhando no ramo da prostituição. "Eu sou assim. Homem nenhum vai mudar a minha vida, eu me fiz sozinha e não mudo por ninguém. Claro que a gente acaba [cedendo] um pouco aqui e ali, mas a gente brigou bastante por causa disso. Aos poucos, eu acho que ele foi entendendo e ficando mais tranquilo", comentou Joseane.  

"Não gostava quando ia me encontrar com ela e ficava pensando que ela estava com outro homem antes. Às vezes ela chegava na minha casa cheirando cigarro, e eu odiava, porque nenhum de nós dois fumamos, então isso me fazia lembrar que ela estava com outra pessoa. Sempre acabava em discussão, eu implorava para ela sair disso e ela dizia que não era para eu me meter. Se quisesse ficar com ela, teria que ser assim, como conheci. Eu já amava muito essa mulher, ia fazer o que?", questionou o mecânico.  

Questionado sobre os métodos para lidar com os ciúmes em relação a mulher, Danilo conta que isso foi ficando mais fácil com o tempo. "Hoje em dia eu já quase não ligo. Fico bravo quando a profissão atrapalha os nossos planos, mas fora isso, deixo ela trabalhar e não pergunto muito. Ela sabe se virar. Tenho medo de que aconteça alguma coisa com ela durante algum programa, por isso ela sempre tenta me avisar onde vai estar. Fico mais seguro", relatou.  

Sobre a aceitação da família, Danilo conta que não tem contato com os parentes, com exceção de uma irmã, que hoje vive no Tocantins. "Para os amigos, a gente não fala nada. Uma vez comentei com um amigo, sem falar que era eu, o que ele acharia se algum conhecido dele namorasse uma prostituta. O cara começou a falar tanta besteira que depois disso eu nunca mais tentei conversar com mais ninguém. Com certeza algumas pessoas devem desconfiar, mas nunca falam nada. O pessoal tem preconceito, claro, não é uma coisa normal para a maioria das pessoas. Para mim também não era. Se eu já sofri com isso, imagina o que os outros vão pensar? Prefiro ficar na minha. Até acabei me afastando dos meus amigos por causa da situação toda".  

"Preconceito sempre vai ter. O que eu gosto de pensar é que uma mulher como a Joseane muitas vezes vai me dar mais valor do que uma mulher 'de família'. Ela entende o meu lado, como é difícil estar no meu lugar, e por isso se dedica mais ainda ao nosso namoro", completou Danilo.  

Morando juntos há cerca de um ano, o casal já planeja aumentar a família no futuro. "A gente pensa sim em ter um filho daqui a algum tempo. Eu acho até que vou acabar sendo obrigada a deixar de fazer programa. Claro que não faço isso por prazer, não vou mentir, hoje faço apenas pelo dinheiro. Essa é a parte difícil, porque o dinheiro é bom, e a partir do momento que eu tiver uma criança para cuidar, vou precisar ser mais responsável também. Não vai ser apenas o dinheiro, preciso pensar no perigo da profissão. Vou ter que conseguir um emprego normal e me dedicar mais a cuidar do meu filho, vamos ver. Ainda são apenas planos", finalizou.   


Psicologia 
Segundo o psicólogo Guilherme Haddad, a questão sexual como profissão ainda é encarada como um tabu pela sociedade, o que pode afetar o relacionamento. "A pessoa que está em um relacionamento com uma garota de programa, como é o caso do Danilo, precisa estar preparada para as dificuldades que vai encontrar pela frente. Tanto emocionais quanto sociais. A pessoa que se envolve com uma prostituta, em muitos casos, sabe o que lhe espera em termos de exclusividade e disponibilidade dentro de um relacionamento", explicou o profissional.  

Para o especialista, o ciúme é um dos sentimentos mais prováveis de aparecer em uma relação como essa. "É normal que o homem inserido na sociedade sinta ciúmes da parceira. A relação provavelmente vai causar alguma dor para os envolvidos. Muitas mulheres entram na profissão pelo dinheiro, outras por conta de uma questão emocional mal resolvida, não podemos afirmar qual a motivação de cada uma, pois essa é uma questão singular. O que podemos afirmar é que essas mulheres costumam ser rotuladas por conta da exposição pessoal. Isso pode ser extremamente doloroso quando inserido no contexto de um relacionamento", finalizou.  

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