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Após livro, história do 'Fofão da Augusta' vai virar filme

Ex-morador de Araraquara se tornou uma figura folclórica na capital paulista por conta de aparência e presença inusitadas

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Ricardo Corrêa da Silva é conhecido como Fofão da Augusta (Foto: Internet)
No fim do ano de 2010, ao me mudar para São Paulo para fins acadêmicos, acabei optando por morar na região da Rua Augusta. Não demorou muito até que eu tivesse meu primeiro contato com uma figura folclórica da capital paulista: Ricardo Corrêa, também conhecido como Fofão da Augusta. Sequer imaginei, na época, que o mesmo homem, vivendo às margens da sociedade, teria sua vida contada em uma obra cinematográfica quase uma década depois.  

A vida e trajetória de Ricardo foram reveladas recentemente - e com maestria - pelo jornalista Chico Felitti. O repórter paulista mergulhou por quatro meses no universo trágico e violento do morador de rua que, segundo ele, "São Paulo inteira conhece mas que ninguém sabe quem é".  

Apenas anos depois de ter deixado São Paulo - dessa vez por fins profissionais -  é que pude descobrir um pouco mais sobre o personagem que fez parte de meu cotidiano por tanto tempo. A partir da história contada por Felitti, entendi as razões que faziam com que aquele homem gerasse tanto receio, curiosidade e até mesmo medo naqueles que ainda não haviam cruzado seu caminho.  

Segundo Felitti, Ricardo começou a carreira de cabeleireiro no interior paulista, chegando a trabalhar em salões renomados de São Paulo. Aprendeu inglês e francês, sonhando em conhecer Paris. Há 20 anos, perdeu tudo e passou a fazer trabalhos em boates e teatros de rua na Augusta. Longe da família, 'Fofão' chegou a se envolver em brigas e teve, ao menos, uma passagem pela Polícia.

Por conta de diversas cirurgias e aplicações de silicone no rosto, Ricardo aparentava ter uma cabeça desproporcional em relação ao corpo, além de uma face e bochechas extremamente infladas; daí o apelido Fofão. Em um primeiro momento, foram essas as características que me causaram uma espécie choque em nosso primeiro contato: uma entrega de panfletos na Avenida Paulista, próximo à estação de metrô Consolação.   

Pouco tempo depois, já havia me acostumado a encontrar Ricardo andando pela Rua Augusta, Frei Caneca, Bela Cintra, Avenida Paulista e principalmente pelo Minhocão (Elevado Costa e Silva). Algumas vezes, entregava panfletos. Outras, estava apenas parado, raramente acompanhado.  

Não importa quantas vezes eu o encontrasse, a presença de Ricardo sempre me fazia virar a cabeça para observá-lo mais uma vez, como se a cada olhada eu pudesse entender e assimilar um pouco mais aquela figura tão inusitada. Também me recordo de vê-lo muitas vezes pela varanda de meu apartamento, descendo a rua Augusta em direção à Praça Roosevelt.  

Minha curiosidade a respeito do Fofão era compartilhada por diversas pessoas, conhecidos e desconhecidos. Bastava que ele passasse pela rua para que os pedestres e motoristas voltassem os olhares em sua direção, fazendo comentários quando na presença de outras pessoas. Algumas vezes, na maioria embriagados, os clientes dos bares na Augusta o chamavam para conversar, o que raramente se concretizou em minha presença.  

Em 27 de outubro, a reportagem publicada por Chico Felitti trouxe à tona detalhes pouco conhecidos sobre a vida de Ricardo, como por exemplo o fato de que foi morador de Araraquara. Além disso, explicações sobre as aplicações de silicone no rosto e plásticas no nariz me ajudaram a entender melhor e também a olhar com outros olhos aquele andarilho com quem cruzava diariamente durante meu período estudantil.  

Pouco tempo depois, veio a notícia de que Ricardo, aos 60 anos, havia sofrido uma parada cardíaca e falecido em uma clínica psiquiátrica. Sua história se tornaria um livro, também escrito por Felitti, a ser lançado em fevereiro.  

Nesta quarta-feira (9) recebo a notícia de que a vida do 'Fofão da Augusta' chegaria também aos cinemas. Com produção da RT Features, responsável pelos filmes Frances Ha e Call Me By Your Name, o filme ainda não tem previsão de lançamento.  

Baseado na curiosidade que o Fofão da Augusta despertava em todos que cruzavam seu caminho e na brilhante narração de Chico Felitti, arrisco dizer que o filme, bem como o livro, será um sucesso. Infelizmente, Ricardo, que faleceu no fim de 2018, nunca vai conhecer a proporção tomada pela história e a multidão tocada por sua trajetória. Ricardo Corrêa morreu praticamente anônimo, mas renasceu a partir de Felitti e, aos poucos, ganha a fama merecida há muito tempo.  

Após livro, história do 'Fofão da Augusta' vai ganhar filme


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