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Cotidiano

Escritor fala sobre descobrimento do Brasil e cenário da época

Data celebrada nesta quarta-feira (22) marca a chegada dos portugueses pela expedição de Pedro Álvares Cabral em 1500

| ACidadeON/São Carlos

Escritor fala sobre descobrimento do Brasil e cenário da época. Foto: Arquivo Pessoal
Nesta quarta-feira (22) é celebrado o Dia do Descobrimento do Brasil, quando os portugueses chegaram pela expedição de Pedro Álvares Cabral em 1500. A data não é considerada feriado nacional, mas traz consigo uma série de reflexões.  

A CBN São Carlos entrevistou o jornalista científico Reinaldo José Lopes, autor do livro 1499 - O Brasil antes de Cabral. Confira o bate-papo:  

O que você pode compartilhar sobre o seu livro e como era o cenário da época?
- A primeira que é bem importante ter em mente é que a gente não pode falar em uma sociedade indígena, eram centenas senão milhares diferentes, é muita diversidade cultural, linguística e outros aspectos. As pessoas pensam em um grande vazio, é só nosso, aquela imagem popular. Na verdade, talvez tivesse de 15 a 20 milhões de pessoas morando no Brasil nesta época, então é uma população que o Brasil só voltou a ter no final do império, quase na república. Como em muitos lugares em especial na Amazônia, ao contrário do que é hoje, tudo estava concentrado na Amazônia, fortificações, estradas grandes, redes de comércio, que talvez nos lembrassem, de certa maneira, mais a Grécia antiga ou Europa medieval do que um cenário da Idade da Pedra, embora não tivessem domínio dos metais. Como complexidade social era uma coisa bem diferente das pequenas tribos, povos isolados como costumamos imaginar na Amazônia de hoje. São três aspectos principais do cenário nesta época.  

Como você mencionou, na época haviam varias sociedades estruturadas. O que aconteceu para que essa população se reduzisse tanto?
- O fator mais importante disparado é o que a gente esta vivendo hoje, as doenças infecciosas. Assim como hoje, ninguém do mundo tem defesas naturais no organismo contra o coronavírus, e os indígenas naquela época não tinham defesa nenhuma em relação as doenças que estavam chegando da Europa e de escravos africanos. Basicamente porque vieram de animais, no caso da Europa, e como eles aqui não tinham animais domesticados, não desenvolveram defesas semelhantes para este tipo de doença. Em primeiro lugar, certamente foram essas doenças infecciosas que mataram talvez 90% dessa população.  

E lógico, conforme a colonização vai se estruturando, você tem a escravidão indígena em grande escala, bandeirantes estão famosos no Estado de São Paulo, considerados grandes criadores das fronteiras do Brasil.  

Ainda temos uma visão muito europeia da história?
- Temos, é inevitável. Por um lado faz sentido porque a gente fala português, o Brasil é um resultado do império colonial português, se não tivesse esse império, o Brasil como território e como nação não teria se formado, e a gente pega toda a herança de outros aspectos da civilização ocidental. Por outro lado, é logico que a gente deveria conhecer muito mais essa riqueza que a gente tem do mundo indígena, da herança, seja até biológica porque muita gente no Brasil carrega o DNA indígena, as línguas desses povos são uma riqueza tremenda e a própria agricultura que temos até hoje, a subsistência da gente não seria a mesma sem a herança indígena, seja com coisas como milho, mandioca e até o próprio cacau, uma série de outras culturas que são importantes para o mundo inteiro e só estão em nossas mãos graças ao agronômico primitivo.  

O que a data 22 de abril significa?
- É complicado você definir de uma maneira simples, mas acho que temos que reconhecer que não foi uma descoberta, foi uma invasão, uma conquista feita por meios muito violentos que marcam a nossa história ate hoje. A herança da escravidão africana é uma, mas ela começa com essa visão indígena no Brasil, então isso marca negativamente a história do Brasil até hoje. E reconhecer que a gente tem que fazer o melhor para que esse lado da violência não continue, por exemplo, reconhecendo o direito dos povos indígenas que ainda estão aqui e ainda tem suas línguas e tem direito ao território que sempre foi deles. É importante termos isso em mente.  

Como você recontaria a história do Brasil?
- Acho que o que falta pra gente recontar a história do Brasil é justamente uma visão mais múltipla das coisas. É normal a gente ter uma visão que tem predomínio europeu ocidental, porque foi a visão que acabou forjando o Brasil como ele é hoje, mas olhar pela perspectiva dos indígenas e dos africanos, olhar de camadas da população que quase sempre não tiveram na nossa história, em especial as camadas mais populares, mais pobres, e entender que o Brasil tem que ser contado por múltiplos ângulos e não apenas por uma visão que pode ser impositiva e que por muito tempo foi violenta e sanguinolenta na nossa história. Seria um caminho legal de seguir.


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