ACidadeON São Carlos

SÃO CARLOS
mín. 20ºC máx. 36ºC

Cotidiano

Tecnologia de luzes criada em São Carlos ilumina o caminho para a cura do câncer

Pesquisa alcançou índice de cura de 95% em mais de oito mil casos atendidos. Trabalho fez com que a cidade passasse a ser considerada o maior parque tecnológico de ótica da América Latina

| ACidadeON/São Carlos

ESPECIAL - Inovar para crescer! (Por Rodrigo Peronti)
Esta reportagem tem a garantia de apuração ACidade ON. Diga não às fake news!

Desenvolvida em São Carlos, uma técnica que utiliza diferentes tipos de luz no tratamento de variadas doenças alcançou um índice de cura de 95% entre mais de oito mil casos atendidos. Além disso, segundo o pesquisador responsável pela tecnologia, Vanderlei Bagnato, a técnica é capaz de curar alguns tipos de câncer e já está presente em mais de 150 centros de tratamento em todo o país. O desenvolvimento da pesquisa iniciada por Bagnato fez com que São Carlos se tornasse o maior parque tecnológico de ótica da América Latina.  

Reconhecida no território nacional como a Capital Nacional da Tecnologia, São Carlos foi considerada em 2015 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia a 3ª cidade mais inovadora do país. Esse é apenas um dos vários títulos que fazem de São Carlos um polo de tecnologia e inovação. Boa parte do prestígio na área se deve aos pesquisadores e os trabalhos desenvolvidos no município.  

Nascido e criado em São Carlos, Bagnato concluiu simultaneamente um bacharelado em Física pela Universidade de São Paulo (USP) e uma graduação em Engenharia de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), ambos em 1981. Posteriormente, Bagnato ingressou em um doutorado em Física no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Atualmente, o pesquisador é professor titular da USP e diretor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC).  

"Eu sou um físico básico, mas procuro aplicações da ciência que a gente produz. Então, hoje coordeno um centro de pesquisa em ótica e fotônica. Temos mais de 120 pessoas trabalhando só aqui no meu centro, mas somando todos os colaboradores, encontramos um número da ordem de 200 pessoas só nessa linha", relatou o pesquisador.   

Tecnologia de luzes criada em São Carlos ilumina o caminho para a cura do câncer

O Centro ao qual Bagnato se refere é o Centro de Pesquisa em Ótica e Fotônica, dentro do qual são produzidos os trabalhos mais relevantes e inovadores na área. Através da aplicação dos princípios físicos de ótica, o espaço desenvolve métodos de diagnóstico e tratamento de diversas enfermidades.  

Segundo o pesquisador, o principal objetivo do seu grupo de trabalho é entender melhor a natureza e, principalmente, a chamada natureza quântica das coisas por meio de pesquisas básicas com átomos e moléculas.   

Dentro do Centro, os trabalhos envolvendo o entendimento dessa natureza concentram-se no Programa de Biofotônica, onde, por meio da aplicação de diferentes tipos de luz é possível estudar e entender as ciências da vida.  

"Quando você usa a luz dessa forma, ou você quer entender como a vida decorre, ou você quer interferir nela. Assim, nós ensinamos máquinas e detectores a fazerem isso, só que a nível molecular. Assim, torna-se possível, por exemplo, iluminar uma ferida e afirmar: não, isso aqui é um câncer, ou: não é uma ferida. É possível iluminar a sua face e falar: aqui vai aparecer uma afecção no futuro, tudo isso baseado nas alterações do tecido", explica.   

Vanderlei Salvador Bagnato coordena grupo que desenvolve as luzes que curam (Foto: ACidade ON São Carlos)

Através de equipamentos à base de LED ou de laser, o pesquisador já desenvolveu tanto técnicas de diagnóstico quanto técnicas terapêuticas com luz. Bagnato ressalta que uma das condições de existência está baseada na própria incidência de luz sobre as coisas.  

"Tudo o que a gente enxerga, tudo que a gente é capaz de detectar são coisas que interagem com a luz de uma maneira ou de outra. Quando você enxerga um objeto, você está vendo a luz que vem dele, aí você identifica as cores, as formas, as posições e assim por diante".  

No entanto, os equipamentos desenvolvidos para a área da saúde vão além da simples determinação de forma e situação das coisas, mas são capazes de interagir diretamente com elas e mudar a forma como existem. Através da luz é possível induzir reações químicas capazes de curar feridas, matar células cancerígenas, reabilitar nervos, ativar o metabolismo e diversas outras aplicações.    

Tecnologia de luzes criada em São Carlos ilumina o caminho para a cura do câncer

Na área de estética, tratamentos à base de luz são realidade. Chamados de fotoestética, o tratamento pode ser direcionado para muitos fins, como o de produzir colágeno em peles flácidas, remover manchas pelo corpo, corrigir imperfeições e até mesmo auxiliar no emagrecimento.  

Entretanto, a principal aplicação dessa tecnologia está no tratamento de doenças graves, como é o caso do câncer. No tratamento de câncer de pele são mais de 150 centros operando no Brasil com as técnicas desenvolvidas em São Carlos, somando mais de oito mil pacientes tratados. Desses, cerca de 95% foram curados com os métodos menos invasivos e agressivos dos que os tradicionais.  

"Funciona com foto-reação: uma molécula reagindo com a luz. Uma molécula de oxigênio produzindo radicais livres. Então você destrói células de dentro para fora. Para se ter uma ideia da importância, já temos 650 mil novos casos de câncer no país. Nos próximos 15 anos, será a doença que mais matará brasileiros e, em algumas situações, já está matando mais do que problemas no coração", diz Bagnato.  

Futuro
A respeito do futuro dessa tecnologia, o pesquisador não tem dúvidas de que já se trata de uma realidade. "A gente utiliza técnicas óticas para controle microbiológico, para se ter uma ideia, e aí é onde está o grande boom, porque eu tenho as superbactérias resistentes aos antibióticos, então eu posso tratar uma infecção de garganta in loco [no local], ao invés de tratar sistemicamente", conta.  

O pesquisador completa dizendo que "hoje nós estamos tratando muitas infecções dessa forma. Na área terapêutica nós tratamos artrose e artrite também com a combinação de ultrassom. Hoje nós estamos, inclusive, trabalhando com o meio ambiente, na prevenção da contaminação das carnes nos açougues, descontaminação de regiões de lagos, utilizando técnicas fotônicas e várias outras", conclui.  

Há também pesquisas que caminham a passos largos na descontaminação de pulmões. De acordo com Vanderlei Bagnato, no futuro será possível tratar quadros de pneumonias agudas por meio da luz, com uma taxa de sucesso maior se relacionada aos tratamentos convencionais.   

Tecnologia de luzes criada em São Carlos ilumina o caminho para a cura do câncer

Capital da Inovação
Os equipamentos desenvolvidos dentro do Centro de Ótica e Fotônica não fazem parte daquele grupo de pesquisas que não saem das bibliotecas universitárias. Eles são parte do que acontece diretamente na vida da população. Isso se deve ao fato de haver uma maior interação entre as empresas, sociedade e as universidades.  

Vanderlei começou a vida acadêmica em uma época onde essa interação era uma ideia vaga e bastante distanciada da realidade. Apoiador convicto da aplicação das tecnologias por meio das parcerias, o pesquisador relata que o cenário atual é bastante diferente e favorável. "A parede entre sociedade e a universidade é totalmente permeável. Nossos alunos são formados hoje, primeiro para alimentar a fonte de recursos humanos que nosso País necessita, que é de formar cientistas, mentes pensantes, mas também para formar profissionais bem competentes para atuar em qualquer área de conhecimento", afirma.  

Segundo ele, o fator das pesquisas estarem em São Carlos também representa um forte diferencial. "São Carlos hoje é o maior parque tecnológico de ótica da América Latina e isso se deve a ações como a do meu grupo de pesquisa". São Carlos é, sem dúvida, a pioneira no uso da tecnologia para avanços sociais e transformação de conhecimento em empresas. Aqui nasceu a primeira incubadora de empresa do país", relatou.  

Para Bagnato, o pioneirismo e a ideologia aplicadas na cidade, de uma forma geral, estão à frente de seu tempo. "Coisas que nós estamos fazendo hoje têm até obstáculos jurídicos que não existirão daqui a 10 anos. Assim como formar empresa dentro da universidade era proibido no passado e hoje é incentivado".  

Dentro dos equipamentos presentes no mercado para o tratamento e diagnóstico das doenças por meio da luz, já foram lançados mais de 80 produtos no mercado. A expectativa é de que o número cresça ainda mais nos próximos anos, bem como a gama de aplicações.  

Tecnologia de luzes criada em São Carlos ilumina o caminho para a cura do câncer

Aplicações em Saúde
Desde 2015, a Santa Casa de São Carlos possui a Unidade de Terapia Fotodinâmica, onde são oferecidos tratamentos gratuitos com a utilização das tecnologias produzidas pelo grupo de pesquisa coordenado por Bagnato. As principais enfermidades tratadas na unidade são a fibromialgia e úlceras cutâneas. O sistema também atua no tratamento da mucosite, voltado para pacientes que sofrem de efeitos secundários relativos a quimioterapia e radioterapia.  

A fibromialgia, aliada a alterações psicológicas do indivíduo, é considerada uma doença psicossomática, de difícil diagnóstico e de tratamento ainda mais complicado. Além disso, não há cura para o paciente que sofre de dores crônicas e generalizadas em uma ou mais partes do corpo.  

A paciente Lucinéia dos Santos relata, em meio a terceira sessão, que o único tratamento que ajudou no controle das dores foi o que utiliza as luzes. "Eu não conseguia nem mexer o braço, já fiz tudo o que se pode imaginar. Já tomei remédio, já fiz acupuntura, já fiz fisioterapia, tudo mesmo, mas nada resolveu. Estou na terceira sessão e toda vez saio daqui muito bem. Nada conseguiu me dar um bem-estar parecido", ressaltou.  

Ao todo, o tratamento de Lucinéia contará com dez sessões. O tempo que ela para se locomover até a unidade é de menos de dez minutos. "Três minutinhos em cada mão é o suficiente para o tratamento da fibromialgia. O sofrimento do paciente é muito grande, por mais que não exista uma alteração física visível para o diagnóstico, o sofrimento é muito grande. Imagine-se com uma dor incontrolável que percorre todo o corpo e te paralisa, o dia todo, em alguns casos 24 horas por dia, é o que sentem esses pacientes", explicou o fisioterapeuta e pesquisador Daniel Marques Franco.  

Outro paciente da unidade, Mário Couvre, faz tratamento para úlceras nos membros inferiores há seis meses. Assim como o relatado por Lucinéia, o tratamento se mostrou mais eficiente do que qualquer outro. "Trabalho de pé o dia todo em um sacolão, antes eu nem andava. Isso aqui foi uma benção. Não preciso tomar remédio nem nada, só venho aqui e melhorou muito, você nem faz ideia", relatou Couvre.  



Veja também