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Araucárias de São Carlos podem ter sido trazidas por indígenas, sugere estudo

Além disso, as laranjeiras dos chamados Campos de Araraquara também podem ter surgido devido à agricultura dos índios

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Araucárias de São Carlos podem ter sido trazidas por indígenas, sugere estudo
Antes mesmo do descobrimento do Brasil, a região onde hoje se encontra o País já estava tomada por diferentes tribos indígenas. Em São Carlos e Araraquara, a história não foi diferente: ao decidir se instalar no local, os colonizadores encontraram diversas etnias indígenas que já viviam nas terras. Durante o período seguinte, os índios acabariam sendo "expulsos" da região pelos colonizadores, deixando muitas vezes de receber menção sobre seu papel na formação daquela área.  

Entre as curiosidades sobre a presença dos indígenas nos antigos Campos de Araraquara está o fato de que foram eles, em parte, os responsáveis por trazer a São Carlos e Araraquara as plantas que se tornariam os símbolos dos municípios muito tempo depois: as araucárias e as laranjeiras. Pelo menos é o que sugere um estudo realizado pelo sociólogo Marcel Mano, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).   

Caminhos no interior paulista
O processo de exploração das chamadas "fronteiras do desconhecido" foi promovido pelos paulistas como forma de ocupar os territórios inexplorados e abrir novos caminhos por meio dos bandeirantes ou armadores.  

O consagrado historiador Sérgio Buarque de Holanda afirmava que os caminhos, e não a posse de terra, eram importantes. Por conta disso, ao longo desses caminhos, antes de fixarem povoações nos locais os paulistas deixavam ali apenas seus rastros.  

Em um desses caminhos havia uma grande área que ficou conhecida como Campos de Araraquara (ou Aracoara, palavra indígena que significa morada do sol), uma macroregião situada entre os rios Tietê, Mogi-Guaçu, Paraná e Grande no atual estado de São Paulo.  

Os sítios ceramistas na região revelam registros de diferentes tradições culturais. De acordo com Mano, o local foi habitado por indígenas de variadas etnias, entre eles os Guayaná, os Itararé, os Aratu-Sapucaí e os Tupi Guarani.  

A partir do século XVIII, muitas das incursões ao interior passaram a assumir um caráter de organização militar legalmente constituída. As entradas aos sertões passaram a ser tarefa de tropas militares, que assumem a função de conquista das populações indígenas nas Capitanias de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Foram essas tropas as responsáveis pela abertura de caminhos e destruição de povos indígenas e quilombos. Em seguida, foi promovida a abertura de povoamentos fixos naquela região.  

A área acabaria sendo dividida e, em seguida, muitas das delimitações seriam elevadas à categoria de município, entre eles São Carlos e Araraquara.   

Araucárias de São Carlos podem ter sido trazidas por indígenas, sugere estudo


Biologia
Segundo o autor, as explicações históricas sobre a formação de uma determinada área ou região devem inserir em seus discursos os povos indígenas e seus contextos sócio-culturais. Mano também parte da constatação da ausência ou irrelevância dada ao tema pelas histórias produzidas para os Campos de Araraquara.  

Em 1800, quando Carlos Bartholomeu de Arruda sai de Piracicaba para comprar a sesmaria que iria dar origem à cidade de São Carlos, ele encontrou no local uma extensa plantação de pinheiros que o levaram a registrar suas posses como sesmaria do Pinhal, nome mantido na origem da cidade conhecida por São Carlos do Pinhal, e emprestado pelo seu primeiro grande chefe político - o Conde do Pinhal.  

O sociólogo Marcel Mano afirma que ainda existe uma discussão científica no meio de botânicos e fitogeógrafos para saber se as araucárias existentes no interior do atual estado de São Paulo seriam de ocorrência natural ou plantadas pelos homens.  

Para tentar resolver o problema em relação às araucárias nos Campos de Araraquara, o acadêmico faz algumas considerações de natureza botânica e geográfica. "As florestas de araucária se prolongam, sobretudo, no sul do país onde formam verdadeiras florestas em meio aos campos abertos ocupados no passado por grupos caçadores e coletores ancestrais dos atuais Kaingâng e Xokléng. Ainda hoje, os Xokléng são nômades que coletam os pinhões da araucária, dos quais conhecem inúmeras formas de consumo e conservação, e caçam a fauna associada aos bosques de pinheiros", explicou. 
 
"Também, ainda hoje, os Kaingang realizam uma de suas principais festas, Kiki - reza para os mortos - em sua relação com as araucárias. Essa festa Kaingang leva o nome da bebida distribuída na ocasião kiki - e, para prepará-la, os índios cavam a parte interna de um tronco de pinheiro araucária, que servirá de recipiente para a bebida fermentar. Além disso, a época da festa, realizada uma vez por ano, coincide com o amadurecimento dos pinhões que serão consumidos em grandes quantidades na festa e após a mesma", conclui.  

De acordo com as características e distribuição espacial das araucárias, o pesquisador afirma que fica evidente que as florestas de araucárias são um tipo de vegetação originalmente exclusivo do Planalto Meridional Brasileiro, embora ocorra de forma também natural em áreas isoladas e nas partes mais elevadas da Serra do Mar e Mantiqueira.  

Considerando essa distribuição natural da espécie em território brasileiro, existem duas características que indicariam a intervenção humana no plantio de araucárias nos Campos de Araraquara. "Conforme as condições mencionadas, a ocorrência do Planalto das araucárias cessam próximo ao paralelo 24. As convenções cartográficas mostram que essa linha imaginária que esquadrinha o globo terrestre passa no Brasil ao sul do rio Tietê, na altura da cidade de São Vicente, abaixo do Trópico de Capricórnio. Por essa situação, os Campos de Araraquara estariam fora do Planalto das araucárias porque ele se inicia ao norte do Tietê muito acima do paralelo 24. Além disso, a altitude média das cuestas basálticas, pontos mais altos dos Campos de Araraquara, é de 600 metros, e a ocorrência natural dessas árvores está relacionada a altitudes superiores a 1000 metros. Nos Campos de Araraquara, a ocorrência de araucárias está geralmente associada a altitudes não muito altas", explicou Mano.  

Em outros locais onde a araucária é encontrada com frequência e abundância, como em Dois Córregos, Itirapina e parte do trecho da Rodovia Washington Luiz entre Rio Claro e São Carlos as mesmas condições foram constatadas. Por estas razões, ainda que algumas das araucárias possam ser naturais na região a intervenção humana não pode ser descartada.   

Araucárias de São Carlos podem ter sido trazidas por indígenas, sugere estudo


Laranjas
Ao comentar alguns achados arqueológicos ceramistas encontrados no final do século XIX próximo à estação Conde do Pinhal da via férrea Rio Claro São Carlos, Cincinato Braga escreveu que "naquelle logar foram encontradas muitas laranjeiras que alli (os índios) haviam plantado, e com cujos fructos fabricavam beberragens fermentadas e refrigerantes" (sic).  

Em nota de pé, o mesmo autor, no entanto, levanta a hipótese de que as 159 laranjeiras ali plantadas podem ter sido adquiridas por contato direto ou indireto com os portugueses, dado o fato de uma das espécies de laranjeira por ele mencionada (a citrus aurantium) ter sua origem na China. No entanto, segundo Mano, o fato não invalida a prática indígena de plantio de árvores frutíferas.  

"Há espécies desse primeiro gênero de plantas como a citrus sinensis que também tem sua origem na China, mas outras como a cordia ecalycuta e a guatteria citriodora, cujos frutos são conhecidos popularmente como laranja-do-mato, laranja-do-cerrado, laranjinha etc., são nativas do Brasil", ressaltou.   

Araucárias de São Carlos podem ter sido trazidas por indígenas, sugere estudo


Especialista
Segundo o biólogo Renato Prado, a hipótese levantada por Mano é bastante aceitável. "É fato que muitas tribos indígenas eram grupos nômades. Como já foi demonstrado e estudado extensivamente, a região de São Carlos e Araraquara servia de passagem para os índios e os colonizadores, então é muito provável que algumas dessas plantas tenham sido trazidas por esses grupos", disse.  

"Os índios também têm o costume de preservar os ecossistemas ao seu redor e possuem conhecimentos agrícolas avançados. As tribos que estavam instaladas aqui podem, sim, ter recebido sementes de visitantes, fossem eles indígenas ou portugueses. O fato é que quando a região começou a ser povoada, muitas dessas espécies como as araucárias e as laranjeiras já estavam aqui. É provável que, durante muitos anos de migração, os indígenas tenham espalhado essas sementes pelo Brasil e, consequentemente, pelo interior de São Paulo", completou.  

"No cerrado em específico, que é a nossa região, os índios costumavam realizar queimadas durante a seca para espantar alguns animais e caçadores. Essa mesma prática é utilizada até hoje por alguns criadores de gado. A fumaça ajudava a estimular as plantas e maturar frutos, como a laranja, por exemplo. A diferença era que os índios tinham muita habilidade em fazer isso e não ameaçavam o ecossistema, pois conseguiam controlar muito bem o fogo", relatou.  

Por fim, o especialista comenta que o modelo indígena de agricultura costumava reproduzir e diversificar as espécies de plantas, diferente do que acontece na agricultura moderna, onde o fator determinante é o interesse econômico. "Os índios sabiam o que estavam fazendo e mantinham um contato muito sensível com a natureza. Por isso, em minha opinião, foram eles mesmos quem trouxeram essas espécies, que não eram oriundas da nossa região, para cá", finalizou.  

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