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Polícia Civil perde 16% do efetivo de São Carlos em 9 anos

Redução no quadro de policiais é reflexo de políticas estaduais, afirma especialistas. Crimes de maior complexidade devem ser afetados.

| ACidadeON/São Carlos

O efetivo da Polícia Civil em São Carlos diminuiu aproximadamente 16% entre 2011 e 2019. Há nove anos, a instituição contava com 170 policiais no município, mas fechou 2019 com o saldo de 144 homens e mulheres nas oito carreiras policiais. Os dados foram obtidos pelo ACidade ON através da Lei de Acesso à Informação (LAI) junto à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP/SP). 

A diminuição revela um dado preocupante quando comparado ao crescimento populacional, já que a população da cidade aumentou mais de 13% desde 2010, chegando a 251 mil habitantes.  

Fonte: SSP/SP


De acordo com a SSP, até novembro do ano passado foram instaurados 1.964 inquéritos policiais na cidade. A grosso modo seria como se cada um dos 16 delegados da Seccional de São Carlos precisasse cuidar de 122 casos durante o ano. 

Entre as carreiras da Polícia Civil, a maior defasagem está no número de escrivães, investigadores e delegados, são 19 profissionais a menos nestas áreas. O número de carcereiros, que era de 30 em 2011, foi a zero em 2019. Na contramão, a quantidade de agentes foi a única que aumentou, saltou de 11 para 34. 

O último levantamento realizado pela SSP mostra que, até novembro de 2019, a cidade registrou 3745 crimes entre roubos, furtos e homicídios dolosos. Entretanto, esse número desconsidera ocorrências como tráfico de entorpecentes, lesão corporal e várias outras. 

Sinpol vê investigações comprometidas
 

Foto: divulgação/PC
 

O presidente do Sindicado dos Policiais Civis de Ribeirão Preto (Sinpol), Eumauri Lúcio da Mata, afirma que as investigações podem ser comprometidas pela falta de policiais em todo o Estado e, claro, também em São Carlos. 

"Hoje, arquiva-se inquéritos por falta de gente. Você vê a quantidade de pessoas que aumentou em São Carlos e a quantidade de policiais, que diminuiu. Não se investiga mais nada, isso não é por má vontade, mas sim por falta de gente", reforça. 

O presidente ainda fala que o número de policiais tem caído gradativamente, sem que haja reposição. "Após algumas separações de cargos, falava-se na existência de 29 a 30 mil policiais civis. Hoje não deve ter nem 18 mil". 

Como exemplo, Eumauri diz que aprovados para o cargo de escrivão no concurso de 2017 estão hoje passando pela Academia de Polícia. Além do processo para admissão ser demorado, o presidente do Sinpol destaca que o número não é suficiente. "A quantidade de pessoas fazendo academia hoje é como uma gota no oceano", comparou. 

Descompasso em relação à PM
  

Foto: divulgação


Giane Silvestre, socióloga e pesquisadora que compõe o Grupo de Pesquisa sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC) da UFSCar, além do NEV-USP, constatou em um estudo que o contingente da Polícia Civil anda em descompasso se relacionado ao efetivo da Polícia Militar de São Paulo. 

"De fato existe uma defasagem, tanto de recursos humanos quanto de recursos materiais. Isso vem desde a segunda metade dos anos 90, especialmente, no governo Orestes Quércia, quando teve inauguração de delegacias em várias cidades do Estado, mas a contratação de mão de obra, até mesmo de recursos materiais, não aconteceu na mesma proporção", explicou. 

A pesquisadora acrescenta que nos governos sucessores o foco da política de segurança pública de São Paulo se tornou a Polícia Militar. Essa diferença foi constatada em uma análise das Leis de Diretrizes Orçamentárias. "Proporcionalmente, a Polícia Civil, nos últimos 10 anos, vem recebendo menos investimentos do que a Polícia Militar. Eu calculei isso de forma percentual, portanto, proporcional", disse Giane.  

Não foi possível contabilizar os dados da Polícia Militar em São Carlos. Procurada pelo ACidade, à SSP alegou que a exposição de tal número poderia trazer riscos à segurança pública. 

Ações ostensivas x investigações   

Plantão Policial de São Carlos. Foto: ACidade ON

Após o período de criação massiva de novas delegacias na década de 1990, intensificado no interior do Estado, ficou evidente o início do processo de pouca contratação e baixo investimento. Fato que acabou transformando a política de ampliação em uma ação de fachada e um foco maior em ações ostensivas com a Polícia Militar. 

Como os governos seguintes focaram nestas ações, ou seja, na Polícia Militar, tem-se então o aumento na repressão de crimes "vigiados", entre eles aqueles contra o patrimônio, furtos, roubos e pequenas ocorrências de tráfico de drogas. 

Não é à toa que, segundo a pesquisadora do GEVAC, o sistema prisional do Estado está composto por 75% de pessoas que cometeram crimes relacionados ao patrimônio e ao tráfico de drogas. "No Brasil, são quase 55 mil mortes por ano. Entretanto, temos poucas pessoas respondendo por esses crimes. Prendemos muitas pessoas, mas não predemos aquelas que cometem crimes contra a vida", finaliza. 

A pesquisadora Giane Silvestre é categórica ao afirmar que "a quantidade de drogas em prisões por tráfico é muito pequena. A PM atua nas ruas, então você tem pequenos traficantes, às vezes usuários, sendo presos por esse trabalho de vigilância. Porém, para desarticular essas grandes redes é preciso um trabalho investigativo, de inteligência, demanda tempo, pessoas, recursos e cabe à Polícia Civil fazer", diz a especialista.


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