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Garotas de programa relatam sumiço de clientes na pandemia

Profissionais do sexo redobraram cuidados nos atendimentos. Álcool em gel e máscaras agora fazem parte do kit do programa

| ACidadeON/São Carlos

Foto ilustrativa
 

"Não cogitei parar. Não consigo, é um tédio. Odeio ficar em casa, ainda mais à noite. Antigamente era mais fácil, agora com a quarentena do coronavírus está difícil." Este é o relato da garota de programa Gabi*, 27 anos, nome fictício da mulher que há três anos enfrenta os riscos e o julgamento da sociedade para "pagar as contas" como ela mesma diz. 

Em uma das avenidas de São Carlos, na Vila Lutfalla, é comum perceber durante as noites profissionais do sexo nas esquinas, mesmo em época de coronavírus, quando o risco de contágio está alto. "Eu tenho medo sim, mas nem todo mundo está aqui por opção ou porque gosta. A maioria está por necessidade. Tem gente que tem filho, tem quem sustenta a casa com o que ganha aqui, é a vida. Tem que tentar a sorte e pedir proteção", contou Becker*, jovem de 22 anos que está há poucos meses na prostituição.  

Entretanto, as garotas estão na rua, já os clientes, não. Com a medida de quarentena em todos os lugares e a recomendação pra ficarem em casa, as prostitutas também sentiram os efeitos da pandemia no sentido financeiro. "Nossa, diminuiu demais, muito. Antes se você passasse aqui por volta das 21h não encontraria nenhuma menina na avenida, era um atrás do outro. Por noite eu atendia até uns sete, hoje nem dois, talvez três", revelou Becker.  

Às vezes a necessidade sobrepõe o medo, caso de Larissa*, 22 anos, que revelou ter receio da doença, mas continua na rua. "Não sei dizer se vale a pena. Estou porque preciso, senão pode ter certeza que não estaria aqui, tenho até medo de vir pra rua".  

De acordo com outra garota que não quis se identificar a queda no número de clientes foi de 50%. "Antes eu recebia dez por noite, hoje nem cinco", revelou a mulher.  

Para não deixar as ruas, as garotas adotaram uma série de medidas preventivas para diminuir o risco de contágio pela Covid-19. Máscaras, álcool em gel e até luvas agora fazem parte do kit que elas usam em cada programa. "Eu tenho aqui álcool na bolsa e também estou com máscara. Em alguns casos uso até luva. Além disso, quando vou atender o cliente peço pra ele tomar banho, passar álcool em gel na mão", revelou Larissa.  

Gabi diz que é ela quem se adianta na hora da prevenção. "Eu sou a primeira a tomar banho, depois já peço pra pessoa também, nunca se sabe de onde o cliente veio", contou.  

Becker, além dos cuidados iguais aos das outras garotas, também evita certos tipos de contatos. "É sempre o mais básico que dá pra gente se virar aqui na rua, mas beijo nem pensar. Também não faço nada sem preservativo, se possível atendo até com a máscara". 

Sexo x Covid-19 

De acordo com o professor do curso de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Bernardino Alves Souto, não há nenhum estudo que comprove a transmissão da Covid-19 através da relação sexual. "Não é uma doença de transmissão sexual como, por exemplo, Aids, Sífilis e Gonorréia. Se for, ainda vamos descobrir".  

Por outro lado, existem outros perigos de transmissão do corovírus através da relação sexual. "O problema é a proximidade física das pessoas, qualquer proximidade é fator de risco para a transmissão. O beijo, por exemplo", afirmou.  

Para o professor a dica é ficar atento aos sintomas do vírus. "Qualquer pessoa que estiver com sintoma de gripe ou teve contato com pessoas que tiveram estes sintomas, tem que ficar de quarentena de 14 dias e quem está de quarentena não pode ter relação sexual porque estará em isolamento social", concluiu.

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