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São CarlosCotidianoColuna Subtexto: O que Stranger Things tem a ver com Camões?

Coluna Subtexto: O que Stranger Things tem a ver com Camões?

Se pensarmos no ser humano, por exemplo, tudo aquilo que, de alguma maneira, comunica, é linguagem

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Quem já assistiu a alguma das séries seguintes, levante a mão? Foi essa pergunta que fiz aos meus alunos da primeira série do Ensino Médio? Em seguida, apresentei os seguintes nomes: Coisas Esquisitas, os Mortos que andam e os Últimos de nós. Ninguém tinha assistido. A turma não poderia estar mais errada.

Há uma diferença entre o conceito de linguagem e de língua. Linguagem é a capacidade de comunicação que qualquer ser vivo possui. Se pensarmos no ser humano, por exemplo, tudo aquilo que, de alguma maneira, comunica, é linguagem. A linguagem corporal da dança, os gestos, sejam eles deliberados ou não e tantas outras formas de comunicação. Por língua entende-se um código específico de comunicação que pode ou não ser oralizado. A língua portuguesa, por exemplo, possui uma estrutura fonética e sintática, a língua espanhola outra e assim por diante. Da mesma forma a Libra (Língua Brasileira de Sinais) possui gestos específicos que indicam palavras, frases e ideias.

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Com a globalização cultural, potencializada pela internet e, mais recentemente pelas redes sociais, as línguas estão se aproximando e os estrangeirismos, antes distantes, estão se tornando nossos vizinhos e, por vezes, estão habitando a nossa própria casa.

Quando eu era criança, morava na Vila Prado e não tínhamos dinheiro para comprar um aparelho de TV. A primeira televisão que chegou em casa era uma versão antiga que transmitia em preto e branco e eu já era adolescente. Pegava a Globo, a TVS (que depois virou SBT) e a Record. Falo do final da década de 80. Antes, quando minha mãe deixava, aos finais de tarde, eu descia à casa de meus padrinhos, queridos Genny e Laerte, para assistir a um pouquinho de TV. Eram momentos especiais de encantamento.

A Rede Globo exibia diariamente às 17h a Sessão Aventura, assim, cada dia havia uma série com episódios semanais de pequenas películas de ação que me encantavam. Me lembro claramente de algumas: O Incrível Hulk – aquele com o grande Lou Ferrigno1, as ficções-científicas, A Mulher Biônica e o Homem de Seis milhões de dólares, com Lee Majors, A Moto Laser, Duro na Queda, também com Lee Majors, e tantas outras. As produções eram enlatados americanos, em sua maioria da emissora ABC que haviam feito sucesso nos EUA na década de 70 e chegaram aqui com certo atraso. Eu amava! Simples assim.

O meu ponto, contudo, ao escrever esta crônica, é que, além de ser influenciado pela cultura estadunidense e pelo “American way of life”, eu não tinha, enquanto criança, condição de aprender muito com as séries. Eram dubladas, como todas da TV aberta – destaque-se que não havia TV fechada nesta época no Brasil -, e não havia legenda também. Quem quisesse filme legendado tinha de comprar um videocassete e fazer cadastro em uma vídeo-locadora.

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Hoje em dia, ao entrar em sala de aula e ver meus alunos falarem sobre o anúncio da nova temporada de Stranger Things, vejo como os estrangeirismos chegaram para ficar. As produtoras não se preocupam mais em traduzir os nomes das séries para a língua portuguesa. As velhas traduções que, por vezes, estragavam o prazer de assistir aos filmes e séries, já não são mais necessárias. Hoje, além da escolha do idioma (pode-se escolher áudio original em japonês ao assistir um anime), os nomes originais são tratados como termos da própria língua portuguesa. É só abrir o seu Streaming (olha aí!!!) contratado e você irá se deparar com nomes como Stranger Things, The Walking Dead, True Detective, Game of Thrones, The Boys, Breaking Bad, The Witcher, House of the Dragon, The Last of Us, Grey’s Anatomy, The Big Bang Theory, Friends, Lost etc. E até o espanhol está entrando na história. Assistimos, por exemplo, ao megassucesso La Casa de Papel.

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Se esse processo é bom ou ruim, há várias perspectivas para analisarmos. O modelo ajuda no ensino da língua inglesa, um aspecto positivo. Ele tem preocupação mercadológica simplesmente e não educativa, ponto negativo.

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De qualquer forma, este processo que, é bom que se diga, está presente também em jogos: Red Dead Redemption, GTA, Minecraft e tantos outros, é algo natural que acontece sempre que dois idiomas se encontram: trocas e prevalência de um.

A mim, cabe lembrar das traduções que funcionavam e me tocam até hoje. Aos domingos à noite, visitávamos a minha querida Tia Marita, que morava na casa onde hoje é o bar Jardim do Éden. Lá, meus irmãos e eu assistíamos, toda semana, a um episódio de Knight Rider, um carro com super poderes que ajudava no combate ao crime. Nome em português? A Supermáquina. Quando criança, ganhei até um carrinho de brinquedo e hoje tenho um quadro da Supermáquina,  produzido pelo querido artista Fernando C. dos Santos, na parede da biblioteca da minha casa. Como disse Luís Vaz de Camões2, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…”, mas, “…afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda já como soía.”

  1. Louis Jude Ferrigno Sr. (Brooklyn, Nova Iorque, 9 de novembro de 1951) é um ator e ex-fisiculturista norte-americano. Ficou mundialmente famoso por participar da série de TV The Incredible Hulk (no Brasil, O Incrível Hulk).
  2. Luís Vaz de Camões (Lisboa, 1524 – Lisboa, 1579 ou 1580) foi um poeta nacional de Portugal, considerado a maior figura da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental. Sua principal obra é Os Lusíadas, obra de poesia épica, considerada a primeira epopeia portuguesa publicada em versão impressa.

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Glauco Keller
Glauco Keller
Glauco Keller é jornalista, professor da área de linguagens e história da arte. É mestrando em educação e apresenta semanalmente o Programa Subtexto pela Rádio UFSCar, no qual entrevista escritores e artistas. É autor do livro de crônicas Mata-burro.

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