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Coluna Subtexto: Cubos mágicos

Pablo Picasso e Georges Braque, inspirados em Paul Cézanne, passaram a usar formas geométricas para descrever o que viam e o que não viam

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Você já parou para pensar que a gente não enxerga tudo o que a gente vê? Quando você olha para um carro parado, não está vendo o motor, por exemplo. Quando mira uma pessoa, não está enxergando o fígado e o estômago dela.

Na arte é igual, mas é diferente. Explico. É curioso como tentamos ver na arte o que existe no mundo real. Esse fato, segundo  Will Gompertz1, autor de “Isso é arte” – 150 anos de arte moderna – do impressionismo até hoje”, é uma forma do espectador ter controle sobre o que está vendo e, consequentemente, se sentir seguro e dizer se o artista é bom ou não, se a ‘cópia’ que faz da realidade tem alta ou baixa qualidade.

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O abstracionismo, contudo, tira esse poder do espectador. Não há referência no mundo real para que haja comparação e, assim, o espectador fica refém do artista que decide quais serão os símbolos e se esses irão representar algo. O artista decide o que é arte ou não. Um risco preto pode representar um piano. Ou não! Pode ser apenas um risco preto. O espectador, desta forma, se vê frente a duas situações que lhe podem ser humilhantes: não conseguir enxergar o que todos dizem ver ou ver aquilo que não está ali.

Das várias vanguardas que levaram ao abstracionismo no começo do século XX e, consequentemente, ao establishment da arte moderna, o Cubismo2 é uma das mais revolucionárias. Pablo Picasso e Georges Braque, inspirados em Paul Cézanne, passaram a usar formas geométricas para descrever o que viam e o que não viam. Os artistas acreditavam que eram reféns dos sentidos para descrever em uma tela ou escultura o mundo real. Passaram, então, a pintar os objetos tão descontruídos que esses, embora estivessem no mundo real, não eram representados como tal. Figurativo e abstrato ao mesmo tempo.

Imagine que você decida fazer aulas de pintura e, como todo estudante iniciante, tenha de tentar copiar na tela algum objeto do ateliê. Um vaso, uma maçã ou uma caixa de papelão. A depender do lugar que você estiver na sala, verá uma parte deste objeto e, assim, tentará representá-lo na tela. Um objeto tridimensional irá se transformar em um objeto bidimensional. Assim agiram milhares de pintores e pintoras ao longo dos séculos. Vendo (ou lembrando) e pintando o que viam.

Os cubistas quiseram, contudo, pintar o que não viam. Supondo que você está pintando a caixa de papelão, é provável que a parte de trás ou interna da caixa não sejam representadas em sua obra. A menos que você resolva abrir a caixa, desmontá-la, rasgá-la e mostrar o todo do seu objeto retratado bidimensionalmente, como se fosse um objeto tridimensional. Assim, faziam os cubistas. A representação era figurativa, pois o objeto existia no mundo real, mas o resultado era abstrato, pois quase não era mais possível identificar o objeto. Através de influência da arte africana do século XVI e do uso de muitas formas geométricas (linhas, quadrados, retângulos, cubos e círculos), Picasso e Braque encontraram uma maneira de pintar o que não viam e não apenas o que viam. Les Demoiselles D’Avingon (1907) e Guernica (1937), obras com trinta anos de diferença, são exemplos daquilo que pensavam os cubistas. Por isso, quando você olhar para uma árvore, um carro, uma pessoa, saiba que há várias maneiras de representá-los e os modernos passaram a decidir qual, para a angústia dos espectadores que começaram a ter maior dificuldade de reconhecer (ou não) aquilo que era retratado. Genial, né!

  1. William Edward Gompertz é um jornalista, autor e crítico de arte inglês. Ele foi editor de artes da BBC antes de assumir o cargo de diretor artístico do Barbican Centre em 1º de junho de 2021.
  2. O cubismo recebeu esse nome em 1908, quando o crítico de arte Louis Vauxcelles descreveu as pinturas de paisagens de Georges Braque como “esquisitices cubistas” (“bizarreries cubiques”), observando que a realidade era representada por meio de formas geométricas, como cubos. A forma como os artistas desconstruíam os objetos e os mostravam a partir de múltiplos ângulos em um mesmo plano, fragmentando-os em figuras geométricas, levou ao batismo do movimento.

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Glauco Keller
Glauco Keller
Glauco Keller é jornalista, professor da área de linguagens e história da arte. É mestrando em educação e apresenta semanalmente o Programa Subtexto pela Rádio UFSCar, no qual entrevista escritores e artistas. É autor do livro de crônicas Mata-burro.

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